sexta-feira, 14 de junho de 2013

AQUELE ESTRANHO ANIMAL - Mário Quintana - Valorizando a Literatura que é daqui!!!

AQUELE ESTRANHO ANIMAL
Mario Quintana

Os do Alegrete dizem que o causo se deu em Itaqui, os de Itaqui dizem que foi no Alegrete, outros juram que só poderia ter acontecido em Uruguaiana. Eu não afirmo nada: sou neutro.

Mas, pelo que me contaram, o primeiro automóvel que apareceu entre aquela brava indiada, eles o mataram a pau, pensando que fosse um bicho.

A história foi assim como já lhes conto, metade pelo que ouvi dizer, metade pelo o que inventei, e a outra metade pelo que sucedeu às deveras. Viram? É deixemos de filosofança e vamos ao que importa. A coisa foi assim, como eu tinha começado a lhes contar.

Ia um piazinho estrada fora no seu petiço – tropt, tropt, tropt (este é o barulho do trote) – quando de repente ouviu – fufufupubum! Fufufupubum chiiiipum!

E eis que a “coisa”, até então invisível, apontou por detrás de um capão, bufando que nem touro brigão, saltando que nem pipoca , se traqueando que nem velha coroca, chiando que nem chaleira derramada e largando fumo pelas ventas como a mula-sem-cabeça.

“Minha Nossa Senhora!”

O piazinho deu meio-volta e largou numa disparada louca rumo à cidade, com os olhos do tamanho de um pires e os dentes rilhando, mas bem cerrados para que o coração aos corcoveios não lhe saltasse pela boca.

É claro que o petiço ganhou luz do bicho, pois no tempo dos primeiros autos eles perdiam para qualquer matungo.

Chegando que foi, o piazinho contou a história como pôde, mal e mal e depressa, que o tempo era pouco e não dava para maiores explicações, pois já ouvia o barulho do bicho que se aproximava.

Pois bem, minha gente: quando este apareceu na entrada da cidade, caiu aquele montão de povo em cima dele, os homens uns com porretes, outros com garruchas que nem tinham tido tempo para carregar de pólvora, outros com boleadeiras, mas todos de a pé, porque também nem houvera tempo para montar, e as mulheres umas empunhando as suas vassouras, outras as suas pás de mexer marmelada, e os guris, de longe, se divertindo com os seus bodoques, cujos tiros iam acertar em cheio nas costas dos combatentes. E tudo abaixo de gritos e pragas que nem lhes posso repetir aqui.

O povo se afastou, resfolegante, e abriu-se uma clareira, no meio da qual se viu o auto emborcado, amassado, quebrado, escangalhado, e não digo que morto, porque as rodas ainda giravam no ar, nos últimos transes de uma teimosa agonia. E quando as rodas pararam, as pobres, eis que o motorista milagrosamente salvo, saiu penosamente engatinhando por debaixo dos escombros de seu ex-automóvel.

- A la pucha! – exclamou então um guasca, entre espantado e penalizado – o animal deu cria!

A LINGUAGEM DO TEXTO 

Este texto de Mário Quintana é repleto de palavras e expressões típicas da nossa região - o Rio Grande do Sul. Vamos construir  um pequeno dicionário para esclarecer o que essa palavras signifIcam.

Acesse os links abaixo para auxiliá-lo no seu trabalho. Pesquise as palavras que estão destacadas no texto, organizando-as em ordem alfabética e informando o seu significado.



ATIVIDADES DE INTERPRETAÇÃO

1) Sobre o que é o "causo" contado pelo narrador?

2) De acordo com o texto, é possível afirmar com certeza onde esse causo aconteceu? Justifique com trechos do texto.

3) Com o que eles confundiram o automóvel que apareceu na região?

4) Com o que o carro é comparado no 5º parágrafo?

5) O que as pessoas usaram para "combater" o "bicho" que chegara na cidade?

6) O que você acha que o narrador quis dizer com a expressão 'E tudo abaixo de gritos e pragas que nem lhes posso repetir aqui."?

7) Por que alguém exclamou " - o animal deu cria!"?

8) Há, no texto, a representação escrita de dois sons (onomatopeias). Quais são e o som de que representam?

9) O narrador do texto é narrador-personagem ou narrador-observador? Por quê?

10) Em relação ao texto lido, responda:
a) Qual é o enredo do texto?
b) Qual é a situação inicial?
c) Qual é a complicação que surge?
d) Qual é a dinâmica de ações dos personagens?
e) Qual é a resolução?
f) Qual é a situação final?




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