segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O GRANDE MISTÉRIO - Stanislaw Ponte Preta

O Grande Mistério (Stanislaw Ponte Preta) 




Há dias já que buscavam uma explicação para os odores esquisitos que vinham da sala de visitas. Primeiro houve um erro de interpretação: o quase imperceptível cheiro foi tomado como sendo de camarão. No dia em que as pessoas da casa notaram que a sala fedia, havia um suflê de camarão para o jantar. Daí... 

Mas comeu-se o camarão, que inclusive foi elogiado pelas visitas, jogaram as sobras na lata do lixo e — coisa estranha — no dia seguinte a sala cheirava pior. 

Talvez alguém não gostasse de camarão e, por cerimônia, embora isso não se use, jogasse a sua porção debaixo da mesa. Ventilada a hipótese, os empregados espiaram e encontraram apenas um pedaço de pão e uma boneca de perna quebrada, que Giselinha esquecera ali. E como ambos os achados eram inodoros, o mistério persistiu. 

Os patrões chamaram a arrumadeira às falas. Que era um absurdo, que não podia continuar, que isso, que aquilo. Tachada de desleixada, a arrumadeira caprichou na limpeza. Varreu tudo, espanou, esfregou e... nada. Vinte e quatro horas depois, a coisa continuava. Se modificação houvera, fora para um cheiro mais ativo. 

À noite, quando o dono da casa chegou, passou uma espinafração geral e, vitima da leitura dos jornais, que folheara no lotação, chegou até a citar a Constituição na defesa de seus interesses. 

— Se eu pago empregadas para lavar, passar, limpar, cozinhar, arrumar, tenho o direito de exigir alguma coisa. Não pretendo que a sala de visitas seja um jasmineiro, mas feder também não. Ou sai o cheiro ou saem os empregados. 

Reunida na cozinha, a criadagem confabulava. Os debates eram apaixonados, mas num ponto todos concordavam: ninguém tinha culpa. A sala estava um brinco; dava até gosto ver. Mas ver, somente, porque o cheiro era de morte. 

Então alguém propôs encerar. Quem sabe uma passada de cera no assoalho não iria melhorar a situação? 

-- Isso mesmo — aprovou a maioria, satisfeita por ter encontrado uma fórmula capaz de combater o mal que ameaçava seu salário. 

Pela manhã, ainda ninguém se levantara, e já a copeira e o chofer enceravam sofregamente, a quatro mãos. Quando os patrões desceram para o café, o assoalho brilhava. O cheiro da cera predominava, mas o misterioso odor, que há dias intrigava a todos, persistia, a uma respirada mais forte. 

Apenas uma questão de tempo. Com o passar das horas, o cheiro da cera — como era normal — diminuía, enquanto o outro, o misterioso — estranhamente, aumentava. Pouco a pouco reinaria novamente, para desespero geral de empregados e empregadores. 

A patroa, enfim, contrariando os seus hábitos, tomou uma atitude: desceu do alto do seu grã-finismo com as armas de que dispunha, e com tal espírito de sacrifício que resolveu gastar os seus perfumes. Quando ela anunciou que derramaria perfume francês no tapete, a arrumadeira comentou com a copeira: 

— Madame apelou para a ignorância. 

E salpicada que foi, a sala recendeu. A sorte estava lançada. Madame esbanjou suas essências com uma altivez digna de uma rainha a caminho do cadafalso. Seria o prestigio e a experiência de Carven, Patou, Fath, Schiaparelli, Balenciaga, Piguet e outros menores, contra a ignóbil catinga. 

Na hora do jantar a alegria era geral. Não restavam dúvidas de que o cheiro enjoativo daquele coquetel de perfumes era impróprio para uma sala de visitas, mas ninguém poderia deixar de concordar que aquele era preferível ao outro, finalmente vencido. 

Mas eis que o patrão, a horas mortas, acordou com sede. Levantou-se cauteloso, para não acordar ninguém, e desceu as escadas, rumo à geladeira. Ia ainda a meio caminho quando sentiu que o exército de perfumistas franceses fora derrotado. O barulho que fez daria para acordar um quarteirão, quanto mais os da casa, os pobres moradores daquela casa, despertados violentamente, e que não precisavam perguntar nada para perceberem o que se passava. Bastou respirar. 

Hoje pela manhã, finalmente, após buscas desesperadas, uma das empregadas localizou o cheiro. Estava dentro de uma jarra, uma bela jarra, orgulho da família, pois tratava-se de peça raríssima, da dinastia Ming. 

