quarta-feira, 12 de março de 2014

DO ROLEZINHO AO ROLEZAÇO


Do rolezinho ao rolezaço
Se os inventores do rolezinho se associarem aos ideólogos do blackbloquismo, melhor nem pensar
EUGÊNIO BUCCI - 17/01/2014 20h34 - Atualizado em 17/01/2014 20h46

A palavra rolezinho logo entrará nos dicionários. Substantivo masculino. Modalidade de manifestação pública instantânea – inventada por adolescentes de bairros pobres de São Paulo e normalmente convocada por meio das redes sociais –, que reúne dezenas ou centenas de participantes em shopping centers para confraternizar, chamar a atenção e se divertir; um rolezinho, como um elefante, incomoda muita gente; dois rolezinhos, como dois elefantes, incomodam muito mais, podendo mesmo tirar o sossego de dirigentes de associações comerciais e de Estado, apavorados(as) diante da possibilidade de que meia dúzia de rolezinhos, ou mesmo, sejamos paranoicos, milhares de rolezinhos, atrapalhem eventos esportivos de caráter internacional, como a Copa do Mundo, por exemplo. Etimologia: do francês roulê, particípio passado de rouler (sXII roueller ‘enrolar’) (mas aqui com o sentido de “dar um rolê”, significando “dar um passeio”, i.e., “dar uma banda por aí”, se é que você me entende, mas uma banda em grupo, com a molecada pisando forte e cantando rap), de rouelle, “rodela”, do latim rotella.

O rolezinho chega como a mais forte tendência do verão, rivalizando com os protestos de junho e com os black blocs, que escaldaram a temporada de inverno. O medo das autoridades está justamente nessa aproximação. Elas temem que os insufladores de rolezinhos se aliem às figuras cavernosas do blackbloquismo, gerando um híbrido dedicado a depredar vitrine e saquear geral. Aí, aconteceria nas ruas e nos shoppings do Brasil de hoje um casamento semelhante ao que se deu dentro das cadeias nos anos 1970. Naquela época, ao menos de acordo com alguns relatos, os presos políticos ensinaram rudimentos da disciplina bolchevique aos presos comuns e deram origem a crime organizado que hoje domina os presídios, o tráfico e as milícias. Se os inventores dos rolezinhos se associarem aos ideólogos do blackbloquismo, bem, melhor nem pensar (mas as autoridades não pensam em outra coisa).

Eis aí a contradição: a folia juvenil que anima os finais de semana da juventude das periferias é um filme de terror na imaginação daqueles que são encarregados de assegurar a ordem. As duas expectativas não têm como se conciliar. Possivelmente, o pau vai comer.

Aliás, já come. Imagens de policiais fustigando garotos com seus cassetetes (que já saem de fábrica dotados de preconceito de classe) estampam fartamente o noticiário. Não vem boa coisa por aí. Os shopping centers, templos do consumo sem janela alguma, iluminados o tempo todo por luzes ubíquas, lugares em que os corpos humanos não projetam sombra, posto que a luz brota de todas as paredes, vivem dias de apreensão. Império da mercadoria em que o sol (artificial) nunca se põe, espaços de confinamento voluntário em que os internos, como os prisioneiros de solitárias, não sabem se é dia ou se é noite lá fora, correm o risco de virar ringues dessa coisa disgusting e fora de moda que é a luta de classes. De um lado, a garotada que mal completou 18 anos; de outro, os brucutus da PM ou aqueles sujeitos de terno preto, treinados a dizer amém aos endinheirados e dirigir insultos (inclusive físicos) aos descapitalizados.

Diante de um simples rolezinho, a monumental empáfia das caixas-fortes do fetichismo se desfaz como fumaça. As torres inexpugnáveis, os caixotões de concreto armado, vigas de aço e vidro blindado, as fortalezas ultravigiadas que acomodam as grifes mais caras – e as mais bregas também – prometem segurança total aos clientes, mas não têm defesa contra meninos e meninas que, mesmo sem nadar em dinheiro, trafegam de cabeça erguida pelas galerias que existiriam para sentenciar sua exclusão.

Nesse ponto, a contradição vira fratura exposta. A menos que passem a cobrar ingresso na porta – R$ 50 por cabeça, que tal? –, os shoppings não têm como impedir legalmente a entrada de ninguém. Se, de uma hora para outra, as multidões que não compram naquelas lojas (supostamente chiques) resolvessem desfilar entre as vitrines, o ritual do consumo ficaria inviável. A clientela fugiria. As vendedoras baixariam as portas dos estabelecimentos. Os ricos teriam vergonha de comprar e os lojistas não teriam coragem de vender.

Por aí a gente entende: os shopping centers são como são, tão fechados, fortificados, ilhados, para segregar e, principalmente, para se esconder. Se os rolezinhos virarem um imenso rolezaço, muitos biombos virão abaixo. O temor das autoridades não é de todo infundado.

VOCABULÁRIO
1) Complete a cruzadinha abaixo, procurando, no texto, sinônimos para as palavras abaixo:

a) Separar:
b) Isolamento:
c) Unam:
d) Modismo:
e) Disputando:
f) Onipresentes:
g) Ofensas:
h) Isolados:
i) Visível:
j) Preocupação:
k) Protegido:
l) Incentivadores:
m) Arrogância:
n) Comemorar:
o) Invencíveis:
p) Protesto:
q) Agredindo:



2) Como o autor define a palavra “rolezinho”? 


3) Que outras palavras o autor usa para referir-se aos shopping centers? 

4) Observe a seguinte frase:“Imagens de policiais fustigando garotos com seus cassetetes (que já saem de fábrica dotados de preconceitos de classe)[...]” (4º parágrafo). Em relação ao trecho entre parênteses, na sua opinião, o que o autor quis dizer? 

5) Sabendo que os prefixos –IN atribui um sentido de negação à palavra, retire, do texto, 2 palavras que exemplifiquem isso. 


INTERPRETAÇÃO TEXTUAL 

1) Qual é, de acordo com o texto, o verdadeiro temor das autoridades, em relação aos rolezinhos? 

2) Quais são as duas expectativas inconciliáveis, segundo o autor? 

3) A que contradição o autor se refere no 6º parágrafo? 

4) Em relação ao texto, analise as afirmações e assinale a alternativa correta. 
I – Segundo o autor, a moda do verão são os rolezinhos, onde dezenas de jovens se reúnem para confraternizar, chamar a atenção e se divertir. 
II – Elefantes estão tirando o sossego dos dirigentes de associações comerciais e do Estado. 
III – Para evitar os rolezinhos, os shoppings passarão a cobrar um ingresso de R$ 50,00. 

a) As alternativas I e II estão corretas. 
b) Todas as alternativas estão corretas. 
c) Apenas a alternativa I está correta. 
d) Nenhuma alternativa está correta. 
e) As alternativas II e III estão corretas. 

ATIVIDADES GRAMATICAIS 

1) O adjetivo “apavorados(as)” (1º parágrafo) deriva de qual substantivo abstrato? 

2) Retire, do 2º parágrafo do texto, um substantivo derivado, indicando-lhe o primitivo. 

3) Retire, do texto, 5 substantivos sobrecomuns. 

4) Retire, do texto, 4 substantivos comuns-de-dois gêneros. 

5) Analise as afirmações abaixo e assinale a alternativa correta. 
I – “[...] a folia juvenil que anima os finais de semana da juventude das periferias é um filme de terror na imaginação daqueles que são encarregados de assegurar a ordem.” – o substantivo destacado é um substantivo derivado de “jovem”. 
II – “O rolezinho chega a ser a mais forte tendência do verão [...]” – o termo destacado é aumentativo de Vera. 
III – Os substantivos “noticiários”, “mercadoria”, “prisioneiros”e “garotada” são substantivos primitivos, tendo como derivados “notícia”, “mercado”, “prisão” e “garoto”. 
IV – “[...] a monumental empáfia das caixas-fortes do fetichismo [...]” – o termo destacado é um substantivo composto. 
V – Na última frase do texto, temos um substantivo abstrato: “temor”. 

a) As alternativas I, IV e V estão corretas. 
b) Nenhuma alternativa está correta. 
c) Todas as alternativas estão corretas. 
d) As alternativas I, II e III estão corretas. 
e) As alternativas III, IV e V estão corretas. 

6) Retire, do texto, uma frase nominal. 

7) Classifique o sujeito do primeiro período do texto. 

8) Classifique como SIMPLES ou COMPOSTOS os períodos abaixo: 
a) “Aliás, já come.” 
b) “A clientela fugiria”. 
c) “Os ricos teriam vergonha de comprar e os lojistas não teriam coragem de vender.” 
d) “Nesse ponto, a contradição vira fratura exposta.” 
e) “As duas expectativas não têm como se conciliar.” 

9) Analise as afirmações abaixo e assinale a alternativa correta. 
I – “Possivelmente, o pau vai comer.” (3º parágrafo) – o período é composto, pois tem duas orações: “vai” e “comer”. 
II - “Diante de um simples rolezinho, a monumental empáfia das caixas-fortes do fetichismo se desfaz como fumaça.” ( 5º parágrafo) – o período é simples, pois tem apenas uma oração “se desfaz como fumaça” e o sujeito dessa oração é “a monumental empáfia das caixas-fortes do fetichismo”. 
III – “O temor das autoridades não é de todo infundado.” (7º parágrafo) – o período é composto, tendo como orações “O temor das autoridades” e “é de todo infundado”. Além disso, o sujeito da oração é “O temor das autoridades”. 
IV – “O medo das autoridades está justamente nessa aproximação.” (2º parágrafo) – Esse período tem como sujeito: “o medo das autoridades” e predicado: “está justamente nessa aproximação.” 
V – “A clientela fugiria.” (6º parágrafo) – é uma frase nominal. 

a) Todas as alternativas estão corretas. 
b) As alternativas II e IV estão corretas. 
c) As alternativas II, III e V estão corretas. 
d) As alternativas II e IV estão incorretas. 
e) Nenhuma alternativa está correta. 



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