terça-feira, 9 de setembro de 2014

A falácia do mundo justo e a culpabilização das vítimas - Atividades diversas

“O cara que divulgou as fotos tá errado, mas ninguém manda tirar foto pelada!” – a falácia do mundo justo e a culpabilização das vítimas

Ana Carolina Prado 



“É claro que o cara que estuprou é o culpado, mas _____ mulheres também ficam andando na rua de saia curta e em hora errada!”. “O hacker que roubou as fotos dessas celebridades nuas está errado, mas ninguém mandou tirar as fotos!”. “Se você trabalhar duro vai ser bem-sucedido, não importa quem você seja. Quem morreu pobre é porque não se esforçou o bastante.” Você sabe o que essas afirmações têm em comum?

Há algum tempo falei aqui sobre como os humanos têm diversas formas de se enganar em relação _____ ideia que têm de si mesmos, quase sempre para proteger sua autoestima ou para saciar sua vontade de estar sempre certos. Mas nosso cérebro não nos engana só em relação a como vemos a nós mesmos: temos também a tendência de nos iludir em relação aos outros e _____ vida em geral. E as frases acima exemplificam uma maneira como isso pode acontecer: por meio da falácia do mundo justo.

Por exemplo, embora os estupros raramente tenham qualquer coisa _ _ _ ver com o comportamento ou vestimenta da vítima e sejam normalmente cometidos por um conhecido e não por um estranho numa rua deserta, a maioria das campanhas de conscientização são voltadas para as mulheres, não para os homens – e trazem a absurda mensagem de “não faça algo que poderia levá-la _ _ _ ser violentada”.

Muitos estudos revelam outras formas de culpabilização da vítima. Em 1966, os pesquisadores Melvin Lerner e Carolyn Simmons pediram a 72 mulheres para assistir a uma atriz resolvendo problemas e recebendo choques elétricos (que eram de mentirinha, mas elas não sabiam) quando errava. Ao final do experimento, as mulheres tiveram de descrever a atriz – e muitas _ _ _ desvalorizaram, criticando seu caráter e aparência e dizendo que ela havia merecido os choques.

O mesmo aconteceu em questões relacionadas a dinheiro. Lerner fez outro experimento, desta vez com dois homens resolvendo quebra-cabeças. Ao final, um deles recebeu uma grande quantia de dinheiro. O prêmio foi totalmente aleatório, e isso foi dito aos observadores. Mesmo assim, quando tiveram de avaliar os dois homens, eles disseram que quem havia recebido o prêmio era mais inteligente, mais talentoso, melhor em resolver quebra-cabeças e mais produtivo.

De lá para cá, muita pesquisa foi feita e obteve resultados semelhantes. Em um estudo sobre bullying feito em 2010 na Universidade Linkoping, na Suécia, 42% dos adolescentes culparam a vítima por ser “um alvo fácil”.


Para os pesquisadores, esses julgamentos estão relacionados à noção – amplamente difundida na ficção – de que coisas boas acontecem a quem é bom e coisas más acontecem a quem merece. A tendência a acreditar que o mundo é assim é chamada, na psicologia, de falácia do mundo justo. “Não importa quão liberal ou conservador você seja, alguma noção dela entra na sua reação emocional quando ouve sobre o sofrimento dos outros”, diz o jornalista David McRaney no livro “Você não é tão esperto quanto pensa”. Ele acrescenta que, embora muitas pessoas não acreditem conscientemente em carma, no fundo ainda acreditam em alguma versão disso, adaptando o conceito para a sua própria cultura.


E dá para entender por que somos levados a pensar assim: viver em um mundo injusto e imprevisível é meio assustador e queremos nos sentir seguros e no controle. O problema é que crer cegamente nisso leva a ainda mais injustiças, como o julgamento de que pessoas pobres ou viciadas em drogas são vagabundas e têm mais é que se ferrar, que mulher de roupa curta merece ser maltratada ou que programas sociais são um desperdício de dinheiro e uma muleta para preguiçosos. Todas essas crenças são falaciosas porque partem do princípio de que o sistema em que vivemos é justo e cada um tem exatamente o que merece.

É importante notar que não estamos falando aqui sobre consequências de ações: se você não trabalha ou gasta todo o seu dinheiro com coisas inúteis, é bem provável que acabe sem grana nenhuma; se for escroto com todo mundo, é bem provável que tenha muita dificuldade em ter amigos de verdade – são escolhas ruins que costumam levar a resultados ruins. O problema é que, nesse caso, a falácia do mundo justo desconsidera os inúmeros outros fatores que influenciam quão bem-sucedida a pessoa vai ser, como o local onde ela nasceu, a situação socioeconômica da sua família, os estímulos e situações pelas quais passou ao longo da vida e ao acaso. Programas sociais e ações afirmativas não rompem o equilíbrio natural das coisas, como seus críticos podem crer – pelo contrário, a ideia é justamente minimizar os efeitos da injustiça social. Uma pessoa extremamente pobre pode virar a dona de uma empresa multimilionária, mas o esforço que vai ter de fazer para chegar lá é muito maior do que o esforço de alguém nascido em uma família rica que sempre teve acesso à melhor educação e a bons contatos. “Se olhar os excluídos e se questionar por que eles não conseguem sair da pobreza e ter um bom emprego como você, está cometendo a falácia do mundo justo. Está ignorando as bênçãos não merecidas da sua posição”, diz McRaney.

