quinta-feira, 20 de novembro de 2014

O Grito - Martha Medeiros

O GRITO  
Martha Medeiros


Não sei o que está acontecendo comigo, diz a paciente para o psiquiatra.
 
Ela sabe.
 
Não sei se gosto mesmo da minha namorada, diz um amigo para outro.
 
Ele sabe.
 
Não sei se quero continuar com a vida que tenho, pensamos em silêncio.
 
Sabemos, sim.
 
Sabemos tudo o que sentimos porque algo dentro de nós grita. Tentamos abafar este grito com conversas tolas, elucubrações, esoterismo, leituras dinâmicas, namoros virtuais, mas não importa o método que iremos utilizar para procurar uma verdade que se encaixe nos nossos planos: será infrutífero. A verdade já está dentro, a verdade se impõe, fala mais alto que nós, ela grita.
 
Sabemos se amamos ou não alguém, mesmo que esteja escrito que é um amor que não serve, que nos rejeita, um amor que não vai resultar em nada. Costumamos desviar este amor para outro amor, um amor aceitável, fácil, sereno. Podemos dar todas as provas ao mundo de que não amamos uma pessoa e amamos outra, mas sabemos, lá dentro, quem é que está no controle.
 
A verdade grita. Provoca febres, salta aos olhos, desenvolve úlceras. Nosso corpo é a casa da verdade, lá de dentro vêm todas as informações que passarão por uma triagem particular: algumas verdades a gente deixa sair, outras a gente aprisiona. Mas a verdade é só uma: ninguém tem dúvida sobre si mesmo.
 
Podemos passar anos nos dedicando a um emprego sabendo que ele não nos trará recompensa emocional. Podemos conviver com uma pessoa mesmo sabendo que ela não merece confiança. Fazemos essas escolhas por serem as mais sensatas ou práticas, mas nem sempre elas estão de acordo com os gritos de dentro, aquelas vozes que dizem: vá por este caminho, se preferir, mas você nasceu para o caminho oposto. Até mesmo a felicidade, tão propagada, pode ser uma opção contrária ao que intimamente desejamos. Você cumpre o ritual todinho, faz tudo como o esperado, e é feliz, puxa, como é feliz. E o grito lá dentro: mas você não queria ser feliz, queria viver!
 
Eu não sei se teria coragem de jogar tudo para o alto.
 
Sabe.
 
Eu não sei por que sou assim.
 
Sabe.

  MEDEIROS, M. Montanha Russa. Porto Alegre: L&PM Editores, 2003.
VOCABULÁRIO

1) EM RELAÇÃO À SUBSTITUIÇÃO VOCABULAR, ANALISE AS AFIRMAÇÕES ABAIXO E E ASSINALE A ALTERNATIVA CORRETA:
I -  "Tentamos abafar este grito com conversas tolas, elucubrações, esoterismo, leituras dinâmicas, [...]" - Podemos substituir o termo destacado por "reflexões", sem alterar o sentido da frase.
II - " Costumamos desviar este amor para outro amor, um amor aceitável, fácil, sereno." - o termo destacado pode ser substituído sem prejuízo de sentido por "tranquilo".
III -  "Fazemos essas escolhas por serem as mais sensatas ou práticas, mas nem sempre elas estão de acordo com os gritos de dentro, [...]" - o termo destacado pode ser substituído por "precipitadas", sem alterar o sentido da frase.
a) Todas estão corretas.
b) Nenhuma está correta.
c) Apenas a I está incorreta.
d) Apenas a III estão incorreta.
e) I e II estão incorretas.

2)  "Até mesmo a felicidade, tão propagada, pode ser uma opção contrária ao que intimamente desejamos." - ASSINALE A OPÇÃO QUE MELHOR CORRESPONDE A UMA POSSÍVEL REESCRITA DA FRASE, SE SUBSTITUIRMOS OS TERMOS DESTACADOS POR SINÔNIMOS.
a) Até mesmo a felicidade, tão silenciada, pode ser uma opção contrária ao que intimamente desejamos. 
b) Até mesmo a felicidade, tão difundida, pode ser uma opção contrária ao que intimamente desejamos. 
c) Até mesmo a felicidade, tão procurada, pode ser uma opção contrária ao que intimamente desejamos.  

3) "[...] lá de dentro vêm todas as informações que passarão por uma triagem particular: algumas verdades a gente deixa sair, outras a gente aprisiona." (9º parágrafo). A PALAVRA DESTACADA PODE SER SUBSTITUÍDA SEM PREJUÍZO DE SENTIDO POR:
a) omissão
b) repúdio
c) rejeição
d) escolha
e) tentativa

4) EXPLIQUE O QUE A AUTORA QUIS DIZER COM A EXPRESSÃO DESTACADA NA FRASE "Eu não sei se teria coragem de jogar tudo para o alto." (11º Parágrafo)

INTERPRETAÇÃO TEXTUAL

1) POR QUE FAZEMOS DETERMINADAS ESCOLHAS, SEGUNDO A AUTORA?

