domingo, 29 de abril de 2012

A mitificação do gaúcho


A mitificação do gaúcho
Dilan Camargo
Como ser histórico, o gaúcho é o tipo humano surgido da fusão das populações originárias do pampa, os indígenas (charruas, minuanos) e os portugueses e espanhóis (soldados, marinheiros, aventureiros), dos desgarrados de todo tipo. Não tinham propriedade, família, nem endereço fixo. Nômades, assim como os indígenas. Carregavam o que precisavam no lombo de um cavalo. O gaúcho rio-grandense é o ser antropológico resultante de um período evolutivo de três séculos, nesta região meridional. 1600 – Missões jesuíticas / 1700 – Povoação portuguesa. E, especialmente, 1835, com a Guerra dos Farrapos. Nesse período, deu-se a fusão definitiva do “campeiro-soldado”. Um homem que precisou lidar com o gado e ao mesmo tempo lutar com as armas.
Hoje, esse gaúcho é o campeiro, o peão de estância. Sobrevive também nos arrabaldes, nas cercanias das cidades, principalmente nas da Fronteira Oeste. Esse é o chamado “gaúcho a pé”, que vendeu os arreios, perdeu o seu cavalo, e teve que sobreviver aprendendo a fazer de tudo, mas que mantém intacta uma alma e um modo de ser. Foi retratado magistralmente na trilogia de Cyro Martins. Ainda conserva algumas das características típicas dos indivíduos do campo, mas que já sofre o assédio cultural da globalização, primeiro através do radinho de pilha, e agora pela onipresença da televisão.
Sem o pampa, o gado, o cavalo, as estâncias, e as guerras, ele não existiria. Constituiu a sua natureza original e proveu sua forma de subsistência antes ainda do cercamento dos campos. Um viramundo, um vagamundo. Forjado pelos ventos frios do inverno e pela exuberância pastoril da primavera. Um general latino-americano disse que “nenhum homem é prudente montado num cavalo”. Ver as paisagens e o mundo em cima de um cavalo tornou-o altivo e autoconfiante, desafiador do destino.
Nessa relação com a natureza e os animais, ele formou os traços particulares do seu caráter. Um forte individualismo. Uma autonomia de espírito e firmeza de convicções. Senso agudo de liberdade. Recatado e de poucas palavras, mas sentencioso e sábio. Expansivo nos momentos de alegria ingênua e singela. É dono de um linguajar metafórico. Faz poesia ao falar. Exímio cavaleiro, qualidade que herdou dos indígenas. Sua vestimenta original (que hoje chamam de indumentária) era pobre e simples, e não com tantos adereços, como as que hoje alguns se pilcham de gaúcho.
Já o gaúcho-mito é a representação construída do gaúcho. E aí entramos no terreno minado pela ideologia. Há o tipo gaúcho. O tipo humano, com suas qualidades e defeitos. E há o estereótipo, construído pela representação ideológica do gaúcho conforme interesses históricos determinados. E o mito por excelência é o do gaúcho adâmico. Uma imagem mítica, projetada na figura difusa de um primeiro gaúcho, fundador da raça humana. Consequência disso é a mitificação do passado e do próprio presente, sempre heroico e grandioso. Há toda uma mitologia de fundação do mundo e uma celebração do “ser gaúcho”, mitificada, irreal, idealizada. Infelizmente, é o que acorre com o belo e já clássico poema “Eis o homem”, escrito e recitado por Marco Aurélio Campos, que conclui com estes versos: “Sou maior que a história grega. Sou gaúcho e me chega / pra ser feliz no universo”. Há um visível exagero nessa atitude, além de uma injustificada demonstração de incultura, ao elevar as façanhas dos gaúchos acima da história grega, o que, por sinal, também está na letra do hino rio-grandense. Qual a necessidade social e cultural dessa postura? No contexto da cultura universal, ela cumpre um papel obscurantista e se dilui na jocosidade de uma bravata.
Então, deveríamos livrar-nos de nossos sentimentos gaúchos? Não. Mas também não podemos, como disse Hélio Jaguaribe sobre os indígenas brasileiros, querer isolar “o gaúcho” num jardim antropológico, cultuá-lo num estado primitivo e sem perspectivas humanas na vida contemporânea, mantendo-o no altar da “santa ignorância”.
Há um sentimento gaúcho, sim, que ecoa em nós. Vem desses longes, e de repente nos toca quando ouvimos um ponteio de milonga, quando chora uma cordeona, no canto de um quero-quero, ao redor de um fogo de chão, no olhar encantado para a vastidão do pampa, nas vozes do minuano. Nesses momentos, nosso coração é gaúcho e universal. Para isso, não precisamos novamente inventar a roda e nem cultuar a tradição como um ponto de chegada, mas sempre de partida.
QUESTÕES DE VOCABULÁRIO E INTERPRETAÇÃO
1 – Encontre, no texto, palavras que signifiquem:
a)       Mistura, união:                                                                       g) Simples:
b)       Sem residência fixa:                                                               h) Tímido:
c)       Vizinhanças:                                                                          i) Excelente, magnífico:
d)       Inteira, completa, não tocada:                                                  j) Atos heroicos, proezas:
e)       Cuidadoso, cauteloso:                                                            k) Desfaz:
f)        Certeza, crença:
2 – Em relação ao texto é correto afirmar
I – O gaúcho surgiu da mistura entre os povos indígenas e espanhóis, e eram nômades.
II – Os gaúchos não são confiáveis, pois, segundo um general latino-americano: “nenhum homem é prudente montado num cavalo”.
III – Segundo o texto, o gaúcho é um ser autônomo, convicto, que preza a liberdade e  demonstra firmeza de caráter.
IV – O texto, de certa forma, critica o sentimentalismo de alguns gaúchos, que sobrepõem a história do povo gaúcho a história e mitologia grega.
V – É correto afirmar que os traços de caráter do gaúcho tem forte ligação com a natureza e com os animais.

a)      Todas as questões estão corretas.        d) As questões I, III e V estão corretas.
b)      Nenhuma questão está correta.              e) As questões I, III e IV e V estão corretas.
c)       As questões II, III, IV e V estão corretas.

3 - No quarto parágrafo do texto, o autor cita qualidades do gaúcho. Liste-as:



4 - Em que momento, segundo o autor, nosso sentimento de ser gaúcho ecoa mais forte?



5 – Quais são, segundo o autor, os tipos de gaúcho que existem? Quais as características de cada um deles?


ATIVIDADES GRAMATICAIS
1)      Identifique e classifique o sujeito presente nas frases abaixo. Quando possível, circule o(s) núcleo(s):
a)      Não tinham propriedade, família, nem endereço fixo.

b)      Há um sentimento gaúcho.

c)       Há toda uma mitologia de fundação do mundo e uma celebração do “ser gaúcho”.

d)      O gaúcho rio-grandense é o ser antropológico resultante de um período evolutivo de três séculos.

e)      Sou maior que a história grega.


2)      Classifique os verbos e os seus complementos:
a)      “...conclui com estes versos.”

b)      “...livrar-nos de nossos sentimentos gaúchos?”

c)       Sobrevive também nos arrabaldes, nas cercanias das cidades, principalmente nas da Fronteira Oeste.

d)      “...nosso coração é gaúcho e universal”

e)      “...vendeu os arreios, perdeu o seu cavalo.”

3)      Retire,  do 1º parágrafo, duas frases nominais.

4) Quantas frases nominais há no 5º parágrafo do texto?


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