Apertada pelo interrogatório paterno Giselinha confessou-se culpada e, na inocência dos seus 3 anos, prometeu não fazer mais. 

Não fazer mais na jarra, é lógico. 

VOCABULÁRIO 
1) “Os patrões chamaram a arrumadeira às falas.” Assinale a alternativa que explica corretamente o que quer dizer a expressão destacada. 
a) Os patrões xingaram a arrumadeira. 
b) Os patrões ouviram o que arrumadeira tinha para falar. 
c) Os patrões chamaram a arrumadeira para conversar. 

2) Assinale a alternativa que corresponde ao sinônimo das palavras destacadas nas frases abaixo:
a) “ventilada a hipótese,...”:
( ) refrescada                 ( ) imaginada, debatida              ( ) arejada

b) “Madame esbanjou suas essências...”
( ) gastou                       ( ) bebeu                                     ( ) queimou

3) “o dono da casa chegou, passou uma espinafração geral.” Assinale a alternativa que explica corretamente o que quer dizer a expressão destacada.
a) O dono da casa deu espinafres para todos. 
b) O dono da casa despediu todos. 
c) O dono da casa xingou todos.

4) PREENCHA A CRUZADINHA COM SINÔNIMOS DAS PALAVRAS ABAIXO, OS QUAIS VOCÊ ENCONTRARÁ NO TEXTO. 
a) etiqueta, timidez                  d) mau-cheiro, fedor                   g) comportamento, costume
b) ideia, suposição                  e) sem cheiro
c) perfumes                             f) relaxada



INTERPRETAÇÃO TEXTUAL 
1) De acordo com o narrador, qual foi a primeira hipótese levantada acerca do mau cheiro que havia na sala? 

2) Qual a condição imposta pelo patrão aos empregados? 

3) Qual a solução encontrada pelos empregados para acabar com o mau cheiro? 

4) Por que o narrador usa a expressão “a quatro mãos” no 10º parágrafo? 

5) “A patroa, enfim, contrariando os seus hábitos, tomou uma atitude: desceu do alto do seu grã-finismo com as armas de que dispunha [...]”(12º parágrafo). Que armas eram essas? 

6) “Mas eis que o patrão, a horas mortas, acordou com sede.” Em que período do dia ocorreu esse fato? 

7) Com o que o narrador comparou a patroa?

8) Qual era o cheiro misterioso, na sua opinião?

ATIVIDADES GRAMATICAIS
1) Transcreva, do texto, 1 substantivo epiceno.
__________________________________________________

2) Os substantivos “pessoas” e “vítima”, quanto ao gênero, são epicenos, sobrecomuns ou comuns-de-dois gêneros? Por quê?_________________________________________________________________________


3) Passe para o feminino singular a frase abaixo:
a) “Quando os patrões desceram para o café, o assoalho brilhava.”
________________________________________________________________________

4) Passe para o masculino plural a frase abaixo:
a) “A patroa, enfim, contrariando os seus hábitos, tomou uma atitude:[...]”
_________________________________________________________________________

5) Transcreva, do texto, os adjetivos empregados para caracterizar os substantivos abaixo:
a) Odores (1º parágrafo): ____________________________
b) Cheiro (1º parágrafo): _____________________________
c) Perna (3º parágrafo): ______________________________
d) Cheiro (4º parágrafo): ______________________________
e) Debate (7º parágrafo): ______________________________
f) Odor (10 parágrafo): _______________________________
g) Perfume (12º parágrafo): ___________________________
h) Cheiro (15º parágrafo): _____________________________
i) Horas (16º parágrafo): ______________________________
j) Moradores (16º parágrafo): _________________________
k) Buscas (17º parágrafo): ____________________________
l) Jarra (17º parágrafo): ______________________________

6) Reescreva as expressões abaixo, substituindo as locuções adjetivas pelo adjetivo correspondente. Observe o exemplo:
Ex: amor de mãe: amor materno
a) coquetel de perfume: _____________________ 
b) cheiro de morte: __________________________

7) Reescreva as expressões abaixo, substituindo os adjetivos pela locução adjetiva correspondente. Observe o exemplo:
Ex: Amor fraterno: amor de irmão 
a) Perfume francês: ___________________________ 
b) interrogatório paterno: _____________________________________

Nenhum comentário: