sexta-feira, 30 de agosto de 2013

PECHADA - Luís Fernando Veríssimo

PECHADA
Luís Fernando Veríssimo
Ilustração: Santiago

O apelido foi instantâneo. No primeiro dia de aula, o aluno novo já estava sendo chamado de "Gaúcho". Porque era gaúcho. Recém-chegado do Rio Grande do Sul, com um sotaque carregado. 

– Aí, Gaúcho! 

– Fala, Gaúcho! 

Perguntaram para a professora por que o Gaúcho falava diferente. A professora explicou que cada região tinha seu idioma, mas que as diferenças não eram tão grandes assim. Afinal, todos falavam português. Variava a pronúncia, mas a língua era uma só. E os alunos não achavam formidável que num país do tamanho do Brasil todos falassem a mesma língua, só com pequenas variações? 

– Mas o Gaúcho fala "tu"! – disse o gordo Jorge, que era quem mais implicava com o novato. 

– E fala certo - disse a professora. – Pode-se dizer "tu" e pode-se dizer "você". Os dois estão certos. Os dois são português. 

O gordo Jorge fez cara de quem não se entregara. 

Um dia o Gaúcho chegou tarde na aula e explicou para a professora o que acontecera. 

– O pai atravessou a sinaleira e pechou. 

– O que? 

– O pai. Atravessou a sinaleira e pechou. 

A professora sorriu. Depois achou que não era caso para sorrir. Afinal, o pai do menino atravessara uma sinaleira e pechara. Podia estar, naquele momento, em algum hospital. Gravemente pechado. Com pedaços de sinaleira sendo retirados do seu corpo. 

– O que foi que ele disse, tia? – quis saber o gordo Jorge. 

– Que o pai dele atravessou uma sinaleira e pechou. 

– E o que é isso? 

– Gaúcho... Quer dizer, Rodrigo: explique para a classe o que aconteceu. 

– Nós vinha... 

– Nós vínhamos. 

– Nós vínhamos de auto, o pai não viu a sinaleira fechada, passou no vermelho e deu uma pechada noutro auto. 

A professora varreu a classe com seu sorriso. Estava claro o que acontecera? Ao mesmo tempo, procurava uma tradução para o relato do gaúcho. Não podia admitir que não o entendera. Não com o gordo Jorge rindo daquele jeito. 

"Sinaleira", obviamente, era sinal, semáforo. "Auto" era automóvel, carro. Mas "pechar" o que era? Bater, claro. Mas de onde viera aquela estranha palavra? Só muitos dias depois a professora descobriu que "pechar" vinha do espanhol e queria dizer bater com o peito, e até lá teve que se esforçar para convencer o gordo Jorge de que era mesmo brasileiro o que falava o novato. Que já ganhara outro apelido: Pechada. 

– Aí, Pechada! 

– Fala, Pechada!

1 Motivação e pré-leitura 

O texto em questão traz como temática a variação linguística de região para região. Por isso, é importante que se faça alguma técnica relacionada a esse tema. Como sugestão, o professor pode colocar, em balões de cores amarelo, vermelho e verde (cores do RS), algumas gírias típicas de nosso estado e em outros as respectivas definições. Os alunos podem jogar os balões para cima ao som de uma música que lembre o RS e estourá-los, achando seus “pares”, conforme gíria e significado. Entre as sugestões de palavras, estão as seguintes: 

