terça-feira, 17 de março de 2015

Análise de Textos sobre a Legalizaçao do Aborto

Texto 1
Por que não vou postar uma foto da minha barriga em uma campanha contra o aborto
Vanessa Lima

Acordei ontem com a timeline cheia de amigas grávidas. Quanto amor, quanto neném, quanta ocitocina rolando em cada nó dessas redes sociais! Mas, depois de tomar minha pequena grande xícara de café com leite e esfregar os olhos direitinho, comecei a ler as legendas e vi que era uma campanha contra o aborto. Pelo que entendi, funciona assim: você posta uma foto sua grávida e depois desafia uma amiga a fazer o mesmo e assim por diante. A coisa vai virando uma corrente. Até fui desafiada por algumas amigas (superqueridas, é bom que se diga), mas, em vez de simplesmente ignorar o pedido, resolvi fazer um post explicando com mais detalhes meus motivos para quebrar a corrente. A campanha se diz contra o aborto e pró-vida, mas eu acho que as duas coisas não conversam. Sou sim pró-vida e é justamente por isso que sou a favor da legalização do aborto.

Vamos por partes. Quando dizemos “pró-vida”, estamos falando da vida de quem? Só do bebê? E a vida da mãe? Não conta? O bebê precisa sobreviver e a mulher que se dane. E se esse bebê sobreviver, que tipo de vida ele vai ter? Tudo bem se uma mulher entrar numa clínica num fundo de garagem e ser tratada como uma carne de terceira em um açougue de quinta?

Aí você, defensor da moral e dos bons costumes, vai logo argumentar: “Mas também, quem mandou querer abortar? Merece!” (Ah, a nossa facilidade de identificar quem merece ou não merece algum destino… Quantos deuses, quanta onipotência!)]

Olha, gente, o buraco é muito, mas muito, mais embaixo.

Muita gente não entende e pode até despejar um caminhão de acusações e dedos indicadores apontados para a minha cara. Mas SOU A FAVOR DA LEGALIZAÇÃO DO ABORTO.

Aí, algumas pessoas vão me perguntar: “Mas como? Você, que fala tanto dos bebês, de gravidez, de amamentação, de parto natural e todas essas coisas de índio? Mas quanta hipocrisia isso agora, de defender o aborto!”.

Eu explico: eu sou contra o aborto em mim, mas, por uma questão de saúde pública, sou a favor da legalização para quem, por algum motivo (e podem existir vários, diversos, alguns até que a gente nunca imaginou) escolhe esse caminho. Não conheço as histórias de todas as mulheres que fizeram, fazem e farão essa opção. Então, simplesmente não dá para julgar.

Ter um filho é algo que vira sua vida de cabeça para baixo, que muda tudo e que, às vezes, até te sufoca com tanta responsabilidade. Ainda que isso aconteça de maneira planejada, desejada, em um lar cheio de amor, com mãe e pai plenamente absorvidos pela paternidade e dedicados à tarefa de cuidar daquele novo ser, é EXTREMAMENTE difícil. Imagine quando a situação não se parece em nada com isso?

“Ué, mas na hora de fazer foi gostoso”, dirão os puritanos, com dedos em riste. Será que foi mesmo? Em que condições isso aconteceu? Você sabe? E se foi mesmo? Por que ninguém fala isso para o pai?

Quantos pais abortam e ninguém fala nada? É que o aborto do pai é mais fácil e livre de julgamentos. Ele simplesmente vai embora, some e nunca mais olha na cara daquela mulher, com a qual ele gerou um filho. Pronto, abortou. Não vai ser mais pai. A criança e a mulher morreram para ele. Ainda é capaz de receber tapinhas nas costas e ouvir elogios: “Fez bem, amigo, saiu na hora certa”.

