sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

IN LOCO

IN LOCO (Filipe Rangel)

               
No caminho, descobrimos que não ia ser fácil levar a senhora e seu marido, que mal conseguia acalmar a amada, até a casa deles, no Jardim Peró. Os caminhos estavam trancados por barricadas. Pneus, entulho, qualquer coisa que pegasse o mínimo de fogo. Por sorte, o motorista é morador da área e nos guiou por caminhos até então desconhecidos até a casa da senhora. Ela agradeceu com toda a sinceridade e humanidade que era impossível encontrar naquela noite. Teve dificuldades de dizer para a filha, ao telefone, quem a havia conduzido até o lar. O marido interveio. "Não importa quem são. São pessoas de bem que nos trouxeram para casa". Me tocou. Tirou da minha cabeça, momentaneamente, o pensamento de uma menina de um ano e meio morta por um tiro de fuzil na cabeça. Seguimos viagem.

Cruzamos a ponte e chegamos até o Hospital São José Operário, em São Cristóvão. Tentei conversar com um policial, mas tudo o que ele fez foi me apontar um homem de boné, desabado junto ao portão. Era o pai da menina. Fui até lá. Quando ele levantou a cabeça e me olhou nos olhos, desabei ao lado dele. Sentados no chão, tentamos conversar com o mínimo de desconforto possível. Mas fugir de tiroteios, barricadas e ameaças foi tarefa extremamente fácil perto da hora de me despedir daquele homem. Doeu demais apertar sua mão, olhar nos seus olhos e dizer que ia embora. Pra me cumprimentar, ele deixou no chão um sapatinho de criança, rosa. Era da filha. Não quis fotografar, como manda a cartilha do bom jornalista. Não quis retratar nem ele, nem os sapatinhos. Achei desumano explorar a dor. Desumano. Quase tudo o que vi, hoje, foi desumano. Perdi a foto. Mas me lembrei do que é ser humano.                                                                                         

Encarei como mais uma pauta e fui. O primeiro contato com o horror foi o ônibus incendiado, que contrastava com o lindo fim de tarde. Era a barbárie banhada por ares quase divinos. Conversei com uma ou duas pessoas, mas a coluna negra de fumaça que pairava sobre o ar a alguns quilômetros dali prendia minha atenção, como se avisasse que o verdadeiro horror estava por lá. Minha tarefa de jornalista, que contrasta com minha vontade humana, me levou até a Boca do Mato.

Serpenteamos pelas comunidades mais violentas da cidade. Ora encontrávamos bandidos fortemente armados, ora encontrávamos policiais em fila indiana, armas em punho. Em certo momento, infelizmente encontramos os dois ao mesmo tempo. Só tivemos tempo de dar meia-volta e fugir do tiroteio. As pessoas à nossa volta, que estavam no portão, curiosas, correram desesperadas. Chegamos ao Jardim Esperança, apesar dos constantes avisos: "volta, tá o inferno ali na frente". Nesse dia dantesco, era isso o que estávamos perseguindo: o inferno. Seguimos. Bandidos 'recomendaram' que não passássemos de tal ponto, de tal barricada. Passamos. Como? Não sei. Ouvimos que o batalhão havia sido fechado e que todos os policiais disponíveis estavam nas ruas. De outro lado, ouvimos que os bandidos queriam derramar sangue. Já estava anoitecendo. Traçamos o caminho mais seguro e fomos embora, era o melhor a fazer. Algumas trocas de tiros, ao longe. Ou perto. E, se houve poesia nisso tudo, o lugar onde encontrei refúgio, perto do fim, foi em uma ruela do Monte Alegre. O nome: Rua da Paz.

Tudo o que eu queria para a noite de hoje era ir ao cinema, sozinho, e descansar. E estava perto de pôr meu plano em prática: já eram seis e pouca, perto do fim do expediente. Recebo uma ligação. É a editora do jornal, me mandando ao Monte Alegre, pois, aparentemente, havia tido algum protesto. 

