segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

DELÍRIOS DE HONESTIDADE - Walcyr Carrasco



DELÍRIOS DE HONESTIDADE - Walcyr Carrasco


Outro dia eu estava pensando em como seria o mundo se as pessoas fossem realmente honestas. Inclusive no mais prosaico cotidiano. Eu me imagino entrando em uma dessas churrascarias de luxo. Sento-me à mesa e peço um filé bem passado ao garçom. Ele me alerta:

— Não aconselho. O filé hoje está uma sola de sapato.

— Peço o quê?

— Peça licença e vá para outro lugar. Olhe bem o cardápio. Pelo preço de um bife o senhor compra mais de um quilo no açougue. Quer jogar seu dinheiro fora?

Vou para outro e escolho: salmão. O garçom:

— Se o senhor quiser, eu trago. Mas salmão, salmão, não é. É surubim, alimentado de forma a ficar com a carne rosada. Ainda quer?

— Nesse caso fico com escargots.

— Lesmas, quer dizer? Por que não vai catar no jardim?

Ou então entro numa butique de griffe. Experimento um jeans, que está apertadinho na barriga. O vendedor aproxima-se:

— Ficou bom? Ah, não ficou, não, está apertado e não tenho um número maior.

— Acho que dá... ando pensando em fazer regime.

— Pois compre depois de obter algum resultado. Se bem que não sei, não... essa barriga parece coisa consolidada.

— Eu quero o jeans. Quero e pronto!

_ Não vou deixar que cometa essa loucura. Aliás, falando francamente, o que o senhor viu nesse jeans, que nem cai bem nas suas adiposidades? Só pode ser a etiqueta. Meu amigo, ainda acredita em griffe?

Corro à casa de chocolates e peço um dietético. A mocinha no balcão:

— Confia nessa história de dietético? Ou só quer calar a sua consciência?

— E se eu quiser confiar, estou proibido?

— Pois saiba que engorda. Menos que o chocolate comum, mas engorda. E o senhor não me parece em condição de fazer concessões a doces. Não vou contribuir para o seu auto-engano, jamais poria esse chocolate nas suas mãos. Vá à feira e peça um jiló.

Resolvo trocar de carro. Passeio pela concessionária, escolho:

— Este vermelho, que tal?

— O motor funde mais dia, menos dia — alerta o vendedor.

— Parece tão bonitinho...

— Desculpe, mas você acha que a lataria anda sozinha? Já alertei o dono da loja, este carro está péssimo. Fique com aquele.

— Mas é velho e horroroso!

— Pode ser, mas anda. Está decidido, leve aquele. E não discuta!

O embate com a honestidade absoluta também poderia ser uma galeria de arte.

— Gostei daquele — aponto o quadro à marchande.

— Está precisando de pano de chão?

— Não... é que... bem, posso não entender de arte, mas achei bonito.

— Sinceramente, o senhor não entende mesmo. Isso aqui é um horror. Não vale a tinta que gastou. Está exposto porque o dono da galeria insistiu. Leve aquele, é valorização na certa.

— Aquele? É muito sombrio... eu queria alguma coisa alegre e...

— Não insista. Sombrio ou não, vou embrulhar. Faça o cheque, é melhor pra você.

E numa loja de móveis? Mostro as cadeiras que me interessam. O decorador:

— É amigo de algum ortopedista?

— Está precisando de um? Posso indicar...

Você é quem vai precisar. Essas cadeiras vão desmontar na terceira vez em que alguém se sentar. Fratura na certa.

— Caras assim e desmontam? Eu devia chamar o Procon.

— Se quiser, eu chamo para o senhor!

Pior seria alguma vaidosa querendo fazer plástica. O cirurgião examina:

— Hum... hum..

— Meu nariz vai ficar bom, doutor?

— Se a senhora se contenta em trocar uma picareta por um parafuso, fica! Agora, se ambiciona uma melhora significativa, o melhor é morrer e reencarnar de novo. Pode ser tenha mais sorte.

A paciente sai chorando. Eu, que vivo me irritando com vendedores, chego a uma conclusão: quero comprar o jeans que me oprime a barriga, o chocolate que não emagrece e o quadro colorido. Deliciar-me com as pequenas fantasias. Feitas as contas, delírios de honestidade podem transformar-se em pesadelos cruéis. Os pequenos enganos abrem as comportas dos pequenos sonhos e adoçam o dia-a-dia.


Walcyr Carrasco. O golpe do aniversariante. São Paulo, Ática, 1989.



1) Em Delírios de honestidade, o narrador é personagem ou observador? Explique e comprove sua resposta com trechos do texto.



2) Que palavra, na primeira frase do texto, dá a ideia de condição, de suposição, de como seria o mundo caso as pessoas fossem honestas?



3) Releia o seguinte trecho: “Pelo preço de um bife o senhor compra mais de um quilo no açougue. A partir da leitura desse trecho, é possível afirmar que:

(       ) o garçom sabe o preço e o valor das coisas.

(       ) o garçom ganha pouco.

(       ) o garçom gasta com inutilidades.

(       ) o quilo de carne, no açougue, está muito caro.

(       ) o cliente não tinha dinheiro.



4) Com o que é que o garçom compara o filé do restaurante? Por que é feita essa comparação?



5) Quais os conselhos recebidos pelo narrador:

a) na churrascaria?

b) na butique de grife?

c) na casa de chocolates?

d) na concessionária?

e) na galeria de arte?



6) O que os argumentos que a atendente do balcão da casa de chocolates usou, revelam sobre o produto dietético?


      7) Leia este trecho com atenção:“Se bem que não sei, não... essa barriga parece coisa consolidada.”  A única palavra que não pode substituir o termo destacado é:
      a) estabelecida
      b) instável
      c) firmada
      d) segura
      e) fixada
 
8) Observe a frase a seguir e responda: “Você é quem vai precisar. Essas cadeiras vão desmontar na 3ª vez em que alguém se sentar. Fratura na certa.” A única palavra que pode ser usada para substituir o termo destacado é:
a) prejuízo

b) quebra

c) nota

d) pagamento

e) conta

9)  Pesquise o que faz uma "marchande".

10) Com o que a marchande compara o quadro que interessou ao narrador?

11) Complete a cruzadinha com as palavras referentes às explicações abaixo:
a) Verbo presente no 10º parágrafo, pertencente a 2ª conjugação, conjugado no Presente do Indicativo, na 1ª pessoa do singular.
b) Verbo no Imperativo, presente no 4º parágrafo do texto, pertencente a 1ª conjugação.
c) Verbo pertencente a 3ª conjugação, presente no texto, sinônimo de “queima”.
d) Verbo presente no 3º parágrafo, pertencente a 3ª conjugação, conjugado no Presente do Indicativo.
e) Peixe citado no texto, servido no lugar do salmão, segundo o garçom.
f) Adjetivo usado para caracterizar o chocolate.
g) Sinônimo de “gorduras”, presente no texto.
h) Verbo da 2ª conjugação, presente no 26º parágrafo do texto, conjugado na 3ª pessoa do singular.
i) Substantivo comum-de-dois gêneros presente no texto.
j) Adjetivo referente ao substantivo “carne”, presente no 6º parágrafo do texto.
k) Adjetivo referente aos substantivos “enganos” e “sonhos”, presentes no último parágrafo do texto.


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