quinta-feira, 14 de julho de 2016

RIO OLÍMPICO. SEJA BEM-VINDO. SE CONSEGUIR SOBREVIVER - Mônica Rauof El Bayed - Atividades para o Ensino Médio

Rio Olímpico. Seja bem-vindo. Se conseguir sobreviver

Um grupo de meninos se aproxima com pressa. Soltos e sós na noite fria. Traçam planos, nota-se bem. Um frio de dar pneumonia em pinguim. Eu com dois casacos. Eles de bermuda, camisa e chinelo. 

O olhar de quem encara um pobre como se fosse fera, magoa a alma de quem é olhado. Os alunos me ensinaram. Não olho. Não encaro. Não me encolho. Nem respiro. Apenas aguardo o desfecho. 

Passaram direto por mim. Apenas meninos. Crianças desesperadas de frio. Invadiram a loja aberta. Agarraram edredons. Rápidos. Experientes. Inocentes. Correram crentes que daria certo. Não deu. 

Edredom não é cordão de ouro que cabe na boca, na bermuda, na cueca. Onde esconder um edredom? Como escapar discreto com um pacote enorme embaixo do braço? 

Perseguidos pelos seguranças, largaram tudo pelo caminho. Aquela noite, na rua ou na comunidade, não ia ser melhor que as outras. Tremeriam de frio mais uma vez. 

Já se imaginou com frio sem cobertor? Com fome sem alimento? Com dor sem direito à saúde? Esse é o Rio Olímpico. A verdadeira Terra dos meninos perdidos. 

Nossos meninos, nossa promessa de futuro, morrem sem presente e matam em cada esquina. Roubam, sim. E são roubados em sua dignidade. Em seu direito à saúde, à segurança, ao conforto, a uma vida melhor. 

Na Terra dos meninos perdidos não temos fada, nem Peter Pan. Pó mágico de pirlimpimpim, esse temos. Muitos vendem. Outros são usuários. Voam na triste ilusão de poder. 

Mas o poder real não sai nunca das mesmas mãos. A mão dos Capitães Ganchos. Cruéis. Desumanos. Sentados em seus tronos. Desprovidos de alma e de culpa. Nunca sentiram frio. Nunca sentiram nada. Mandam como mandam os que só viveram em poder. Nunca em falta. 

Já se imaginou sem direito a nada? Largado como traste, sem segurança, sem estudo, pronto a ser morto na próxima esquina ou viela? Meninos pobres, policiais a serviço ou não são caçados por bandidos, pedestres ou motoristas. 

Morremos como moscas. Sem tempo nem de virar notícia. Nunca se viu tantas mortes assim. Por falta absoluta de uma política de segurança séria. Largados à sorte e ao Deus dará. Triste. Esse é o Rio Olímpico. Coloque seu colete à prova de balas. Seja bem-vindo, se conseguir sobreviver. 

Estamos todos à deriva. A calamidade pública já vigora por aqui há bastante tempo. Estado dá isenção fiscal para ricos. E os trabalhadores ficam sem seus salários. Humilhados em seus direitos mais básicos. Lutar por seus direitos, veja só, aqui virou abuso. Achei que abuso fosse não pagar quem trabalha. 

Escolas são assaltadas. A escola João Kopke, dia treze de junho, foi invadida por ladrões. Professores e alunos na mira de revólver. Levaram pertences de alunos e professores. Este mês, uma professora foi baleada no estacionamento da FAETEC. Não há porteiros, não há segurança. Só descaso. 

As turmas são enormes. As escolas caem de podre sem cuidados básicos e manutenção. O salário de muitos funcionários públicos da educação, da saúde e da segurança só desvaloriza. Não é reajustado há anos. 

A saúde não tem leitos, nem remédios. Pessoas agonizam pelo chão. Mas nem ouse pensar em morrer. O IML também não tem condições de te receber por lá. No Rio Olímpico você não tem onde cair morto, literalmente. 

Rio Olímpico é só para fortes. Você tem que ser atleta para sobreviver. Saltar as crateras das ruas e estradas. Correr dos tiroteios a qualquer hora do dia, como se fosse uma oferta relâmpago. Pular de UPA em UPA até conseguir atendimento. Lutar, em estilo livre, para conseguir entrar em trens e metrôs. Driblar credores com um salário que não tem dia para cair no banco. 

Só para encerrar, me diga: qual a semelhança entre a escola pública e a ciclovia Tim Maia (aquela que caiu)? Sabe? Eu te digo. 

As duas deveriam ser fonte de prazer, saber e acesso. Mas viraram triste palco de tragédias. Uma feia escultura reflexo dos descasos e desmandos a que somos submetidos. 

As duas deveriam nos mostrar um lindo horizonte. Mas vêm desmontando por absoluta falta de cuidado com o dinheiro do povo, com a falta de seriedade dos governantes, com a certeza de impunidade que reina por aqui. Às duas faltou a base necessária para ficar em pé. 

Às duas a sustentação correta foi sonegada. Ignorada. Ambas foram e têm sido encaradas na base do “faz qualquer coisa aí que serve”. Para o povo qualquer coisa serve. Sem seriedade, sem capricho, sem preocupação. 

Deu errado? Na ciclovia, a culpa é do mar. Esse insensível que resolveu ter ressacas. Um absurdo. Nas escolas, a culpa é dos professores. Esses insensíveis que querem receber para trabalhar. Uns loucos que lutam por uma educação de qualidade. Um absurdo. 

O mar, como os professores, só causa transtorno! Os professores, esses insanos, ousam se interessar pelo outro. Alimentam sonhos de um mundo melhor. De direitos para todos. Eles sabem que só a educação abre caminho para a verdadeira democracia. Para o respeito, para novos desafios. 

O mar é perigoso. Os professores também. Esses perigosos sabem que é preciso reagir. Mesmo no meio do caos, da calamidade pública, os professores são como o mar. Sempre e sobretudo fonte de vida, de beleza, de saber. Fonte de ressacas e de grandes navegações. 

Não se calem mesmo, professores. Para esses meninos pobres vocês são a única grande esperança. Eles precisam de vocês para ocupar suas escolas, seus pensamentos. Povoar suas esperanças de alcançar uma vida melhor. 

Lutar por um mundo mais justo, essa é a verdadeira olimpíada. Sobreviver ao triste Rio Olímpico, essa é a modalidade mais importante. O povo que faz o melhor possível, mesmo com o descaso com que são tratados, esse é o verdadeiro herói. Os verdadeiros atletas olímpicos são os que lutam, apesar de tudo e de todos, para botar comida na mesa. 

O ouro é de vocês.

1) No título, a autora sugere uma condição. Que condição é essa e, por que, na sua opinião, ela afirma isso?

2) Que frase a autora utiliza para reforçar que a noite estava realmente fria?

3) No segundo parágrafo do texto, a autora faz uma comparação. Que comparação é essa e o que, na sua opinião, ela sugere?

4) Observe a seguinte passagem do texto: "Rápidos. Experientes. Inocentes." (3º parágrafo). Experientes em quê?

5) A partir da leitura do texto, somos informados a respeito da profissão da autora. O que ela faz? Comprove com um trecho do texto.

6) A autora faz alusão a um famoso conto infantil para ilustrar o seu texto. 
a) Que conto é esse?
b) Explique a seguinte passagem do texto: "Esse é o Rio Olímpico. A verdadeira Terra dos meninos perdidos." (6º parágrafo).
c) Ao que a autora se refere, no seguinte trecho: "Pó mágico de pirlimpimpim, esse temos." (8º parágrafo)
d) Na frase: "Mas o poder nunca sai das mesmas mãos. A mão dos Capitães Ganchos." (9º parágrafo). Quem são os "Capitães Ganchos" citados pela autora?

7) O prefixo -DES acrescenta às palavras um sentido de negação. Transcreva, do texto, 3 palavras que exemplifiquem isso

8) Explique o que a autora quis dizer com a frase: "Estamos todos à deriva" (12º parágrafo).

9) Resumidamente, aponte os problemas levantados pela autora, quanto à educação, à saúde e à segurança pública.

10) A autora, em diversos trechos do texto, emprega a ironia. Transcreva frases do texto que exemplifiquem isso.

11) Segundo a autora, quais as semelhanças entre a educação e a ciclovia Tim Maia, que desabou, recentemente, no Rio de Janeiro?

12) O prefixo -IN acrescenta às palavras um sentido de negação. Transcreva, do texto, 3 termos que exemplifiquem isso:

13) Qual é, segundo a autora, o item fundamental para que a democracia funcione?

14) No texto, a autora cita algumas modalidades olímpicas. Que modalidades são essas e ao que a autora as relaciona?

15) De acordo com a autora, quem são os verdadeiros heróis olímpicos e por quê ela afirma isso?

16) "No Rio Olímpico você não tem onde cair morto, literalmente."(15º parágrafo). Por que o termo destacado na frase é importante para a compreensão da afirmação feita pela autora, anteriormente? 

17) Observe a frase: "Um grupo de meninos se aproxima com pressa." (1º parágrafo). Reescreva a frase, substituindo a expressão destacada pelo pronome pessoal adequado, empregado na 3º pessoal do plural. Faça as alterações necessárias.

18) No seguinte trecho, foi omitido um pronome: "Não encaro. Não me encolho. Nem respiro." (2º parágrafo). 
a) Que pronome é esse e como ele se classifica?
b) A que pessoa do discurso ele se refere?

19) "Muitos vendem. Outros são usuários." (8º parágrafo). Como se classificam os pronomes destacados?

20) Em que pessoa do discurso estão conjugados os verbos destacados, nas frases abaixo? Em seguida, indique qual é o pronome pessoal relativo a cada um.
a) "Passaram direto por mim." (3º parágrafo).
b) "Apenas aguardo o desfecho." (2º parágrafo).
c) "Morremos como moscas." (11º parágrafo).
d) "Estamos todos à deriva." (12º parágrafo).
e) "Sabe?" (17º parágrafo).

21) Reescreva a frase abaixo, empregando os pronomes solicitados. Faça as alterações necessárias.
"Eles sabem que só a educação abre caminho para a verdadeira democracia."(22º parágrafo)
a) Pronome pessoal reto - 1ª pessoa do singular:
b) Pronome pessoal reto - 2ª pessoa do singular.
c) Pronome pessoal reto - 3ª pessoa do singular:
d) Pronome pessoal reto - 1ª pessoa do plural:

22) Assinale a alternativa que corresponde à relação estabelecida pelos termos destacados, nas frases abaixo:
a) "Tremeriam de frio mais uma vez."
(    ) Explicação          (    ) Conclusão       (      ) Causa

b) "Mandam como mandam os que só viveram em poder".
(    ) Finalidade           (    ) Causa              (      ) Comparação

c) "O povo que faz o melhor possível, mesmo com o descaso com que são tratados, esse é o verdadeiro herói." 
(    ) Concessão         (     ) Conclusão       (       ) Consequência

d) "Eles precisam de vocês para ocupar suas escolas, seus pensamentos."
(    ) Explicação         (     ) Causa               (       ) Finalidade

e) "Os verdadeiros atletas olímpicos são os que lutam, apesar de tudo e de todos, para botar comida na mesa."
(     ) Concessão e Explicação
(     ) Finalidade e Concessão
(     ) Concessão e Finalidade

Outras atividades com o mesmo texto poderão ser encontradas no blog "Arte & Manhas da Língua", da Andreia Dequinha! Confira:



Um comentário:

Professora Andreia Dequinha disse...

Arrasou, amiga! Adorei as questões! Avise à Mônica que vc tb fez questões em cima do texto dela! Ela vai amar!