quinta-feira, 26 de março de 2015

Análise dos textos "Diferente, mas igual" (Roberta Simoni) e "Debaixo da Ponte" (Carlos Drummond de Andrade)

TEXTO 1
Diferente, mas igual

Roberta Simoni

Fui abordada por uma moradora de rua que já vi algumas vezes ali pela Glória. Uma mulher negra, alta, que deve beirar seus trinta e poucos anos e que tá sempre falando alto e mexendo com todo mundo que passa por ela na rua. Hoje foi a minha vez:

“Olha, você me parece uma moça bem informada e inteligente, por isso, vou direto ao ponto: sou moradora de rua, mendiga mesmo, e tô com fome, não tenho nada para te oferecer, mas se você tiver algum trocado aí pra me dar...”

Não costumo dar dinheiro a pedintes, quando posso – e quando eles aceitam – pago um lanche na lanchonete mais próxima, mas estava com pressa e tinha uns trocados no bolso. Enquanto contava as moedas para dividir com ela e com a passagem que usaria para pegar o metrô, observei que ela usava uns pedaços de pano que fez de mini-saia e top para se cobrir e brinquei: “gostei do visual”. Ela foi logo se desculpando pela forma como estava vestida. “Não, não… você não tá entendendo, eu realmente gostei da sua roupa, especialmente com o calor que tá fazendo hoje, é de se invejar!” Ela riu e ficou me olhando contar as moedas misturadas com algumas notas de R$ 2,00 amassadas. Expliquei: “sou jornalista”.

Quanto terminei a contagem daquela pequena fortuna que (supostamente) pagaria o almoço dela e a minha passagem de volta para casa, perguntei seu nome. Ela ficou me olhando por um longo tempo e, por fim, disse: “você é diferente”.

“Eu sei, me sinto assim o tempo todo.”

“É, eu também.”

Ficamos nos encarando por segundos quase longos, como dois E.T.s que se reconhecem na multidão, até ela se virar, ir embora e, dois passos a seguir, parar novamente, olhar para trás e, com as moedas numa mão e a outra apoiada na cintura, me encarar mais uma vez, com uma expressão irônica, e dizer: “Afff… sabia que você me fez ficar pensativa?”

“É, você também.”

Sempre penso no que pode ter acontecido na vida de uma pessoa que acabou indo morar nas ruas. E sempre, sempre penso que a vida, no fim das contas, é uma tacada de sorte ou azar. Dependendo de onde se nasce e sendo filho de quem se é, qualquer um pode parar no mesmo lugar que ela. Qualquer um mesmo, com talentos, aptidões, personalidades e sonhos semelhantes, mas chances diferentes. É o que alguns chamam de destino.

E ela ainda começou a conversa dizendo que não tinha nada a me oferecer…

1) Em relação ao texto, analise as afirmações abaixo e assinale a alternativa correta.
I - A moradora de rua que abordou a jornalista chama-se Glória.
II - A jornalista pagou um lanche à pedinte, como geralmente faz com quem lhe pede dinheiro.
III - Conforme o texto, qualquer um de nós pode ter o mesmo destino da moradora de rua, pois tudo na vida é uma questão de sorte ou azar.

a) Todas estão corretas.
b) Nenhuma está correta.
c) I e II estão corretas.
d) II e III estão corretas.
e) Apenas a III está correta.

2) Qual foi o critério usado pela jornalista para dar dinheiro à moradora de rua?

3) Por que a autora emprega a expressão "pequena fortuna" na frase "Quando terminei a contagem daquela pequena fortuna [...]? (4º parágrafo).

4) Por que será que a moradora disse à jornalista "Você é diferente"? (4º parágrafo).

5) Observe a frase: "E ela ainda começou a conversa dizendo que não tinha nada a me oferecer..." (10º parágrafo). O que será que a moradora de rua ofereceu à jornalista?

6) Qual a função das aspas empregadas no texto?

7) Que outros substantivos foram utilizados no texto, como sinônimos de "moradora de rua"?

8) Que outros substantivos foram utilizados no texto, como sinônimos de "dinheiro"?

9) Assinale a frase onde o termo "mexer" tem o mesmo sentido com que foi usado na seguinte passagem do texto: "Uma mulher negra, alta, que deve beirar seus trinta e poucos anos e que tá sempre falando alto e mexendo com todo mundo [...]." (1º parágrafo).
(     ) Quando acordou, percebeu que não conseguia mexer as pernas.
(     ) Levou uma surra, pois estava mexendo com mulheres casadas.
(     ) O técnico mexeu no time no segundo tempo do jogo.

10) Transcreva, do texto, os adjetivos que caracterizam os substantivos abaixo:
a) mulher (1º parágrafo):
b) moça (2º parágrafo):
c) fortuna (4º parágrafo):
d) expressão (7º parágrafo):

11) Reescreva a frase abaixo, eliminando a locução adjetiva:
a) "[...] mas estava com pressa [...]":

12) Transcreva, do texto, dois substantivos comuns de dois gêneros:

13) Transcreva, do texto, um substantivo sobrecomum:

14) Se passarmos o substantivo "mulher" para o masculino, na frase "Uma mulher negra, alta, que deve beirar seus trinta e poucos anos e que tá sempre falando alto e mexendo com todo mundo que passa por ela na rua." (1º parágrafo), o número de termos a ser alterado é de:
a) 5.                  b) 6.             c) 4.           d) 7.          e) 3.

15) Identifique e classifique os sujeitos das orações abaixo:
a) "Fui abordada por uma moradora de rua que já vi algumas vezes ali pela Glória."
b) "Hoje foi a minha vez."
c) "Ela foi logo se desculpando pela forma como estava vestida."
d) "[...] acabou indo morar nas ruas."
e) Pediram dinheiro à jornalista.

16) Transcreva, do texto, uma frase nominal:

17) Quantos períodos tem o penúltimo parágrafo do texto?

18) O quinto parágrafo do texto é simples ou composto? Justifique:

19) Quantas orações tem o sexto parágrafo do texto?

TEXTO 2

Debaixo da ponte
(Drummond de Andrade)

Moravam debaixo da ponte. Oficialmente, não é lugar onde se more, porém eles moravam. Ninguém lhes cobrava aluguel, imposto predial, taxa de condomínio: a ponte é de todos, na parte de cima; de ninguém, na parte de baixo. Não pagavam conta de luz e gás, porque luz e gás não consumiam. Não reclamavam contra falta d`água, raramente observada por baixo de pontes. Problema de lixo não tinham; podia ser atirado em qualquer parte, embora não conviesse atirá-lo em parte alguma, se dele vinham muitas vezes o vestuário, o alimento, objetos de casa. Viviam debaixo da ponte, podiam dar esse endereço a amigos, recebê-los, fazê-los desfrutar comodidades internas da ponte. 

À tarde surgiu precisamente um amigo que morava nem ele mesmo sabia onde, mas certamente morava: nem só a ponte é lugar de moradia para quem não dispõe de outro rancho. Há bancos confortáveis nos jardins, muito disputados; a calçada, um pouco menos propícia; a cavidade na pedra, o mato. Até o ar é uma casa, se soubermos habitá-lo, principalmente o ar da rua. O que morava não se sabe onde vinha visitar os de debaixo da ponte e trazer-lhes uma grande posta de carne. 

Nem todos os dias se pega uma posta de carne. Não basta procurá-la; é preciso que ela exista, o que costuma acontecer dentro de certas limitações de espaço e de lei. Aquela vinha até eles, debaixo da ponte, e não estavam sonhando, sentiam a presença física da ponte, o amigo rindo diante deles, a posta bem pegável, comível. Fora encontrada no vazadouro, supermercado para quem sabe frequentá-lo, e aqueles três o sabiam, de longa e olfativa ciência. 

Comê-la crua ou sem tempero não teria o mesmo gosto. Um de debaixo da ponte saiu à caça de sal. E havia sal jogado a um canto de rua, dentro da lata. Também o sal existe sob determinadas regras, mas pode tornar-se acessível conforme as circunstâncias. E a lata foi trazida para debaixo da ponte. Debaixo da ponte os três prepararam comida. 

Debaixo da ponte a comeram. Não sendo operação diária, cada um saboreava duas vezes: a carne e a sensação de raridade da carne. E iriam aproveitar o resto do dia dormindo (pois não há coisa melhor, depois de um prazer, do que o prazer complementar do esquecimento), quando começaram a sentir dores. 

Dores que foram aumentando, mas podiam ser atribuídas ao espanto de alguma parte do organismo de cada um, vendo-se alimentado sem que lhe houvesse chegado notícia prévia de alimento. Dois morreram logo, o terceiro agoniza no hospital. Dizem uns que morreram da carne, dizem outros que do sal, pois era soda cáustica. Há duas vagas debaixo da ponte.

1) Por que o narrador diz que não convinha atirar o lixo em parte alguma?

2) Observe a frase: "[...] nem só a ponte é lugar de moradias para os que não dispõem de outro rancho." (2º parágrafo). Que outros lugares servem de moradia, segundo o narrador?

3) Explique a frase: "cada um saboreava duas vezes: a carne e a sensação da raridade da carne." (5º parágrafo).

4) Com o que os moradores temperaram a carne?

5) Encontre, no texto, sinônimos para as palavras abaixo:
a) pedaço:
b) favorável:
c) aproveitar:

6) Qual é a relação entre os dois textos lidos? Eles pertencem ao mesmo gênero?

7) Substitua o adjetivo destacado na expressão abaixo, pela locução adjetiva correspondente:
a) imposto predial:

8) Substitua o as locuções adjetivas destacadas na frase abaixo, pelos adjetivos correspondentes:
a) "[...] a ponte é de todos, na parte de cima; de ninguém, na parte de baixo."

9) Quantas orações tem o último período do primeiro parágrafo do texto?

10) Identifique e classifique os sujeitos das orações abaixo:
a) "Não reclamavam contra falta d`água, raramente observada por baixo de pontes."
b) "À tarde surgiu precisamente um amigo [...]"
c) "Há duas vagas debaixo da ponte."

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