sexta-feira, 3 de outubro de 2014

INDISPENSÁVEL SOFRIMENTO - Fabrício Carpinejar

INDISPENSÁVEL SOFRIMENTO



Vou sofrer por amor.
Antes de qualquer relação, já sei que vou sofrer por amor. 
É um adicional de consciência dos quarenta anos. 
Vou sofrer por amor, não morrer de amor.
Poderia morrer de amor na adolescência. Graças a Deus que não aconteceu. 
O romance adolescente é explosivo, extremista e insuportável, é tudo ou nada: alguns sucumbem ao efeito Werther. 
Não diria que é um relacionamento, mas um pacto. 
Nesta época, somos raivosos com o mundo, com os pais e impregnados de grandes demonstrações de desapego e valentia. 
Ao sobreviver ao primeiro e letal enlace juvenil, criei imunidade para não morrer de amor.
É como catapora, caxumba, agora não serei mais vítima da tragédia. 
Envelhecerei amando, compreendendo desde sempre que não existe como me isentar do sofrimento.
Haverá atrito, conflito, desentendimento, ciúme, ameaças, brigas. 
O pior sempre está com o melhor. Não tenho como fugir do pacote. 
Depois do enamoramento, da entrega absoluta, das noites emendadas de sexo, da concordância plena, experimentarei um ciclo do desespero. 
É quando nasce a rivalidade com o tempo: será que ela é para toda vida ou não? 
Assim como entregamos nossa porção mais nobre no início, vamos apresentando nossa porção maldita com a convivência. 
Para ver se nossa namorada suporta, aceita e, principalmente, nos perdoa pelos defeitos. 
No começo, amamos porque o outro é perfeito. No decorrer da convivência, temos que amar com a clara noção de que o outro não é perfeito. 
Não preciso ser profeta para antever o que vou passar, para descobrir que atravessarei mais uma ruptura provisória ou definitiva. 
Irei chorar, emagrecer, sumir, desaparecer, não atender aos amigos, enlouquecer, beber litros de Jack Daniels, voltar a fumar, ser insensível e me vestir mal.
Não tenho um repertório muito farto. É realmente o que ofereço. 
Não sou daqueles que o amor pode ser medido por aquilo que sofro. 
Qualquer mulher vai se danar ao quantificar o que sinto pela minha dor. 
A dor não é bafômetro do amor masculino. 
O que prova que o homem realmente amou é sua insistência, o quanto ele se modifica para retomar os laços, o quanto aceita quebrar os pré-requisitos para continuar a história. 
O que prova que o homem realmente amou não é a fossa, mas a esperança. É sua vontade sempre aguda de voltar e tentar novamente. 
O sofrimento só sinaliza o nosso egoísmo. O luto só revela nossa ingratidão. O desespero só anuncia nosso orgulho ferido.
O que prova que o homem realmente amou é sua força de vontade para reaver a conquista.

Publicado na IstoÉ Gente
Setembro de 2014 p. 44
Ano 15 Número 712


Colunista

ATIVIDADES
1) Qual a certeza que o autor afirmar ter em relação ao amor?

2) Que palavras o autor usa para caracterizar o amor, na adolescência?

3) Como o autor classifica o romance, na adolescência?

4) Quando o autor criou imunidade para não morrer de amor?

5) O que prova o amor do homem, segundo o autor?

6) Antítese é uma figura de linguagem (figuras de estilo) que consiste na exposição de ideias opostas. Transcreva, do texto, 3 frases que exemplifiquem isso.

7) Sabendo que os prefixos -In e -Des acrescentam às palavras um sentido de negação. Transcreva, do texto, palavras que exemplifiquem isso. (2 para cada prefixo).

8) Assinale a alternativa onde a palavra atrito não apresenta o mesmo sentido que foi utilizado na frase "Haverá atrito, conflito, desentendimento, ciúme, ameaças, brigas."
a) "Do atrito de duas pedras chispam faíscas; das faíscas vem o fogo; do fogo brota a luz." (Victor Hugo)
b) "O pontificado de Bento 16 tem sido marcado por pontos de atrito entre o Vaticano e grupos judaicos." (Folha de São Paulo, 08/07/2009)
c) "Antes do atrito pese na balança da consciência se valerá apena iniciar a discussão." (Jhove Souzameira)

9) Reescreva as frases abaixo, substituindo as locuções verbais por uma forma verbal simples, equivalente.
a) "Vou sofrer por amor."
b) "Irei chorar, emagrecer, sumir, desaparecer, não atender aos amigos, enlouquecer, beber litros de Jack Daniels, voltar a fumar, ser insensível e me vestir mal."
c) "[...] vamos apresentando nossa porção maldita com a convivência."

10) Transcreva do texto:
a) 2 frases que apresentem verbos de segunda conjugação, conjugados no Futuro do Pretérito do Indicativo:
b) 2 frases que apresentem verbos de segunda conjugação, conjugados no Futuro do Presente do Indicativo:
c) 2 frases que apresentem verbos de primeira conjugado, conjugado no Futuro do Presente do Indicativo:

11) Reescreva a fase abaixo, empregando os verbos na 1ª pessoa do singular. Faça as alterações necessárias:
a) "Assim como entregamos nossa porção mais nobre no início, vamos apresentando nossa porção maldita com a convivência." 

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