Em casos de abusos contra outras pessoas, como bullying ou estupro, a injustiça é ainda maior, pois eles nunca são justificados – e aí a falácia do mundo justo se mostra ainda mais perversa. Portanto, toda vez que você se sentir movido a dizer coisas como “O estuprador é quem está errado, é claro, mas…”, pare por aí. O que vem depois do “mas” é quase sempre fruto de uma tendência a ver o mundo de uma forma distorcida só para ele parecer menos injusto.

VOCABULÁRIO
1) PREENCHA A CRUZADINHA COM SINÔNIMOS DAS PALAVRAS ABAIXO, OS QUAIS VOCÊ ENCONTRARÁ NO TEXTO.
a) Satisfazer:
b) Enganar:
c) Casual, acidental:
d) Conduta:
e) Violação, desonra:
2) ASSINALE A ALTERNATIVA EM QUE A PALAVRA “CHOQUE” FOI USADA COM O MESMO SENTIDO DA FRASE “[...] e muitas a desvalorizaram, criticando seu caráter e aparência e dizendo que ela havia merecido os choques.”
a) Por sorte, o choque entre os veículos não deixou feridos.
b) Saber que a filha ficaria longe foi um choque para os pais.
c) Não é lenda, como muitos pensam: alguns peixes têm sim a capacidade de dar choques, alguns com alta voltagem.

3) ASSINALE A ALTERNATIVA EM QUE A PALAVRA “MULETA” NÃO TEM FOI EMPREGADA COM O MESMO SENTIDO DA FRASE “[...]ou que programas sociais são um desperdício de dinheiro e uma muleta para preguiçosos.”
a) “A justiça pode caminhar sozinha; a injustiça precisa sempre de muletas, de argumentos.” (Nicolai Iorga)
b) Quando surge algum problema, algumas pessoas criam asas. Outras, compram muletas...” (Harold Roupp)
c) Quebrou o pé? Compre um par de muletas.

4) ASSINALE A ALTERNATIVA ONDE O PREFIXO –DES NÃO ATRIBUI À PALAVRA UM SENTIDO DE NEGAÇÃO.
a) “[...]a falácia do mundo justo desconsidera os inúmeros outros fatores [...]”
b) “Ao final do experimento, as mulheres tiveram de descrever a atriz [...]”
c) “[...] as mulheres tiveram de descrever a atriz – e muitas a desvalorizaram, criticando seu caráter e aparência [...]”

5) ASSINALE A ALTERNATIVA ONDE O PREFIXO –IN ATRIBUI À PALAVRA UM SENTIDO DE NEGAÇÃO.
a) “[...]outros fatores que influenciam quão bem-sucedida a pessoa vai ser, [...]”
b) “[...]eles disseram que quem havia recebido o prêmio era mais inteligente, [...]
c) “[...]viver em um mundo injusto e imprevisível é meio assustador [...]”

INTERPRETAÇÃO TEXTUAL
1) ANALISE COMO VERDADEIRAS OU FALSAS AS AFIRMAÇÕES ACERCA DO TEXTO:
(  ) A autora afirma que os estupros, normalmente, tem algo a ver com o comportamento ou a vestimenta da vítima.
( ) As campanhas de conscientização são, geralmente, voltadas para as mulheres, com mensagens orientando-as a não fazerem algo que possa leva-las a serem vítimas de estupro.
(  ) Segundo a autora, o ser humano acredita que as coisas boas acontecem a quem é bom e as coisas más, a quem merece.
(  ) Conforme o texto, escolhas ruins, não necessariamente, levam a resultados ruins.

2) O QUE, SEGUNDO O TEXTO, JUSTIFICA A FALÁCIA DO MUNDO JUSTO?

3) NA FRASE “Em casos de abusos contra outras pessoas, como bullying ou estupro, a injustiça é ainda maior, pois eles nunca são justificados – e aí a falácia do mundo justo se mostra ainda mais perversa.” EXPLIQUE POR QUE A AUTORA AFIRMA ISSO. (10º PARÁGRAFO)

ATIVIDADES GRAMATICAIS
1) EM RELAÇÃO AO EMPREGO DA CRASE, A ALTERNATIVA QUE PREENCHE CORRETAMENTE AS LACUNAS (____) PRESENTES NO TEXTO É:
a) as – a – a
b) as – à – à 
c) as – a – à 
d) às – à – à 
e) às – à – a 

2) EM RELAÇÃO AO EMPREGO DA CRASE, A ALTERNATIVA QUE PREENCHE CORRETAMENTE AS LACUNAS TRACEJADAS (_ _ _ _) PRESENTES NO TEXTO É:
a) a – a – a
b) à – à – à 
c) à – a – à 
d) à – a – a
e) a – à – a 

3) SE PASSARMOS A PALAVRA “CRENÇAS” PARA O SINGULAR, O NÚMERO DE TERMOS A SER ALTERADO NA FRASE “Todas essas crenças são falaciosas porque partem do princípio de que o sistema em que vivemos é justo e cada um tem exatamente o que merece.” É DE:
a) 7           b) 5           c) 3                   d) 9                       e) 6

4) SE USARMOS A PALAVRA “PRÊMIO” NO PLURAL, O NÚMERO DE TERMOS A SER ALTERADOS NA FRASE “O prêmio foi totalmente aleatório, e isso foi dito aos observadores.” É DE:
a) 4           b) 5           c) 3                  d) 6                         e) 7

5) EM RELAÇÃO AO PERÍODO COMPOSTO “Se você trabalhar duro vai ser bem-sucedido, não importa quem você seja.” O TERMO DESTACADO ESTABELECE UM VALOR DE:
a) Dúvida 
b) Causa 
c) finalidade 
d) Condição 
e) Consequência

6) ASSINALE A ALTERNATIVA EM QUE TENHA SIDO EMPREGADO UM VERBO NO IMPERATIVO NEGATIVO.
a) “[...]não importa quem você seja.” (1º parágrafo)
b) “Quem morreu pobre é porque não se esforçou o bastante.” (1º parágrafo)
c) “não faça algo que poderia levá-la a ser violentada”. (3º parágrafo)

7) ASSINALE A ALTERNATIVA EM QUE TENHA SIDO EMPREGADO UM VERBO NO IMPERATIVO AFIRMATIVO.
a) “Portanto, toda vez que você se sentir movido a dizer coisas como “O estuprador é quem está errado, é claro, mas…”, pare por aí.” (10º parágrafo)
b) “E dá para entender por que somos levados a pensar assim:[...]” (8º parágrafo)
c) “Ele acrescenta que, embora muitas pessoas não acreditem conscientemente em carma, no fundo ainda acreditam em alguma versão disso, [...]” (7º parágrafo)

8) REESCREVA A FRASE ABAIXO, PASSANDO OS VERBOS PARA O PRETÉRITO IMPERFEITO DO INDICATIVO. FAÇA AS ALTERAÇÕES NECESSÁRIAS:

“Mas nosso cérebro não nos engana só em relação a como vemos a nós mesmos: temos também a tendência de nos iludir em relação aos outros e à vida em geral.”

9) REESCREVA AS FRASES, SUBSTITUINDO AS LOCUÇÕES VERBAIS PELOS VERBOS PRINCIPAIS, CONJUGADOS NO TEMPO, MODO E PESSOA ADEQUADOS:

a) “[...] mas as mulheres também ficam andando na rua de saia curta e em hora errada!”

b) “É importante notar que não estamos falando aqui sobre consequências de ações:[...]”

c) “[...] mas o esforço que vai ter de fazer para chegar lá é muito maior [...]”

d) “Se olhar os excluídos e se questionar por que eles não conseguem sair da pobreza e ter um bom emprego como você, está cometendo a falácia do mundo justo. Está ignorando as bênçãos não merecidas da sua posição”[...]

e) “Programas sociais e ações afirmativas não rompem o equilíbrio natural das coisas, como seus críticos podem crer [...]”

10) EM RELAÇÃO ÀS AFIRMAÇÕES A SEGUIR, ASSINALE A ALTERNATIVA CORRETA:
I – ““Não importa quão liberal ou conservador você seja, alguma noção dela entra na sua reação emocional quando ouve sobre o sofrimento dos outros” - Há, nesta frase, 2 verbos pertencentes a 1ª conjugação – “importa” e “entra”; 2 pertencentes a 2ª conjugação – “conservador” e “seja”; e 2 verbos pertencentes a 3ª conjugação – “reação” e “ouve”.
II – “Quem morreu pobre é porque não se esforçou o bastante.” – Os verbos destacados estão, respectivamente, conjugados no pretérito perfeito do indicativo, presente do indicativo e pretérito imperfeito do indicativo.
III – “42% dos adolescentes culparam a vítima por ser “um alvo fácil” [...]”. – Se reescrevermos a frase empregando o Futuro do Presente do Indicativo, a redação da mesma fica: “42% dos adolescentes culparão a vítima por ser “um alvo fácil” [...]”.

a) Todas as alternativas estão corretas.
b) Apenas a alternativa III está correta.
c) Nenhuma alternativa está correta.
d) As alternativas I e III estão corretas.
e) As alternativas II e III estão corretas.

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