terça-feira, 7 de outubro de 2014

INFERNO NACIONAL - Stanislaw Ponte Preta

INFERNO NACIONAL

Diz que era uma vez um camarada que abotoou o paletó. [...] Ao morrer nem conversou: foi direto para o Inferno. Em lá chegando, pediu audiência a Satanás e perguntou:

— Qual é o lance aqui?

Satanás explicou que o Inferno estava dividido em diversos departamentos, cada um administrado por um país, mas o falecido não precisava ficar no departamento administrado pelo seu país de origem. Podia ficar no departamento do país que escolhesse. Ele agradeceu muito e disse a Satanás que ia dar uma voltinha para escolher o seu departamento.

Está claro que saiu do gabinete do Diabo e foi logo para o Departamento dos Estados Unidos, achando que lá devia ser mais organizado o inferninho que lhe caberia para toda a eternidade. Entrou no Departamento dos Estados Unidos e perguntou como era o regime.

— Quinhentas chibatadas pela manhã, depois passar duas horas num forno de 200 graus. Na parte da tarde: ficar numa geladeira de 100 graus abaixo de zero até às três horas, e voltar ao forno de 200 graus.

O falecido ficou besta e tratou de cair fora, em busca de um departamento menos rigoroso. Esteve no da Rússia, no do Japão, no da França, mas era tudo a mesma coisa. Foi aí que lhe informaram que era tudo igual: a divisão em departamento era apenas para facilitar o serviço no Inferno, mas em todo o lugar o regime era o mesmo; quinhentas chibatadas pela manhã, forno de 200 graus durante o dia e geladeira de 100 graus abaixo de zero, pela tarde. 

O falecido já caminhava desconsolado por uma rua infernal, quando viu um departamento escrito na porta: Brasil. E notou que a fila à entrada era maior do que a dos outros departamentos. Pensou com suas chaminhas “Aqui tem peixe por debaixo do angu”. Entrou na fila e começou a chatear o camarada da frente, perguntando por que a fila era maior e os enfileirados menos tristes. O camarada da frente fingia que não ouvia, mas ele tanto insistiu que o outro, com medo de chamarem a atenção, disse baixinho: 

— Fica na moita, e não espalha não. O forno daqui está quebrado e a geladeira anda meio enguiçada. Não dá mais de 35 graus por dia. 

— E as quinhentas chibatadas? — perguntou o falecido. 

— Ah... o sujeito encarregado desse serviço vem aqui de manhã, assina o ponto e cai fora. 

PONTE PRETA, Stanislaw. Tia Zulmira e eu. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.


Atividades de pré-leitura

1. Hoje vamos trabalhar com um texto que tem por título “Inferno Nacional”, cujo autor é Stanislaw Ponte Preta. 
a) Sobre o que vocês imaginam que o texto vai nos falar? Por quê? 

b) Vocês já leram outro texto desse autor? Qual? 

c) A que gênero vocês imaginam que o texto pertence? 

d) Qual o tom que o autor adota no texto? Por quê? 

e) Com que finalidade, objetivo, o escritor produziu esse texto? 

Atividades de leitura: 
1. Após ler o texto, podemos perceber qual o tom que nele predomina. Marque o tom que o 
caracteriza: 
a) ( ) irônico            b) ( ) humorístico                  c) ( ) moralista              d) ( ) sério 

2. Que elementos do texto o evidenciam? 

3. A que esfera da comunicação (jornalística, publicitária, religiosa, jurídica) você imagina que o texto pertence? 

4. Com que objetivo (informar, divertir, ensinar, polemizar) o autor o produz?  

5. Tendo uma estrutura narrativa, podemos dividir o texto em partes. Identifique cada uma delas, numerando-as de acordo com a sequência em que aparecem no texto: 
(   ) Fato novo: algo inesperado ______________________________________________
(   ) Desfecho: situação final da narrativa _______________________________________
(   ) Ações decorrentes do fato novo ___________________________________________
(   ) Situação inicial da narrativa ______________________________________________
(   ) Ponto culminante da história _____________________________________________

6. Qual o perfil que podemos traçar do personagem? Que elementos do texto comprovam essas características? 

7. No final da narrativa, a solução encontrada pelo personagem é compatível com as suas características? Por quê? 

8. No texto, o autor cita vários países: Estados Unidos, Rússia, Japão, França e Brasil. O que os distingue, segundo ele? 

9. Você concorda com a imagem que Stanislaw Ponte Preta nos passa do nosso país? Justifique sua resposta. 

10. O título “Inferno Nacional” permite-nos uma dupla interpretação. Identifique-as. 

11. Você já observou que a variedade linguística privilegiada no texto é a mais informal, inclusive com o emprego de gírias. Qual o significado das seguintes expressões do texto? 
a) Abotoar o paletó:
b) Qual é o lance? 
c) Ter peixe por debaixo do angu:
d) Ficar na moita:

12. É dada voz aos personagens do texto? Como? 

13. Ao dizer : “Está claro que saiu do gabinete do Diabo e foi logo para o Departamento dos Estados Unidos ...” o narrador deixa implícito um consenso. Qual é ele? 

14. Ao sair do gabinete do Diabo, o personagem foi direto para o Departamento dos Estados Unidos, pois pensou que encontraria por lá um inferno organizado. Por que motivo ele pensou assim?

15. O que fez com que o personagem desistisse de freqüentar o departamento daquele país?

16. O colega de fila do departamento brasileiro não queria explicar os motivos de haver mais gente na fila. Por que ele agiu assim? O que ele temia?

17. Ao explicar os motivos de haver uma fila tão grande no departamento brasileiro, a personagem revela duas críticas comuns feitas em relação ao Brasil. Que críticas são essas? 

18. Observe as duas piadas transcritas abaixo. Há alguma intertextualidade entre elas e o texto acima? No que eles se interrelacionam? 

Piada 1: O senador e o inferno 
Um senador está andando tranquilamente quando é atropelado e morre. A alma dele chega ao Paraíso e dá de cara com São Pedro na entrada. 
-Bem-vindo ao Paraíso!, diz São Pedro 
-Antes que você entre, há um probleminha. Raramente vemos parlamentares por aqui, sabe, então não sabemos bem o que fazer com você. 
-Não vejo problema, é só me deixar entrar, diz o antigo senador. 
-Eu bem que gostaria, mas tenho ordens superiores. Vamos fazer o seguinte: 
Você passa um dia no Inferno e um dia no Paraíso. Aí, pode escolher onde quer passar a eternidade. 
-Não precisa, já resolvi. Quero ficar no Paraíso diz o senador. 
-Desculpe, mas temos as nossas regras. 
Assim, São Pedro o acompanha até o elevador e ele desce, desce, desce até o Inferno. A porta se abre  e ele se vê no meio de um lindo campo de golfe. 
Ao fundo o clube onde estão todos os seus amigos e outros políticos com os quais havia trabalhado. 
Todos muito felizes em traje social. Ele é cumprimentado, abraçado e eles começam a falar sobre os bons tempos em que ficaram ricos às custas do povo.
Jogam uma partida descontraída e depois comem lagosta e caviar. 
Quem também está presente é o diabo, um cara muito amigável que passa o tempo todo dançando e contando piadas. 
Eles se divertem tanto que, antes que ele perceba, já é hora de ir embora. 
Todos se despedem dele com abraços e acenam enquanto o elevador sobe. Ele sobe, sobe, sobe e a porta se abre outra vez. São Pedro está esperando por ele. 
Agora é a vez de visitar o Paraíso. 
Ele passa 24 horas junto a um grupo de almas contentes que andam de nuvem em nuvem, tocando harpas e cantando. Tudo vai muito bem e, antes que ele perceba, o dia se acaba e São Pedro retorna. 
-E aí ? Você passou um dia no Inferno e um dia no Paraíso. 
Agora escolha a sua casa eterna. Ele pensa um minuto e responde: 
-Olha, eu nunca pensei … O Paraíso é muito bom, mas eu acho que vou ficar melhor no Inferno. 
Então São Pedro o leva de volta ao elevador e ele desce, desce, desce até o Inferno. A porta abre e ele se vê no meio de um enorme terreno baldio cheio de lixo. Ele vê todos os amigos com as roupas rasgadas e sujas catando o entulho e colocando em sacos pretos. O diabo vai ao seu encontro e passa o braço pelo ombro do senador. 
-Não estou entendendo”, – gagueja o senador – “Ontem mesmo eu estive aqui e havia um campo de golfe, um clube, lagosta, caviar, e nós dançamos e nos divertimos o tempo todo. Agora só vejo esse fim de mundo cheio de lixo e meus amigos arrasados!!! 
O diabo olha pra ele, sorri ironicamente e diz: 
-Ontem estávamos em campanha. Agora, já conseguimos o seu voto… 

Disponível em http://www.semsaco.com/2010/05/piada-o-senador-e-o-inferno. Acesso em 05/08/2010) 

Piada 2: Céu X Inferno 

Ao atender o telefone, São Pedro ouve a inconfundível voz do Diabo: 
- Estou lhe desafiando para uma partida de futebol no próximo final de semana. O Céu 
contra o Inferno, aceita? 
- Aceito, sim - respondeu São Pedro, humildemente. - Mas, a honestidade me obriga a lhe 
dizer que vocês vão perder. Tenho os melhores jogadores de todos os tempos no meu time. 
- Pode ser! Mas não se esqueça de que eu tenho os piores juízes! 

Disponível em http://www.pegadinha.net/piada/S2BC2yfh.php. Acesso em 05/08/2010) 

(Professor: A piada é um excelente material linguístico para se reconhecer manifestações culturais e ideológicas, já que versam sobre temas polêmicos, como valores, instituições em geral (Igreja, Estado, Família), operando com esteriótipos e abordando discursos que, num outro gênero, não seriam permitidos ou bem aceitos.) 

Produção Textual 

1. Inspirando-se no texto de Stanislaw Ponte Preta, crie uma história em que o personagem, um  estrangeiro, vem ao Brasil e se depara com fatos que fazem de nosso país “um inferno nacional”. Imagine o seu espanto, as conclusões a que chega sobre o Brasil e seu povo e as situações embaraçosas que vive por causa disso. Lembre-se de que o seu texto será lido pelos colegas de turma e, se selecionado para o mural da escola, pelos das outras turmas também. 

2. Observe as charges abaixo. Cada uma explora um pouco de nossos problemas morais. 
Escolha um deles (ou todos apontados nas charges, que poderão ser outras, a critério do 
professor) e redija uma carta a um candidato das próximas eleições, falando sobre esses 
problemas, do mal que nos fazem e como poderiam ser erradicados da nossa sociedade.

Fonte: Projeto Ler é Saber / Faccat - 2010 - https://www2.faccat.br/portal/sites/default/files/ckeditorfiles/abordagem_fasc_2_2010.pdf


2 comentários:

Rosilene A R disse...

Excelente trabalho com o texto de Stanislaw Ponte Preta!

Lucile Lindoso disse...

Gosto muito desse texto. Pode ser usado para trabalhar vários assuntos e provocar discussões