Lá, a primeira queixa. "Um policial filho da puta matou uma menina. Ela tinha só três anos, cara", disse um morador. Na verdade, a menina tinha só um ano e meio. A revolta desse cara era coletivizada e estampada no meio da rua. Um outro ônibus incendiado, observado com olhar de aprovação da comunidade. Me aproximei. Fui abordado por um grupo de seis homens, que deixaram claras suas armas. Me questionaram sobre a câmera. Expliquei. Pouco adiantou. "Se tirar foto de alguém, amanhã você está morto". O recado foi dado e eu entendi. Fotografei o ônibus, com a devida e absurda 'autorização' dessas pessoas e estava indo embora. Estava. Mas apareceu uma senhora, setenta e poucos anos, à beira de um infarto. Pediu socorro. Eu e o motorista do jornal decidimos levá-la para casa. Ela mal conseguiu entrar no carro. Era uma das passageiras do ônibus queimado. A pressão alta se misturou com as consequências da inalação de tanta fumaça. Fomos embora.

1) Os parágrafos do texto acima estão desorganizados. Reorganize-os.

2) Encontre, no texto, sinônimos para as palavras abaixo:
a) selvageria:
b) reclamação:
c) amparo:
d) encaminhado:
e) lixo:
f) roteiro:

3) Em relação ao texto, é correto afirmar:
I - Moradores queimaram um ônibus em um protesto pela morte de uma menina.
II - O jornalista foi autorizado a fotografar os envolvidos na situação.
III - Compreender a dor de um pai que acabara de perder a filha num tiroteio foi mais fácil do que fugir do tiroteio.
IV - Para finalizar a reportagem, o jornalista retratou a dor do pai, fotografando-o e fotografando os sapatinhos que ele deixara no chão.
V - A dor estampada na figura do pai da criança morta, fez o jornalista lembrar-se de que era humano e, por isso, achou melhor não explorar a sua dor.

a) Todas estão corretas.
b) As alternativas I e V estão corretas.
c) Nenhuma está correta.
d) As alternativas I, II e III estão corretas.
e) As alternativas II, III e IV estão corretas.

4) O adjetivo "sozinho" (1º parágrafo) deriva de qual substantivo abstrato?

5) Do 2º parágrafo do texto, retire 3 substantivos abstratos.

6) Há, no 2ª parágrafo, 1 substantivo derivado. Transcreva-o, indicando-lhe o primitivo.

7) Encontre, no 3º parágrafo, dois substantivos derivados, indicando-lhes o primitivo.

8) Em relação ao 4º parágrafo, considere as afirmações abaixo e assinale a alternativa correta.
I - "Sorte", "sinceridade", "humanidade" e "pensamento" são substantivos abstratos.
II - "Marido" é um substantivo derivado de "mar".
III - Do substantivo "fuzil", podemos derivar o substantivo "fusível".
IV - "Telefone" é um substantivo composto.
V - "Barricadas" é um substantivo composto.

a) Todas estão corretas.
b) Nenhuma está correta.
c) As alternativas I e IV estão corretas.
d) As alternativas I, II e III estão corretas.
e) As alternativas IV e V estão corretas.

9) O adjetivo "violentas" (5º parágrafo) deriva de qual substantivo abstrato?

10) Há, no 6º parágrafo, um substantivo coletivo. Transcreva-o e indique a que grupo de substantivos ele se refere.

11) "Ruela" é diminutivo de qual substantivo?

12) Assinale V ou F:
(    ) "Portão" é o substantivo aumentativo de "porta".
(    ) Do substantivo "foto", podemos derivar o substantivo "fotografar".
(    ) "Desconforto" é um substantivo comum, simples, concreto e primitivo.

13) Corrija as questões para as quais você marcou F, na questão anterior.

14) Retire, do 6º parágrafo, 5 substantivos derivados, indicando-lhes os primitivos.

15) O primeiro período do texto é simples ou composto? Justifique:

16) Quantas orações há no 2º período do texto?

17) Retire, do texto, 5 frases nominais.

18) Analise as afirmações abaixo e assinale a alternativa correta:
I - "Na verdade, a menina tinha só um ano e meio." - O período é simples, pois há apenas 1 oração "tinha só um ano e meio".
II - "O recado foi dado e eu entendi" - O período é composto, pois tem 3 orações: "foi", "dado" e "entendi".
III - "Perdi a foto" é uma frase nominal.
IV - "As pessoas à nossa volta, que estavam no portão, curiosas, correram desesperadas." - Há, neste período, 2 orações. Logo, trata-se de um período composto.
V - "Achei desumano explorar a dor " é um período composto, pois tem 3 orações: "achei desumano", "explorar"  e "dor".

a) Todas estão corretas.
b) Nenhuma está correta.
c) As alternativas I e IV estão incorretas.
d) As alternativas II, III e V estão corretas.
e) As alternativas II, III e V estão incorretas.

19) O último período do texto tem quantas orações?





Nenhum comentário: