sexta-feira, 27 de abril de 2012

TEXTO 1

A MORENINHA
Joaquim Manuel de Macedo

Augusto e Carolina estão completamente apaixonados. Ele já voltou mais de uma vez à ilha para ficar com ela e não consegue pensar em mais nada a não ser nesse amor. Preparando-se para mais um domingo de encontro com a namorada, o rapaz recebe a visita do pai, que o proíbe de sair, repreendendo-o por ter relaxado nos estudos.

[...] Augusto amava deveras, e pela primeira vez em sua vida; e o amor, mais forte que seu espírito, exercia nele um poder absoluto e invencível. Ora, não há ideias mais livres que as do preso; e, pois, o nosso encarcerado estudante soltou as velas da barquinha de sua alma, que voou, atrevida, por esse mar imenso da imaginação; então começou a criar mil sublimes quadros e em todos eles lá aparecia a encantadora Moreninha, toda cheia de encantos e graças. Viu-a, com seu vestido branco, esperando-o em cima do rochedo, viu-a chorar, por ver que ele não chegava, e suas lágrimas queimavam-lhe o coração. Ouviu-a acusá-lo de inconstante e ingrato, daí a pouco pareceu-lhe que ela soluçava; escutou um grito de dor semelhante a esse que soltara no primeiro dia que ele tinha passado na ilha! Aqui, foi o nosso estudante às nuvens; saltou exasperado fora do leito em que se achava deitado, passou a largos passos por seu quarto, acusou a crueldade dos pais, experimentou se podia’ arrombar a porta, fez mil planos de fuga, esbravejou, escabelou-se e, como nada disso lhe valesse, atirou com todos os seus livros para baixo da cama e deitou-se de novo, jurando que não havia de estudar dois meses. Carrancudo e teimoso, mandou voltar o almoço, o jantar e a ceia que lhe trouxeram, sem tocar num só prato; e sentindo que seu pai abria a porta do quarto, sem dúvida para vir consolá-lo e dar-lhe salutares conselhos, voltou o rosto para a parede e principiou a roncar como um endemoninhado.

— Já dormes, Augusto? perguntou o bom pai, abrindo as cortinas do leito.

A única resposta que obteve foi um ronco que mais assemelhou-se a um trovão.

O experimentado velho fingiu ter-se deixado enganar, e retirando-se, trancou a porta ao pobre estudante.

Uma noite de amargor foi, então, a que se passou para este; na solidão e silêncio das trevas, a alma do homem que padece é, mais que nunca, toda de sua dor; concentra-se, mergulha-se inteira em seu sofrimento, não concebe; não pensa, não vela e não se exalta senão por ela. Isto aconteceu a Augusto, de modo que, ao abrir-se na manhã seguinte a porta do quarto, o pai veio encontrá-lo ainda acordado, com os olhos em fogo e o rosto mais enrubescido que de ordinário.

Augusto quis dar dois passos e foi preciso que os braços paternais o sustivessem para livrá-lo de cair.

— Que fizeste, louco? perguntou o pai, cuidadoso.

— Nada, meu pai; passei uma noite em claro, mas... eu não sofro nada.

Oh! ele queria dizer que sofria muito!

Imediatamente foi-se chamar um médico que, contra o costume da classe, fez-se esperar pouco.

Augusto sujeitou-se com brandura ao exame necessário e quando o médico lhe perguntou:

— O que sente?

Ele respondeu com toda fria segurança do homem determinado:

— Eu amo.

— E mais nada?

— Oh! Sr. doutor, julga isso pouco?

E além destas palavras não quis pronunciar mais uma única sobre o seu estado. E, contudo, ele estava em violenta exacerbação. O médico deu por terminada a sua visita. [...]

MACEDO, Joaquim Manuel de. A moreninha. 4.ed. São Paulo: Moderna, 2004. P. 125-126. (Fragmento)

TEXTO 2

Enquanto Augusto sofre por não poder sair de seu quarto, Carolina espera ansiosamente por ele na ilha onde mora. Mas as horas passam e ele não aparece.

A bela Moreninha tinha visto romper a aurora do domingo no rochedo da gruta, e, tendo debalde esperado o seu estudante até alto dia, voltou para casa arrufada. No almoço não houve prato que não acusasse de mal temperado: faltava-lhe o tempero do amor; o chá não se podia tomar, o dia estava frio de enregelar, toda a gente de sua casa a olhava com maus olhos; seu próprio irmão tinha um defeito imperdoável: era estudante... Pertencia a uma classe, cujos membros eram, sem exceção, sem exceção nenhuma, (bradava ela lindamente enraivecida) falsos, maus, mentirosos e até... feios. À tarde sentiu-se incomodada. Retirou-se, não ceou e não dormiu.

Tudo neste mundo é mais ou menos compensado; o amor não podia deixar de fazer parte da regra. Ele, que de um nadazinho tira motivos para o prazer de dias inteiros, que de uma flor já murcha engendra o mais vivo contentamento, que por um só cabelo faz escarcéus tais, que nem mesmo a sorte grande os causaria, que por uma cartinha de cinco linhas põe os lábios de um pobre amante em inflamação aguda com o estalar de tantos beijos, se não produzisse também agastados arrufos, às vezes algumas cólicas, outras amargores de boca, palpitações, ataques de hipocondria, pruído de canelas, etc., seria tão completa a felicidade cá embaixo, que a terra chegaria a lembrar-se de ser competidora do céu.

Um exemplo dessa regra está sendo a nossa cara menina. Coitadinha! vai passando uma semana de ciúmes e amarguras. Acordando-se ao primeiro trinar do canário, ela busca o rochedo, e, com os olhos embebidos no mar, canta muitas vezes a balada de Aí, repetindo com fogo a estrofe que tanto lhe condiz, por principiar assim:

"Eu tenho quinze anos,

E sou morena e linda."

MACEDO, Joaquim Manuel de. A moreninha. 4.ed. São Paulo: Moderna, 2004. P. 128. (Fragmento).

1) Qual o motivo do sofrimento dos personagens, nos trechos lidos?

2) A valorização do sofrimento amoroso e o individualismo são características importantes das obras românticas. Quais as reações de Augusto e Carolina, nos trechos apresentados, podem ser consideradas exageradas? Cite no mínimo 3 atitudes de cada um.

3) O texto está escrito em que pessoa? Que tipo de narrador apresenta? Justifique sua resposta:

4) No texto 2, no segundo parágrafo, o narrador apresenta uma tese (teoria) a respeito do amor, que pode ser relacionada à maneira como o amor é visto no Romantismo. Que tese é essa?

5) Em relação aos trechos lidos, analise as afirmações a seguir e, em seguida, assinale a alternativa correta.

I – Augusto não foi ao encontro de Carolina porque adoeceu.
II – Para Carolina, Augusto tinha um defeito imperdoável: era estudante.
III – Augusto e Carolina sofriam por não poder se ver. O estudante, proibido pelo pai, revoltou-se e passou a noite em claro por não poder ver sua amada; Carolina, enciumada e amargurada, passou o domingo irritada, esperando pelo amado que não veio vê-la.
IV – De acordo com o texto, o amor é visto como um sentimento que arrebata, desequilibra e leva ao sofrimento, se não fosse o sofrimento por ele provocado, a terra seria o paraíso.
V – Para Carolina, os estudantes são pessoas falsas, más, mentirosas, e até... feias.

a) Todas as alternativas estão corretas.                     d) As alternativas III, IV e V estão corretas.
b) As alternativas I, II e V estão incorretas.                 e) Nenhuma alternativa está correta.
c) As alternativas I, II e III estão corretas.
6) Em relação ao vocabulário empregado no texto, associe as colunas de acordo com o significado das palavras em destaque:

(a) “...saltou exasperado fora do leito...”
(b) “... não concebe, não pensa...”
(c) “não vela e não se exalta senão por ela.”
(d) “...o rosto mais enrubescido que de ordinário.
(e) “...e tendo, debalde, esperado o seu estudante...
(f) “...voltou para casa arrufada.”
(g) “...que de uma flor já murcha já engendra o mais vivo contentamento...”
(h) “...que por um só cabelo faz escarcéus tais,...”
(i) “...se não produzisse também agastados arrufos,...”
(j) “...ataques de hipocondria,...”
(k) “...pruído de canelas etc.”

(   ) muito irritado
(   ) irritada, zangada
(   ) nervosos, irritados
(   ) passar a noite acordado
(   ) gera
(   ) em vão, inutilmente
(   ) prurido, comichão, coceira
(   ) imagina
(   ) enrubescido
(  ) estado mental de alguém que revela exagerada preocupação com a própria saúde, chegando a imaginar sintomas de várias doenças.
(   ) escândalos

Fonte de consulta: SARMENTO, Leila Lauar. TUFANO, Douglas. PORTUGUÊS: Literatura, Gramática, Produção de Texto.1.ed. São Paulo: Moderna, 2010.

Nenhum comentário: