quarta-feira, 15 de julho de 2015

ENTRE A ESPADA E A ROSA - Marina Colasanti - Atividades para o 7º ano

ENTRE A ESPADA E A ROSA
Marina Colasanti



Qual é a hora de casar, senão aquela em que o coração diz "quero"? A hora que o pai escolhe. Isso descobriu a Princesa na tarde em que o Rei mandou chamá-la e, sem rodeios, lhe disse que, tendo decidido fazer aliança com o povo das fronteiras do Norte, prometera dá-la em casamento ao seu chefe. Se era velho e feio, que importância tinha frente aos soldados que traria para o reino, às ovelhas que poria nos pastos e às moedas que despejaria nos cofres? Estivesse pronta, pois breve o noivo viria buscá-la.

De volta ao quarto, a Princesa chorou mais lágrimas do que acreditava ter para chorar. Embotada na cama, aos soluços, implorou ao seu corpo, a sua mente, que lhe fizesse achar uma solução para escapar da decisão do pai. Afinal, esgotada, adormeceu.

E na noite sua mente ordenou, e no escuro seu corpo ficou. E ao acordar de manhã, os olhos ainda ardendo de tanto chorar, a Princesa percebeu que algo estranho se passava. Com quanto medo correu ao espelho! Com quanto espanto viu cachos ruivos rodeando-lhe o queixo! Não podia acreditar, mas era verdade. Em seu rosto, uma barba havia crescido.

Passou os dedos lentamente entre os fios sedosos. E já estendia a mão procurando a tesoura, quando afinal compreendeu. Aquela era a sua resposta. Podia vir o noivo buscá-la. Podia vir com seus soldados, suas ovelhas e suas moedas. Mas, quando a visse, não mais a quereria. Nem ele nem qualquer outro escolhido pelo Rei.

Salva a filha, perdia-se porém a aliança do pai. Que tomado de horror e fúria diante da jovem barbada, e alegando a vergonha que cairia sobre seu reino diante de tal estranheza, ordenou-lhe abandonar o palácio imediatamente.

A Princesa fez uma trouxa pequena com suas jóias, escolheu um vestido de veludo cor de sangue. E, sem despedidas, atravessou a ponte levadiça, passando para o outro lado do fosso. Atrás ficava tudo o que havia sido seu, adiante estava aquilo que não conhecia.

Na primeira aldeia aonde chegou, depois de muito caminhar, ofereceu-se de casa em casa para fazer serviços de mulher. Porém ninguém quis aceitá-la porque, com aquela barba, parecia-lhes evidente que fosse homem.

Na segunda aldeia, esperando ter mais sorte, ofereceu-se para fazer serviços de homem. E novamente ninguém quis aceitá-la porque, com aquele corpo, tinham certeza de que era mulher.

Cansada mas ainda esperançosa, ao ver de longe as casas da terceira aldeia, a Princesa pediu uma faca emprestada a um pastor, e raspou a barba. Porém, antes mesmo de chegar, a barba havia crescido outra vez, mais cacheada, brilhante e rubra do que antes.

Então, sem mais nada pedir, a Princesa vendeu suas jóias para um armeiro, em troca de uma couraça, uma espada e um elmo. E, tirando do dedo o anel que havia sido de sua mãe, vendeu-o para um mercador, em troca de um cavalo.

Agora, debaixo da couraça, ninguém veria seu corpo, debaixo do elmo, ninguém veria sua barba. Montada a cavalo, espada em punho, não seria mais homem, nem mulher. Seria guerreiro.

E guerreiro valente tornou-se, à medida que servia aos Senhores dos castelos e aprendia a manejar as armas. Em breve, não havia quem a superasse nos torneios, nem a vencesse nas batalhas. A fama da sua coragem espalhava-se por toda parte e a precedia. Já ninguém recusava seus serviços. A couraça falava mais que o nome.

Pouco se demorava em cada lugar. Lutava cumprindo seu trato e seu dever, batia-se com lealdade pelo Senhor. Porém suas vitórias atraíam os olhares da corte, e cedo os murmúrios começavam a percorrer os corredores. Quem era aquele cavaleiro, ousado e gentil, que nunca tirava os trajes de batalha? Por que não participava das festas, nem cantava para as damas? Quando as perguntas se faziam em voz alta, ela sabia que era chegada a hora de partir. E ao amanhecer montava seu cavalo, deixava o castelo, sem romper o mistério com que havia chegado.

Somente sozinha, cavalgando no campo, ousava levantar a viseira para que o vento lhe refrescasse o rosto acariciando os cachos rubros. Mas tornava a baixá-la, tão logo via tremular na distância as bandeiras de algum torreão.