Não fiz nenhuma pesquisa, mas não tenho medo de afirmar, mesmo assim, que, pelo menos 9 (se não 10) entre 10 mulheres, que já realizaram um aborto sofreram – e ainda sofrem, ainda que tenha sido há muito tempo – por isso. Ninguém é a favor do aborto dessa maneira, como apontam os tais pró-vida/contra aborto. Ninguém acha legal ou acorda de manhã pensando: “Nossa, que dia maravilhoso. Quer saber? Acho que vou ali fazer um aborto” ou então “Ah, dane-se. Não vou usar camisinha. Daqui a alguns meses faço um aborto e pronto”. É uma decisão trágica, desesperadora e que marca para sempre a vida da mulher.

A diferença é que algumas delas vão de óculos-escuros a clínicas chiques e entregam cheques gordos a recepcionistas bem arrumadas e com brincos de pérolas nos bairros mais ricos das grandes metrópoles. Outras, se submetem aos açougueiros, que mencionei acima. E essas últimas, infelizmente, de maioria negra e pobre, se deitam nestas macas sujas e nunca mais se levantam.

Sou contra o aborto, sim, em mim. Por isso não faço. E se você é contra o aborto também, que ótimo: simplesmente não faça também. Mas sou a favor da legalização do aborto, porque sei que as mulheres que decidem fazer, vão fazer de qualquer maneira. Que pelo menos elas possam fazer isso de maneira segura, sem arriscar a própria vida. Que existam menos Jandiras, menos Cláudias, menos Marias e menos Antônias. Afinal, somos ou não somos a favor da vida?

1) Quais as duas coisas que não conversam, na opinião da autora? Como ela embasa essa opinião?
2) Quais os argumentos usados pela autora, para defender a legalização do aborto?

3) Qual é o recado que a autora dá aos que são contra o aborto e sua legalização?

4) De que forma a autora atribui o aborto à figura paterna?

5) A quem se refere a autora na frase “Que existam menos Jandiras, menos Cláudias, menos Marias e menos Antônias.”? (13º parágrafo).

6) Em relação ao texto, é correto afirmar:
I – A autora se posiciona a favor do aborto e deixa a entender que optaria por esse método, caso fosse necessário.
II – Conforme o texto, apenas 1 entre 10 mulheres sofre em razão de terem feito um aborto.
III – Segundo a autora, o aborto é uma decisão trágica, pois afeta para sempre a vida das mulheres. 
IV – O texto apresenta duas realidades em relação às clínicas de aborto: as que atendem àquelas que têm dinheiro, e as que a autora compara a açougues de quinta, opção para as mais pobres.
V – A autora dá a entender, no texto, que as mulheres pobres, na maioria, negras, são as que morrem nas clínicas clandestinas.

a) I, II e III estão corretas.
b) II, III e IV estão corretas.
c) III, IV e V estão incorretas.
d) I e II estão incorretas.
e) I e II estão corretas.

7) Transcreva, do texto, a frase em que aparece um sinônimo de “poder absoluto”.

8) Assinale a alternativa onde o termo “corrente” foi empregado com o mesmo sentido com que foi usado na frase “A coisa vai virando uma corrente.” (1º parágrafo).
(   ) Uma corrente de ar frio entrava pela janela.
(   ) Ostentando no pulso uma corrente de ouro, o homem falava agitando o braço.
(   ) Uma mesma corrente de pensamentos unia nosso grupo.

9) Explique a expressão destacada na frase “[...] dirão os puritanos, com dedos em riste.” (8º parágrafo).

10) Transcreva do texto, 4 substantivos sobrecomuns.

11) Transcreva, do 12º parágrafo, um substantivo comum-de-dois gêneros.

12) Transcreva, do texto, um substantivo composto.

13) Transcreva, do texto, dois substantivos derivados, indicando-lhes os primitivos.

14) Na frase “É uma decisão trágica, desesperada e que marca para sempre a vida da mulher.” (11º parágrafo), os termos destacados derivam de quais substantivos abstratos?

15) Classifique os períodos abaixo em simples ou compostos.
a) A coisa vai virando uma corrente.
b) Quando dizemos pró-vida, estamos falando da vida de quem?
c) Por que ninguém fala isso para o pai?
d) Afinal, somos ou são somos a favor da vida?
e) Sou sim pró-vida e é justamente por isso que sou a favor da legalização do aborto.