Loco de faceiro – muito contente 
Alemoa - loira 
Bem capaz – de jeito nenhum 
Chinelão – pessoa baixo nível 
Cacetinho – pão francês 
Dar uma perneada - caminhada 
Lomba - ladeira 
Balaqueiro – contador de lorotas 
Bíci - bicicleta 
Súper - supermercado 
Berga – bergamota, que quer dizer tangerina, mexerica 
Sinaleira – sinal, semáforo 
Tri massa – muito bom 
Refri - refrigerante 
Tri a fim – muito a fim 
Viajou na maionese – delirou 
De cara - chocado 
É brincadeira – expressão de espanto 
Patente - privada 
Chimas – chimarrão 
Lagartear – tomar sol 
Cacetinho – pão francês 
Gororoba – comida feita de objetos não identificados 
Indiada – programa de índio, roubada 
Picar a mular – sair fora 
Se escalar – convidar a si mesmo 
Fechou o tempo – baixou o astral 
Montar num porco – ficar transtornado 
Tchê, qual é o teu pastel? – qual é a tua? 
Bah: abreviação de barbaridade. Usada para demonstrar surpresa, indignação, alegria, tristeza, alívio, animação, dor, aprovação, reprovação, desconfiança, desejo, admiração, impaciência, descontentamento, advertência, culpa... 

Em seguida, pode ser feita a leitura dessas expressões, e a dupla precisa pensar em uma situação de uso. A seguir, pode ser discutido o conceito de “variação linguística”, e os alunos podem pensar nas seguintes questões: 

a) A língua que falamos é a mesma no Brasil inteiro? 
b) Alguém tem algum parente ou amigo de outro estado? Ele usa alguma expressão diferente daquelas que usamos? Qual? 
c) O que poderia acontecer se algum habitante de outro estado viesse morar em nossa cidade e estudar em nossa sala?


2 Leitura-descoberta 

a) Na primeira linha do texto, encontramos o adjetivo instantâneo. Qual é o significado dessa palavra? Explique por que o apelido dado ao menino foi instantâneo. 

b) Onde se passam as ações narradas? Indique palavras ou expressões que comprovam sua resposta. 

c) Diante do questionamento dos alunos sobre a fala diferente do gaúcho, qual foi a posição da professora? 

d) Observe a fala de Jorge: “Mas o Gaúcho fala ‘tu’!” Considerando o contexto em que foi empregada, qual era a posição de Jorge a respeito do uso desse pronome? 

e) Em um determinado momento do texto, o Jorge fez uma cara “de quem não se entregara”. Explique o porquê dessa cara. 

f) Por que o menino chegou tarde em um determinado dia? 

g) O motivo do atraso do menino ficou imediatamente claro para a professora e para os colegas? Explique. 

h) Em um determinado momento do texto, a professora fez uma correção na fala de Rodrigo. Indique-o e explique o porquê dessa correção. 

i) Cite algumas palavras que foram de “difícil tradução” por serem usadas apenas no RS. 

j) O que a professora descobriu sobre a origem da palavra responsável pelo novo apelido do Gaúcho? 

k) No primeiro parágrafo, temos a palavra “gaúcho” grafada com letra inicial maiúscula e, logo após, com letra inicial minúscula. O mesmo ocorre com a palavra “pechada” mais ao final do texto. Explique. 

l) Dê o referente dos seguintes pronomes do texto: 
· Ele (13º parágrafo): 
· Isso (15º parágrafo): 
· Dele (14º parágrafo): 

3 Pós-leitura 
a) O que aconteceria se um novo aluno, de outro estado, chegasse a nossa turma? Narre essa história. 

b) Imagine que um gaúcho precisasse ir a outro estado visitar algum parente. Que confusões devido à variação linguística aconteceriam?

Fonte: Abordagem Fascículo Ler - 2013 nº 2 - Ano XI

2 comentários:

Pós Faccat Letras disse...

Prezada Fabi,
Esta abordagem foi desenvolvida pela professora Daiana Campani de Castilhos e tem como fonte a Abordagem do Fascículo II do Projeto LER de 2013 - FACCAT.
Para divulgares no Blog, é importante citar a fonte, pois todo o material foi elaborado por ela.

Fabi Behling disse...

Prezado(a) responsável pelo Pós Faccat Letras, a fonte está e sempre esteve citada ao final da postagem, é só observar com atenção. ;)