quinta-feira, 1 de setembro de 2016

#SOMOSTODOSIGNORANTES: A HASHTAG DO BRASIL NAS REDES SOCIAIS - Bruno Ferrari - Atividades Ensino Médio


Passamos a nos sentir à vontade para escrever absurdos nas redes sociais que jamais ousaríamos falar numa praça pública – e o horizonte não parece promissor

BRUNO FERRARI
10/08/2016 - 20h02 - Atualizado 11/08/2016 10h42



1 “O senhor Walker é o típico homem comum. Considerado um bom cidadão e de inteligência razoável. Um homem gentil, amável, pontual e honesto. Mas, por trás de um computador ou smartphone, acontece um fenômeno estranho: o senhor Walker se deixa levar pela forte sensação de poder. Sua personalidade muda completamente. De repente, ele se transforma em um monstro incontrolável e diabólico. O senhor Walker é agora o senhor Wheeler – o comentarista de redes sociais.”

2 O texto lhe soa familiar? Tirei da animação Motor mania, estrelada pelo Pateta, produzida pela Disney em 1950. Do original, apenas substituí a palavra “volante” por “computador” e “smartphone" e “motorista” por “comentarista das redes sociais”. No Brasil, o vídeo de seis minutos foi traduzido como Senhor volante (ou Pateta no volante) e é reproduzido ainda hoje em centros de formação de condutores. Serve para mostrar como as pessoas não devem se comportar no trânsito. Poderia servir para mostrar como as pessoas não deveriam se comportar nas redes sociais.

3 Em pouco mais de seis anos, o Brasil virou de ponta-cabeça. Terminamos a década de 2000 com um cenário promissor, a economia em ascensão e grande expectativa para realizar uma Copa do Mundo e uma Olimpíada. Hoje, por todos os motivos conhecidos, temos um cenário oposto e as redes sociais acabam refletindo esse duplo twist carpado em curso no país. Entramos na era da grosseria, da intolerância, marcada por uma horda de senhores Wheelers que invade portais e páginas no Facebook destilando o discurso do ódio, o racismo, a homofobia, a misoginia e a xenofobia. Curiosamente, quando estão longe dos meios digitais, muitos se portam como Walkers: bons cidadãos e de inteligência razoável.

4 A judoca Rafaela Silva é um exemplo desse comportamento. Em 2012, ao ser eliminada dos jogos de Londres, foi xingada de macaca e ofendida à exaustão nas redes sociais. Quatro anos depois, com a conquista do ouro, virou heroína nacional. Não duvido de que muitos Wheelers de 2012, insatisfeitos com a derrota, tornaram-se Walkers em 2016, depois da vitória. Pelo menos até descobrirem que Rafaela tem uma namorada que foi fundamental em sua conquista. Wheelers costumam ser fãs da “família tradicional”.

5 Outra vítima da selvageria virtual foi a nadadora Joanna Maranhão, que ficou fora da semifinal dos 200 metros medley por uma diferença de 5 centésimos em relação à última classificada. Joanna, conhecida nas redes sociais por defender ideais “de esquerda” (na falta de um termo mais preciso), foi atacada no Twitter e em sua página no Facebook. “As pessoas não gostarem do meu rendimento é um direito delas. Todo mundo quer que o brasileiro esteja no pódio”, disse em entrevista ao canal SporTV. “Mas desejar que eu seja estuprada, que a minha mãe morra, que um bandido me mate, que eu me afogue, falar que a história da minha infância eu inventei para estar na mídia [Joanna afirma que sofreu abuso quando criança de um antigo treinador]... Acho que isso ultrapassa qualquer limite”, afirmou, prometendo que acionará seus detratores na Justiça.

6 Mesmo aqueles que se sentem à vontade para fazer críticas ao desempenho de atletas devem admitir que ataques assim ultrapassam qualquer limite do aceitável. Uma das alegações mais usadas em sua página no Facebook diz que se Joanna tivesse treinado mais em vez de ficar defendendo o PT nas redes sociais não teria perdido. Não consigo ver sentido em relacionar um posicionamento político com o desempenho de um atleta.

7 Evito usar o termo “linchamento virtual” porque alguns especialistas em violência acreditam que suas consequências são incompatíveis com as de um linchamento real. De fato, a priori ninguém morre por sofrer xingamentos em série no Facebook. Eles podem, sim, servir como estopim para agravar um quadro depressivo que leve ao suicídio ou como incentivo à violência física. Mas, para além de casos extremos, tente imaginar a sensação de alguém que acaba de perder uma das provas mais importantes de sua vida e se vê alvo de milhares de mensagens ofensivas. Tente imaginar a dor que deve ser assistir a desconhecidos recuperando episódios delicados e traumáticos de sua vida como se fossem questões banais.

8 De alguma forma, passamos a nos sentir à vontade para escrever absurdos que jamais ousaríamos falar numa praça pública – e o horizonte não parece promissor. Algumas ações violentas das redes sociais já se refletem no mundo físico, como as agressões físicas e verbais sofridas pela atriz Letícia Sabatella em Curitiba.

9 Usei no texto a primeira pessoa do plural, “nós”, como uma provocação. Quero acreditar que estamos diante de uma minoria barulhenta o suficiente para fazer com que algoritmos nas redes sociais os mostrem como maioria aparente. Mas isso não impede que eu e você, que nos julgamos Walkers, tenhamos nossos lapsos virtuais de Wheelers. Infelizmente, nos trending topics do Twitter em 2016, a hashtag SomosTodosIgnorantes está em destaque.


1) Na obra original, produzida pela Disney, quem era o S. Walker e o Sr. Wheeler?

2) Há, no texto, referência a um movimento da ginástica que consiste em uma pirueta de giro em torno de si, seguido de um mortal duplo. Que movimento é esse? Por que o autor o usa como exemplo para ilustrar a situação que ocorre no país?

3) De que forma são caracterizados, no texto, o Sr. Walker e o Sr. Wheeler? Qual foi a inspiração usada pelo autor para usar esses personagens?

4) No 4º parágrafo, o autor afirma que a judoca Rafaela Silva foi xingada nas redes sociais em 2012, após ser eliminada dos jogos olímpicos de Londres. Em seguida, disse que, este ano, virou heroína nacional. Por que o autor afirma isso? No mesmo parágrafo, o autor afirma: “Wheelers costumam ser fãs da “família tradicional”, qual a relevância disso para o tema discutido no texto?

5) Que palavras, segundo o autor, foram substituídas no exemplo citado e por que houve essa substituição?

6) Por que especialistas em violência não aceitam o uso do termo “linchamento” relacionado aos ataques virtuais?

7) No 3º parágrafo o autor cita: “destilando o discurso do ódio, o racismo, a homofobia, a misoginia e a xenofobia”. Ao que se referem os termos destacados?

8) Transcreva, do texto:
a) 3 exemplos onde o prefixo -IN acrescenta, à palavra, um sentido de negação.
b) 2 exemplos onde o prefixo não acrescenta, à palavra, um sentido de negação.

9) Se substituirmos o termo destacado na frase: “Uma das alegações mais usadas em sua página no Facebook diz que se Joanna tivesse treinado mais em vez de ficar defendendo o PT nas redes sociais não teria perdido.” (6º parágrafo) – por “argumentos”, o número de termos a ser alterado é de:
a) 3                    b) 5                    c) 4                d) 6                   e) 2 

10) Observe a frase: “Todo mundo quer que o brasileiro esteja no pódio” (5º parágrafo). Se reescrevermos a frase substituindo o termo destacado por um pronome pessoal correspondente a 3ª pessoa do singular a redação da frase fica: “Todo mundo quer que ele esteja no pódio”. Reescreva a frase, substituindo o termo destacado pelos pronomes solicitados abaixo. Faça as alterações necessárias.
a) Pronome pessoal reto – 1ª pessoa do plural

b) Pronome pessoal reto – 1ª pessoa do singular: 

11) Observe a frase: “Serve para mostrar como as pessoas não devem se comportar no trânsito. ” (1º parágrafo). Se reescrevermos a frase substituindo o termo destacado por um pronome pessoal correspondente a 3ª pessoa do plural a redação da frase fica: “Serve para mostrar como elas não devem se comportar no trânsito”. Reescreva a frase, substituindo o termo destacado pelos pronomes solicitados abaixo. Faça as alterações necessárias. 
a) Pronome pessoal reto – 1ª pessoa do plural 

b) Pronome pessoal reto – 1ª pessoa do singular:

12) Na frase: “Terminamos a década de 2000 com um cenário promissor, a economia em ascensão e grande expectativa para realizar uma Copa do Mundo e uma Olimpíada..” (3º parágrafo) foi omitido um pronome:
a) Que pronome é esse e como se classifica?

b) A que pessoa do discurso se refere?


13) Na frase: “Evito usar o termo “linchamento virtual” porque alguns especialistas em violência acreditam que suas consequências são incompatíveis com as de um linchamento real” (7º parágrafo) foi omitido um pronome:
a) Que pronome é esse e como se classifica?

b) A que pessoa do discurso se refere?

14) Reescreva as orações, substituindo os termos destacados pelo pronome adequado:
a) Mesmo aqueles que se sentem à vontade para fazer textos ofensivos [...]
b) [...] servir como estopim para agravar uma doença [...]
c) [...] tente imaginar o problema [...]
d) [...] acaba de perder um dos melhores amigos [...]

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