16) Quantos períodos tem o primeiro parágrafo do texto?

17) Transcreva, do texto, duas frases nominais.

18) Quantas orações tem o primeiro período do último parágrafo do texto?

Texto 2
Eu te desafio a pensar outra vez sobre aborto
11 de fevereiro de 2015 Renata Corrêa

Está rolando no facebook, principalmente nos grupos de mães um novo “desafio”.

Desafios na língua do facebook são correntes para espalhar uma campanha, uma ação, um viral, ou uma opinião.

O desafio dessa semana é o “Desafio contra o aborto” – Muitas grávidas postando fotos suas, lindas, com um barrigão e contando o quão foi maravilhosa e transformadora sua experiência com a maternidade. Eu não poderia concordar mais. Sou mãe de uma garotinha de dois anos que me espanta e emociona todos os dias. Depois que fui mãe meu olhar para o mundo ficou mais gentil e generoso, e é um privilégio poder amar e ser amada por essa criaturinha tão especial.

Quando me perguntavam por que eu decidi ficar grávida e ter um filho, eu sempre respondia a única coisa que parecia correta para mim: eu quero. Eu desejo isso. Nunca entendi muito bem aquelas pessoas que diziam ter filhos para que cuidassem deles quando velhos, ou porque é isso que as pessoas fazem, casam e têm filhos. Para mim todas as respostas são um equívoco. O único motivo para se querer botar um filho no mundo é: querer.

Da mesma forma que eu defendo esse desejo soberano de ser mãe, eu também defendo o desejo soberano, legítimo e completamente inquestionável de não querer ser a mãe de alguém. Eu sinceramente não faço nenhum juízo de valor do motivos: priorizar a carreira, não se sentir com vontade de cuidar de uma criança, não ter dinheiro, parceiro fixo, sinceramente
não me importa. Basta não querer, e não querer deveria ser o melhor e mais respeitado motivo de todos.

Então eu realmente não consigo compreender que uma mulher que passou por essa experiência transformadora da maternidade, que te joga no olho do furacão das subjetividades e te obriga a olhar a vida na perspectiva de um outro (que não fala, não se move, e se comunica apenas através do querer, como um recém nascido) acredite que todas as mulheres devem ser obrigadas a passar pela experiência da maternidade. Ninguém deveria ser obrigada, se assim não é o seu desejo. Ninguém deveria ser obrigada a passar por uma gravidez, um parto, um puerpério e ser responsável por outro ser durante toda a vida se essa não for sua vontade.

Recentemente eu lancei um documentário chamado Clandestinas, sobre mulheres que fizeram um aborto ilegal no Brasil. Esse documentário foi muito bem recebido em alguns países da Europa, e muitas pessoas legais me procuraram para saber mais detalhes da realidade brasileira. A pessoa mais curiosa era um juiz francês, que ficou muito impressionado que em um País laico e democrático como o Brasil as mulheres não pudessem interromper um processo gestacional se assim fosse sua vontade. Que para ele, ter direito sobre o próprio corpo era um dos pilares da civilidade. Expliquei que o Brasil apesar de laico na teoria era um país de influência católica e cristã muito forte, e que existiam bancadas religiosas no parlamento com muito poder e influência. Ele ficou muito impressionado, e comparou a situação das mulheres brasileiras à Sharia, que é quando os países islâmicos abandonam o sistema político e jurídico para usar o Alcorão como único livro das leis. Como se aqui no Brasil se extinguissem o código civil, penal, a constituição e usássemos como parâmetro apenas a Bíblia. No início achei um exagero, mas na prática somos legislados por aqui mais por preceitos morais e religiosos do que pela lei de fato – assim como mulheres islâmicas que vivem sob a Sharia não podem sair na rua sem um acompanhante masculino, e nem devem frequentar escolas ou qualquer instituição de ensino formal, no Brasil devemos nos submeter à uma legislação atrasada que coloca nossas vidas em risco.

