quarta-feira, 6 de maio de 2015

Não seja professor - Vladimir Safatle


Não seja professor
Vladimir Safatle

Quem escreve este artigo é alguém que é professor universitário há quase 20 anos e que gostaria de estar neste momento escrevendo o contrário do que se vê obrigado agora a dizer. Pois, diante das circunstâncias, gostaria de aproveitar o espaço para escrever diretamente a meus alunos e pedir a eles que não sejam professores, não cometam esse equívoco. Esta “pátria educadora” não merece ter professores.

Um professor, principalmente aquele que se dedicou ao ensino fundamental e médio, será cotidianamente desprezado. Seu salário será, em média, 51% do salário médio daqueles que terão a mesma formação. Em um estudo publicado há meses pela OCDE, o salário do professor brasileiro aparece em penúltimo lugar em uma lista de 35 países, atrás da Turquia, do Chile e do México, entre tantos outros.

Mesmo assim, você ouvirá que ser professor é uma vocação, que seu salário não é assim tão ruim e outras amenidades do gênero. Suas salas de aula terão, em média, 32 alunos, enquanto no Chile são 27 e Portugal, 8. Sua escola provavelmente não terá biblioteca, como é o caso de 72% das escolas públicas brasileiras.

Se você tiver a péssima ideia de se manifestar contra o descalabro e a precarização, caso você more no Paraná, o governo o tratará à base de bomba de gás lacrimogêneo, cachorro e bala de borracha. Em outros Estados, a pura e simples indiferença. Imagens correrão o mundo, a Anistia Internacional irá emitir notas condenando, mas as principais revistas semanárias do país não darão nada a respeito nem do fato nem de sua situação. Para elas e para a “opinião pública” que elas parecem representar, você não existe.

Mais importante para eles não é sua situação, base para os resultados medíocres da educação nacional, mas alguma diatribe canina contra o governo ou os emocionantes embates entre os presidentes da Câmara e do Senado a fim de saber quem espolia mais um Executivo nas cordas.

No entanto, depois de voltar para casa sangrando por ter levado uma bala de borracha da nossa simpática PM, você poderá ter o prazer de ligar a televisão e ouvir alguma celebridade deplorando o fato de o país “ter pouca educação” ou algum candidato a governador dizer que educação será sempre a prioridade das prioridades.

Diante de tamanho cinismo, você não terá nada a fazer a não ser alimentar uma incompreensão profunda por ter sido professor, em vez de ter aberto um restaurante. Por isso o melhor a fazer é recusar-se a ser professor de ensino médio e fundamental. Assim, acordaremos um dia em um país que não poderá mais mentir para si mesmo, pois as escolas estarão fechadas pela recusa de nossos jovens a serem humilhados como professores e a perpetuarem a farsa.”

1) Em relação ao texto, é correto afirmar:
I – O autor afirma que gostaria de estar escrevendo um texto incentivando os alunos a serem professores.
II – De acordo com o texto, os professores mais desprezados são os que trabalham na educação básica.
III – Por ser vocação, o autor do texto dá a entender que um professor não precisa ganhar muito mais do que ganha, atualmente.
IV – Professores que se manifestam contra a situação precária da educação, ou são agredidos ou são tratados com indiferença.
V – Segundo o autor, internacionalmente, a situação precária da educação é condenada através de notas emitidas pela Anistia Internacional. Já aqui no Brasil, o fato é basicamente ignorado pelas revistas semanais e pela opinião pública.

a) Todas as alternativas estão corretas.
b) Nenhuma alternativa está correta.
c) I e III estão incorretas.
d) I, II, IV e V estão incorretas.
e) I, II, IV e V estão corretas.

2) Para quem o autor direciona seu texto?

3) Segundo o autor, o que é mais importante para os representantes das revistas semanais e para a opinião pública?

4) Quando, segundo o autor, a situação da educação é retratada na mídia?

5) A que cinismo se refere o autor do texto?

6) Observe a frase: [...] pois as escolas estarão fechadas pela recusa de nossos jovens a serem humilhados como professores e a perpetuarem a farsa.” (7º parágrafo). Qual seria essa farsa?

7) Vladimir Safatle pede, em seu texto, que os alunos não cometam o erro de se formarem professores. Que palavra é utilizada, no contexto, para dizer isso?

8) Em relação à substituição vocabular, análise as afirmações abaixo e assinale a alternativa correta.

I – “Mais importante para eles não é sua situação, base para os resultados medíocres da educação nacional [...]” (5º parágrafo) – o termo destacado na frase significa que os resultados da educação no Brasil, não são satisfatórios.
II – “ [...] ou os emocionantes embates entre os presidentes da Câmara e do Senado a fim de saber quem espolia mais um Executivo nas cordas.” (5º parágrafo) – neste contexto, “embate” significa discordância e “espolia”, roubo.
III – “[...] você poderá ter o prazer de ligar a televisão e ouvir alguma celebridade deplorando o fato de o país “ter pouca educação”(7º parágrafo) – o termo destacado pode se substituído por “lastimando”, sem alterar o sentido da frase.

a) Todas estão corretas.
b) Nenhuma está correta.
c) Apenas a III está correta.
d) I e II estão incorretas.
e) II e III estão incorretas.

9) Observe a imagem e as tirinhas abaixo e crie um texto dissertativo-argumentativo a respeito do tema:









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