Assim, de castelo em castelo, havia chegado àquele governado por um jovem Rei. E fazia algum tempo que ali estava.

Desde o dia em que a vira, parada diante do grande portão, cabeça erguida, oferecendo sua espada, ele havia demonstrado preferi-la aos outros guerreiros. Era a seu lado que a queria nas batalhas, era ela que chamava para os exercícios na sala de armas, era ela sua companhia preferida, seu melhor conselheiro. Com o tempo, mais de uma vez, um havia salvo a vida do outro. E parecia natural, como o fluir dos dias, que suas vidas transcorressem juntas.

Companheiro nas lutas e nas caçadas, inquietava-se porém o Rei vendo que seu amigo mais fiel jamais tirava o elmo. E mais ainda inquietava-se, ao sentir crescer dentro de si um sentimento novo, diferente de todos, devoção mais funda por aquele amigo do que um homem sente por um homem. Pois não podia saber que à noite, trancado o quarto, a princesa encostava seu escudo na parede, vestia o vestido de veludo vermelho, soltava os cabelos, e diante do seu reflexo no metal polido, suspirava longamente pensando nele.

Muitos dias se passaram em que, tentando fugir do que sentia, o Rei evitava vê-la. E outros tantos em que, percebendo que isso não a afastava da sua lembrança, mandava chamá-la, para arrepender-se em seguida e pedia-lhe que se fosse.

Por fim, como nada disso acalmasse seu tormento, ordenou que viesse ter com ele. E, em voz áspera, lhe disse que há muito tempo tolerava ter a seu lado um cavaleiro de rosto sempre encoberto. Mas que não podia mais confiar em alguém que se escondia atrás do ferro. Tirasse o elmo, mostrasse o rosto. Ou teria cinco dias para deixar o castelo.

Sem resposta, ou gesto, a Princesa deixou o salão, refugiando-se no seu quarto. Nunca o Rei poderia amá-la, com sua barba ruiva. Nem mais a quereria como guerreiro, com seu corpo de mulher. Chorou todas as lágrimas que ainda tinha para chorar. Dobrada sobre si mesma, aos soluços, implorou ao seu corpo que lhe desse uma solução. Afinal, esgotada, adormeceu.

E na noite seu mente ordenou, e no escuro seu corpo brotou. E ao acordar de manhã, com os olhos inchados de tanto chorar, a Princesa percebeu que algo estranho se passava. Não ousou levar as mãos ao rosto. Com medo, quanto medo! Aproximou-se do escudo polido, procurou seu reflexo. E com espanto, quanto espanto! Viu que, sim, a barba havia desaparecido. Mas em seu lugar, rubras como os cachos, rosas lhe rodeavam o queixo.

Naquele dia não ousou sair do quarto, para não ser denunciada pelo perfume, tão intenso, que ela própria sentia-se embriagar de primavera. E perguntava-se de que adiantava ter trocado a barba por flores, quando, olhando no escudo com atenção, pareceu-lhe que algumas rosas perdiam o viço vermelho, fazendo-se mais escuras que o vinho. De fato, ao amanhecer, havia pétalas no seu travesseiro.

Uma após a outra, as rosas murcharam, despetalando-se lentamente. Sem que nenhum botão viesse substituir as flores que se iam. Aos poucos, a rósea pele aparecia. Até que não houve mais flor alguma. Só um delicado rosto de mulher.

Era chegado o quinto dia. A Princesa soltou os cabelos, trajou seu vestido cor de sangue. E, arrastando a cauda de veludo, desceu as escadarias que a levariam até o Rei, enquanto um perfume de rosas se espalhava no castelo.

1) Qual é a hora de casar, segundo o texto?

2) Em troca de que o Rei daria a princesa em casamento?

3) Observe a frase: “E na noite sua mente ordenou, e no escuro seu corpo ficou.” (3º parágrafo). O que a mente da princesa ordenou? Qual foi a consequência disso?

4) Qual foi a reação do rei? Por que ele agiu dessa forma?

5) O que a princesa levou consigo, ao deixar o castelo?

6) Quais foram os serviços que a Princesa procurou e por que ela foi rejeitada?

7) Por que ela vendeu suas jóias? De que forma ela passou a viver depois disso?

8) Quanto tempo a princesa ficava em cada reino? E quando ela sabia que era a hora de partir? Por quê?

9) Certo dia a princesa chegou ao reino de um jovem Rei. Como ele a tratava?

10) Observe a frase: “Muitos dias se passaram em que, tentando fugir do que sentia, o Rei evitava vê-la.”(18º parágrafo). Do que o rei fugia? E por quê?

11) Depois disso, o que o jovem Rei ordenou?

12) Observe: “E na noite sua mente ordenou, e no escuro seu corpo brotou”(20º parágrafo). O que a mente da princesa ordenou dessa vez? A solução foi a mesma da primeira vez? Justifique:

13) Releia a frase: “Salva a filha, perdia-se porém a aliança do pai.”(5º parágrafo). Pesquise o significado da palavra destacada e responda com qual sentido ela foi empregada no texto.

14) Observe a frase: “Por fim, como nada disso acalmasse seu tormento, ordenou que viesse ter com ele.” (19º parágrafo). 
a) Ao que se refere, no texto, o pronome “(d)isso” destacado?
b) Pesquise o significado da palavra “tormento” e responda: o que nada conseguia acalmar?
c) Explique a expressão: “viesse ter com ele”.

15) Há, no texto, diversas passagens que se referem a cor vermelha. A cor vermelha está presente em que? Por que você acha que foi escolhida essa cor?

16) De que forma o narrador refere-se ao “espelho”?

17) Há, no texto, uma palavra sinônima de “cochichos”. Que palavra é essa?

18) Quais os adjetivos que caracterizam o substantivo “cavaleiro”, no 13º parágrafo?

19) Que palavra foi usada para introduzir a pergunta, no primeiro parágrafo do texto?

20) O pronome demonstrativo "aquela" refere-se a que termo empregado anteriormente, na frase?

21) O pronome demonstrativo "isso", no primeiro parágrafo do texto, faz referência a quê?

22) Releia a frase: "Isso descobriu a Princesa na tarde em que o Rei mandou chamá-la e, sem rodeios, lhe disse que, tendo decidido fazer aliança com o povo das fronteiras do Norte, prometera dá-la em casamento ao seu chefe." (1º parágrafo).
a) O pronome pessoal obliíuo "la" foi usado para referir-se a quem?
b) Que outro pronome foi usado para referir-se à princesa, neste trecho?
c) O pronome possessivo "seu" estabelece uma relação de posse entre quais substantivos  deste contexto?

23) Há, no segundo parágrafo do texto, dois pronomes possessivos, ou seja, pronomes que indicam que algo pertence a alguém. Destaque-os e indique a relação de posse estabelecida.

24) Observe o seguinte trecho: "Podia vir o noivo buscá-la. Podia vir com seus soldados, suas ovelhas, suas moedas. (4º parágrafo). 
a) Os pronomes possessivos destacados indicam que os soldados, as ovelhas e as moedas pertencem a quem?
b) O pronome pessoal oblíquo "la" refere-se a quem?

25) Observe: "E tirando do dedo o anel que havia sido de sua mãe, vendeu-o para um mercador em troca de um cavalo." (10º parágrafo).
a) Destaque o pronome possessivo.
b) O pronome pessoal oblíquo destacado "o" foi usado para evitar a repetição de que outro termo já usado anteriormente.

26) Na frase: "A fama de sua coragem espalhava-se por toda a parte e a precedia." *
(12º parágrafo).
a) Localize o pronome possessivo presente na frase e indique o que pertence a quem.
b) O pronome pessoal oblíquo "a" refere-se a quem?

27) Na frase: "Mas tornava a baixá-la." (14º parágrafo). O pronome destacado refere-se:
(   ) à viseira.
(   ) às bandeiras.
(   ) à princesa.

28) Assinale a alternativa que substitui, corretamente, as expressões destacadas nas frases abaixo:
a) "Soltava os cabelos." (17º parágrafo)
(    ) Soltava-os.
(    ) Soltava-o.
(    ) Soltava-lhes.

b) "Ou teria cinco dias para deixar o castelo." (18º parágrafo).
(    ) Ou teria cinco dias para deixar-o.
(    ) Ou teria cinco dias para deixá-lo.
(    ) Ou teria cinco dias para deixar-lhe.

c) "Sem que nenhum botão viesse substituir as flores [...]." (23º parágrafo).
(   ) Sem que nenhum botão viesse substituí-lhe."
(   ) Sem que nenhum botão viesse substituir-lhe."
(   ) Sem que nenhum botão viesse substituí-las"

29)  Releia o trecho abaixo e responda as questões:
"E outros tantos em que percebendo que isso não a afastava da sua lembrança, mandava chamá-la para arrepender-se em seguida e pedia-lhe que se fosse." (18º parágrafo).
a) Qual (is) dos pronomes destacados refere-se à princesa?
b) Qual (is) se referem ao Rei?









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