sexta-feira, 28 de março de 2014

Cadê os plural?

Cadê os plural?
Ricardo Freire 
In: Revista Época, 21 de Fevereiro de 2005.



É só impressão minha, ou está cada vez mais difícil ouvir plurais ortodoxos? Aqueles de antigamente, arrematados com um ''s'' - plurais tradicionais, quatrocentões? Os plurais agora estão cada vez mais enrustidos, dissimulados, problemáticos. Cada vez menos plurais são assumidos. Os plurais agora precisam ser subentendidos.



Verdade seja dita: não somos os únicos no mundo a ter problemas com a maldita letra ''s'' no final das palavras. Os franceses, debaixo de toda aquela empáfia, há séculos desistiram de pronunciar o ''s'' dos plurais. No francês oral, o plural é indicado pelo artigo, e pronto. Ou seja: eles falam ''as mina'' e ''os mano'' desde que foram promovidos de gauleses a guardiães da cultura e da civilização.



Os italianos também não podem com a letra ''s'' no fim das palavras. Fazem seus plurais em ''i'' e em ''e'', dependendo do sexo, ops, do gênero das palavras. Quando a palavra é estrangeira, entretanto, eles simplesmente desistem de falar no plural: decretaram que termos forasteiros são invariáveis, e tudo bem. Una foto, due foto; una caipirinha, quattro caipirinha. Quattro caipirinha? Hic! Zuzo bem!


Os alemães, metódicos que só, reservam o ''s'' justamente a esses vocábulos estrangeiros que os italianos permitem que andem por aí sem plural. Com as palavras do seu próprio idioma, no entanto, os alemães são implacáveis. As palavras mais sortudas ganham apenas um ''e'' no final, mas as outras são flexionadas com requintes de tortura - com ''n'' (!) ou com ''r'' (!!), às vezes em conjunto com um trema (!!!) numa vogal da penúltima sílaba (!!!!), só para infernizar a vida dos alunos do Instituto Goethe ao redor do planeta.

Práticos são os indonésios, que formam o plural simplesmente duplicando o singular: gado-gado, padang-padang, ylang-ylang. Pelo menos foi isso que eu li uma vez. (Claro que não chequei a informação. Eu detestaria descobrir que isso não é verdade.) Já pensou se a moda pega aqui, feito aquele pavoroso cigarro de cravo? Os mano-mano. As mina-mina. Um chopps e dois pastel-pastel.

Nem mesmo nossos primos de fala espanhola escapam da síndrome dos comedores de plural. Os andaluzes e praticamente todos os latino-americanos também não são muito chegados a um ''s'' final. Em vez do ''s'' ríspido e perigosamente carregado de saliva dos madrilenhos (que chiam quase tanto quanto os portugueses), eles transformaram o plural num acontecimento sutil, perceptível apenas por ouvidos treinados. Em Sevilha, Buenos Aires ou em Santo Domingo, o ''s'' vira um ''h'' aspirado - lah cosah, lah personah, loh pluraleh.

Entre nós, contudo, a mutilação do plural não tem nada a ver com sotaques ou incapacidade de pronunciar fonemas. Aqui em São Paulo, a falta de ''s'' é um fenômeno sociocultural. Os pobres não falam no plural por falta de cultura. Da classe média para cima, deixamos o plural de lado quando há excesso de intimidade. É como se o plural fosse algo opcional, como escolher entre ''você'' e ''o senhor''. Se a situação exige, você vai lá e aperta a tecla PLURAL. Se a conversa for entre amigos, basta desligar, e os esses desaparecem em algum ponto entre o cérebro e a boca.

Na minha terra, não. Imagina. Lá não se permite isso. No Rio Grande NINGUÉM fala os plurais. NUNCA. Considera-se PEDANTE quem fala plural. Trata-se de um dos pontos mais importantes do nosso dialeto. Assim como no francês oral, no gauchês oral o plural é indicado pelo artigo: os guri, as guria. Mas isso só vale no gauchês falado. Você jamais verá escritas em Porto Alegre essas coisas que se leem em placas e faixas de São Paulo, tipo COMIDAS TÍPICA ou 12 PRATOS QUENTE.

Escrito, não. Para nós, a falta de plural escrito dói nos... ouvidos. [...]

O avanço da despluralização, no entanto, ameaça transformar São Paulo numa nova Porto Alegre, onde concordar substantivo com artigo é coisa de maricas.

O que se deve fazer? Uma grande campanha educativa, com celebridades declarando que é chique falar os plurais? Lançar pagodes e canções sertanejas falando da dor-de-cotovelo causada por não usar ''s'' no final das palavras? Ou contratar um grupo de artistas alternativos para sair pichando nos muros por aí uma mensagem subversiva? Tipo assim: OS MANOS E AS MINAS.

VOCABULÁRIO
1) Analise as afirmações e assinale a alternativa correta:
I - "É só impressão minha, ou está cada vez mais difícil ouvir plurais ortodoxos?" -  o termo destacado refere-se ao uso do "s" para pluralizar as palavras.
II - " [...] decretaram que termos forasteiros são invariáveis,[...]" - a expressão destacada refere-se às palavras que não pertencem ao idioma nato.
III - "[...] a mutilação do plural não tem nada a ver com sotaques ou incapacidade de pronunciar fonemas [...]" - o termo destacado refere-se ao "corte" da letra "s" na formação de plural.
IV - "Trata-se de um dos pontos mais importantes do nosso dialeto." - O termo destacado pode ser substituído por "idioma", sem alterar o sentido da frase.
V - "Considera-se PEDANTE quem fala plural." - O termo destacado é sinônimo de "esnobe".

a) Todas as alternativas estão corretas.
b) Nenhuma alternativa está correta.
c) Apenas a alternativa I está correta.
d) Apenas a alternativa V está incorreta.
e) Apenas as alternativas II e III estão corretas.

INTERPRETAÇÃO
1) Analise as afirmações acerca do texto e assinale a alternativa correta.
I - Segundo o autor, a despluralização é um fenômeno exclusivamente brasileiro.
II - De acordo com o texto, não fazemos o plural em razão dos sotaques ou da incapacidade de pronunciar fonemas.
III - Segundo o autor, campanhas educativas com canções sertanejas e celebridades ensinariam as pessoas a usar corretamente o plural.
IV - Os alemães atribuem o "s" do plural aos vocábulos estrangeiros.
V - Em São Paulo, os pobres não falam o plural por falta de cultura e as pessoas de classe média  quando há muita intimidade.

a) Todas estão corretas.
b) Nenhuma está correta.
c) As alternativas I, II e III estão corretas.
d) As alternativas I, II e III estão incorretas.
e) As alternativas IV e V estão incorretas.

2) Em que consiste a subversão da frase "Os manos e as minas" sugerida pelo autor, no último parágrafo?

ATIVIDADES GRAMATICAIS

1) Indique quais adjetivos foram usados, no texto, para caracterizar os substantivos abaixo:
a) plurais (1º parágrafo):
b) letra "s" (2º parágrafo):
c) termos (3º parágrafo):
d) alemães (4º parágrafo):
e) vocábulos (4º parágrafo):
f) palavras (4º parágrafo):
g) indonésios (5º parágrafo):
h) ouvidos (6º parágrafo):

2) Nas expressões abaixo, substitua as locuções adjetivas, pelo adjetivo correspondente:
a) guardiães da cultura: (2º parágrafo):
b) vida dos alunos (4º parágrafo):

3) Retire do texto os adjetivos pátrios, indicando os países, estados ou cidades a que se referem.

4) Há, no texto, um adjetivo pátrio composto. Encontre-o e indique a que países se refere.

5) Reescreva a expressão abaixo, substituindo o adjetivo pela locução adjetiva correspondente.
a) Fenômeno sociocultural (7º  parágrafo):

6) Analise as afirmativas abaixo em relação ao poema, e assinale a alternativa correta.


I – “Na tarde fria de julho / voa o cheiro,  o barulho”
a)       Há , nesta frase, 4 substantivos abstratos – tarde, julho, cheiro e barulho ; 1 adjetivo – fria; e 2 artigos definidos.
b)       Há, nesta frase, 3 substantivos abstratos – tarde, julho e cheiro;  2 adjetivos – fria e barulho; e 2 artigos definidos.
c)       Há, nesta frase, 2 substantivos abstratos – tarde, fria ; 2 adjetivos – cheiro e barulho ; e 2 artigos definidos.

II – “[...] do café descendo quente / pelo bule reluzente...”
a)                  Há, nesta frase, 2 substantivos concretos – café e bule ; 1 substantivo abstrato – quente; 1 adjetivo referente ao substantivo “bule” – reluzente; e 1 artigo definido.
b)                  Há, nesta frase, 4 substantivos – café, quente, bule e reluzente; e 1 artigo definido.

c)                  Há, nesta frase, 2 substantivos concretos – café e bule ; 2 adjetivos – quente e reluzente ; e 1 artigo definido.

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