2) QUAL É A ÚNICA VERDADE, A QUAL A AUTORA SE REFERE?

3) ANALISE AS AFIRMAÇÕES COMO SENDO VERDADEIRAS OU FALSAS E ASSINALE A ALTERNATIVA CORRETA.
(      ) De acordo com o texto, sabemos de tudo sobre nós mesmos.
(      ) A verdade, segundo a autora, pode nos deixar doentes.
(      ) São as dúvidas que temos que nos deixam doentes.
(      ) A autora defende a ideia de que, nem sempre, ser feliz significa viver.

a) v - v - v - v 
b) v - v - f - v
c) f - v - f -  v
d) f - f - f - f
e) v - v - f - f

ATIVIDADES GRAMATICAIS
1) REESCREVA OS PERÍODOS ABAIXO, SUBSTITUINDO AS LOCUÇÕES VERBAIS POR UMA FORMA VERBAL SIMPLES EQUIVALENTE.
a) "Não sei o que está acontecendo comigo, diz a paciente para o psiquiatra."
b) "Não sei se quero continuar com a vida que tenho, pensamos em silêncio."
c) "Tentamos abafar este grito com conversas tolas [...]"
d) "[...] mas não importa o método que iremos utilizar [...]"
  
2) "algumas verdades a gente deixa sair, outras a gente aprisiona." (9º parágrafo). SE SUBSTITUÍRMOS AS EXPRESSÕES DESTACADAS PELOS PRONOMES ADEQUADOS À NORMA CULTA, UMA OPÇÃO DE REESCRITA DA FRASE SERIA:
a) "algumas verdades deixamos sair, outras aprisionam a gente."
b) "algumas verdades  deixamos sair, outras aprisionamos."
c) "algumas verdades deixamos sair, outras nos aprisionam.

3) TRANSCREVA, DO TEXTO, A FRASE EM QUE APARECE UM VERBO NO IMPERATIVO.

4) TRANSCREVA, DO TEXTO, UMA FRASE EM QUE APAREÇA UM VERBO NO GERÚNDIO E OUTRO NO INFINITIVO.


5) "Sabemos tudo o que sentimos, porque algo dentro de nós grita." O VOCÁBULO DESTACADO ESTABELECE, COM A ORAÇÃO ANTERIOR, UMA RELAÇÃO DE:

a) Conclusão

b) oposição

c) explicação

d) alternância

e) modo

6) "Tentamos abafar este grito com conversas tolas, elocubrações, esoterismo, leituras dinâmicas, namoros virtuais, mas não importa o método que iremos utilizar para procurar uma verdade que se encaixe nos nossos planos: será infrutífero. AS ORAÇÕES DESTACADAS NO PERÍODO COMPOSTO ACIMA SÃO, RESPECTIVAMENTE:
a) coordenada sindética adversativa e subordinada adverbial final
b) coordenada sindética adversativa e subordinada adverbial causal
c) coordenada sindética alternativa e subordinada adverbial final
d) coordenada assindética alternativa e subordinada substantiva final
e) coordenada sindética aditiva e subordinada adverbial consecutiva


7) "Sabemos se amamos ou não alguém, mesmo que esteja escrito que é um amor que não serve,[...]. AS ORAÇÕES DESTACADAS NO PERÍODO COMPOSTO ACIMA SÃO, RESPECTIVAMENTE:
a) subordinada substantiva subjetiva - coordenada sindética aditiva - subordinada adverbial concessiva
b) subordinada substantiva objetiva direta - coordenada sindética alternativa - subordinada adverbial concessiva
c) subordinada substantiva objetiva direta - coordenada sindética adversativa - subordinada adverbial concessiva

8) CLASSIFIQUE AS ORAÇÕES SUBORDINADAS SUBSTANTIVAS ABAIXO:
a) "Podemos dar todas as provas ao mundo de que não amamos uma pessoa e amamos outra, [...]"
b)  "Até mesmo a felicidade, tão propagada, pode ser uma opção contrária ao que intimamente desejamos."
c) "Podemos passar anos nos dedicando a um emprego sabendo que ele não nos trará recompensa emocional." 

9) TRANSCREVA, DO TEXTO, DUAS ORAÇÕES SUBORDINADAS SUBSTANTIVAS APOSITIVAS.

 

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