Eu já bati muito nessa tecla, mas uma gravidez não é um bebê – não há morte, assassinato ou dor em um aborto seguro realizado nas primeiras semanas. Não há. Não sou eu quem digo, é a ciência. Uma gravidez indesejada não deveria ser uma condenação para mulher. Vivemos em um mundo tão contraditório, que se diz que a gravidez e o bebê são as melhores coisas do mundo, mas usamos os bebês e a gravidez para punirmos as mulheres que não desejam ser mães ou não desejam ter mais filhos.

Quando uma mulher decide abortar não existe legislação no mundo que vá impedir que ela o faça. Brasileiras com grana irão pagar clínicas caras, viajar para outros países, importar medicamentos. Mulheres pobres e adolescentes em pânico se jogarão em frente de carros, usarão objetos caseiros pontiagudos, se envenenarão. Muitas delas irão morrer sem atendimento médico adequado. Muitas delas irão ter sequelas pela vida inteira, pelo simples fato de não desejarem gerar um filho. É cruel e doentio que isso aconteça nas barbas do Estado. O presidente da Câmara dos deputados Eduardo Cunha disse que só se legisla sobre aborto no Brasil por cima do cadáver dele. Mas a ilegalidade do aborto já passa por cima do cadáver de milhares de brasileiras todos os anos.

Você, mãe que postou orgulhosa a sua barriga de grávida para impedir que o aborto fosse legalizado, eu te desafio. Eu te desafio a transpor a generosidade e a empatia que você tem com outras mães e com bebês para as mulheres que não desejam ser mães. Eu te desafio a repensar a sua postura sobre o aborto – e por mais que você nunca passe por esse dilema moral na sua vida, milhares de mulheres estão passando por ele agora. Muitas amigas suas passaram. Muitas mulheres da sua família passaram. E elas estão sofrendo em silêncio pois sabem que esse é um assunto proibido. Eu te desafio a pensar fora do que “eu” faria e do que “eu” acho certo para se colocar no lugar dessas outras mulheres, que não veem alternativa e que precisam de apoio e acolhimento e não da condenação e julgamento de outras mulheres. Eu te desafio a pensar outra vez sobre aborto.

1) Encontre, no texto, sinônimos para as palavras abaixo:
a) Absoluto:
b) Determinações, regras:
c) Comportamento:
d) Engano:
e) Privilegiar:
f) Dúvida:
g) Civil: 

2) Analise as afirmações abaixo e assinale a alternativa correta:
I) A autora afirma que não pode concordar que a experiência com a maternidade é transformadora e maravilhosa.
II) O único motivo válido para ter um filho, segundo a autora, é querer ter um filho.
III) O desejo de não ser mãe é tão soberano e legítimo quanto o desejo de ser.
IV) A autora dá a entender que o Brasil não legaliza o aborto porque existem bancadas religiosas no parlamento com poder e influência, apesar do Brasil ser um país laico.
V) A autora afirma que mulheres que optam pelo aborto, o farão independente de legislação.

a) Todas estão corretas.
b) Apenas a I é incorreta.
c) III, IV e V estão incorretas.
d) Nenhuma está correta.
e) II e III estão incorretas.

3) Como a autora define o substantivo “desafios” na língua do facebook?

4) O que é a Sharia?

5) Levando em consideração o primeiro texto, qual o argumento que as autoras têm em comum?

6) Releia os dois textos e disserte, em um parágrafo, sua opinião sobre a legalização do aborto.

7) Transcreva os substantivos sobrecomuns presentes:
a) No 3º parágrafo:
b) No 4º parágrafo:
c) No 5º parágrafo:
d) No 9º parágrafo:

8) Transcreva os substantivos comuns de dois gêneros presentes:
a) No 7º parágrafo:
b) No 8º parágrafo: 

9) Observe a frase: “A pessoa mais curiosa era um juiz francês, que ficou impressionado que em um país laico e democrático como o Brasil as mulheres não pudessem interromper um processo gestacional se assim fosse sua vontade.” (7º parágrafo). Se passarmos o substantivo “juiz” para o feminino, o número de termos a ser alterado é de:
a) 2.         b) 4.          c) 6.          d) 8.          e) 10. 

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