segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O HOMEM QUE RESOLVEU CONTAR APENAS MENTIRAS

O homem que resolveu contar apenas mentiras
Ignácio de Loyola Brandão

 Naquela manhã, acordou disposto a só contar mentiras. A não dizer uma única verdade. A ninguém. Nem à própria mulher. E assim quando afirmou: 'vou para o trabalho', empregou sua primeira mentira. Não ia. Tinha resolvido faltar, esquecer o escritório, a mesa, os papéis. Parar, ficar na rua.
Quando disse bom-dia para o zelador do prédio, também mentia, porque odiava o zelador, um oportunista, que não conservava o prédio, fazia fofocas entre empregadas, pedia gorjetas, ganhava porcentagem na compra de materiais de limpeza.
Quando disse o endereço ao motorista do táxi, também mentia, não pretendia ir para aquele lugar. Mas o chofer exigira o destino pois as pessoas vivem exigindo as coisas. E nem sempre temos vontade ou possibilidade de fazer. E as exigências crescem e se tornam parte de nossa vida diária. Nos acostumamos com elas, nos acomodamos, sem perceber que cada concessão é um pedaço da gente mesmo, envenenado, que a gente engole.
Quando o homem entrou no bar e pediu café, mentia, porque não queria café. Estava apenas fazendo um teste, enquanto observava o gesto maquinal daquele empregado que destacava uma ficha e a entregava. Será que aquele funcionário, alguma vez, imaginou que alguém pudesse não querer café? Pedir, por pedir, mas não querer? Nem sequer desejar ver a xícara fumegante?
Com a ficha na mão, saiu pela rua. Outra mentira, não queria ficar na rua. Mas se entrasse no escritório, seria mentira maior. Odiava o escritório, o empregado, os colegas. De duas mentiras, preferiu a menor, ainda que, ponderando, descobrisse que ficar com a mentira menor era igualmente fuga , mentira, porque nesse dia tinha decidido mentir. E quando se decide uma coisa, o melhor é levá-la até o fim.
Andou. Pensando como a cidade era bonita com seus prédios batidos de Sol e os vidros dando mil reflexos. Bonita com a gente que andava apressada para trabalhar e construir alguma coisa. Bonita na tranqüilidade da vida, no sossego das casas, na calma que se estampava nos rostos das gentes. Bonita no que oferecia de futuro e de perspectivas. Bonita nos carros que andavam em fila, ruidosamente, um atrás do outro, sempre para frente, sempre para frente. Bonita na fumaça negra que escapava dos veículos e subia em espirais, milhares de fumaças reunidas, formando uma bela nuvem negra, como um negro véu, que surgia sobre a terra, espanando o Céu.
Andou sem querer andar. Viu, sem querer ver. Sentiu, sem querer sentir. Cansou, sem querer cansar.
Tudo uma grande mentira neste dia. Como mentira era a vida que ele vivia, cotidianamente, falsificada, pré-fabricada, exaurida, imposta. Suada. Que repousante era viver este dia de mentira. Negar tudo, reviver.
Andou até a hora de voltar para casa. Outra mentira, não queria voltar para casa, o lar, o aconchego, o refúgio, a fuga. A verdade de sua vida encerrada entre aquelas quatro paredes, a família, o amor, o carinho, o aconchego, o lar, o refúgio, a fuga, a realidade.
Não voltar e andar. Percorrendo as ruas, entrando nos prédios, conversando com as pessoas. No entanto, não tinha vontade de conversar. Sabia que precisava, mas não tinha vontade de falar. Falava pouco, sua língua andava entorpecida, sem prática. O medo é que um dia desacostumasse e perdesse a capacidade de se comunicar. E como andava difícil se comunicar. Ficou parado numa esquina, esperando a noite passar.
Quando o dia chegou, tinha acabado o período da mentira, podia enfrentar de novo a verdade. E disse bom-dia ao porteiro, deu o endereço ao táxi, ligou para a mulher e o patrão. Disse no emprego que estava doente. E, na verdade, estava.

1)       Identificar o conflito do texto é importante para chegar ao tema.
a)       Qual o conflito vivido pela personagem do texto?
b)       Assinale a alternativa que melhor justifica a resposta ao item anterior:
(      ) Naquela manhã, acordou disposto a só contar mentiras.
(      ) As exigências crescem e se tornam parte de nossa vida diária. Nos acostumamos com elas, nos acomodamos, sem perceber que cada concessão é um pedaço da gente mesmo, envenenado, que a gente engole.
(      ) [...] porque nesse dia tinha decidido mentir. E, quando se decide alguma coisa, o melhor é leva-la até o fim.
(      ) Quando o dia chegou, tinha acabado o período da mentira, podia enfrentar de novo a verdade.

2)       Qual o conflito vivido pela personagem principal do texto?

3)       Reescreva as frases abaixo, substituindo as expressões sublinhadas, por pronomes pessoais oblíquos. Faça as alterações necessárias.
a)       [...] acordou disposto a só contar mentiras.
b)       [...] empregou a primeira mentira.
c)       [...] esquecer o escritório, a mesa, os papéis.
d)       Quando disse o endereço ao motorista do táxi [...]
e)       Podia enfrentar de novo a verdade.

4)       No primeiro parágrafo há alguns verbos destacados. Identifique quais os pronomes que conjugam corretamente esses verbos e, após, classifique-os.

5)       Para identificar o tema do conto:

a)       Reúna as mentiras contadas pela personagem principal e as ações realmente praticadas por ela. Para isso, complete o quadro abaixo:
AÇÃO DA PERSONAGEM PRINCIPAL
JUSTIFICATIVA DESSA AÇÃO
Mentiu para a mulher dizendo que iria para o trabalho.
Não iria. Tinha resolvido esquecer o escritório, a mesa, os papéis naquele dia.
Mentiu ao dizer bom-dia para o zelador.

Mentiu ao informar o destino ao motorista do táxi.

Mentiu ao pedir café no bar.

Mentia ao sair pela rua, mas ir para o escritório seria uma mentira maior.

Andou até a hora de voltar para casa, mas não queria voltar para casa.


6)       As justificativas apresentadas pelo homem sugerem seu descontentamento com certos aspectos de sua vida. Assinale as alternativas que correspondem a esse descontentamento.
a)       Trabalho                      b) relação com as demais pessoas                 c) aparência física              d) organização da cidade
e) a vida familiar                                f) falta de tempo para o lazer

       7) Os pronomes relativos o qual  e cujo são variáveis porque podem ser flexionados em número (singular e plural) e gênero (masculino e feminino) de acordo com seu antecedente; já os pronomes relativos que e quem são invariáveis. Reescreva as frases a seguir, transformando-as num único período, utilizando os pronomes relativos adequados, no lugar das expressões que se repetem

- que, o qual, quem
a) Aqui está o homem. O homem só dizia mentiras. = Aqui está o homem que só dizia mentiras. OU Aqui está o homem o qual só dizia mentiras.
b) O homem viajou com alguns amigos. Os amigos o distraíram.
c) O homem descreveu o fato. O fato o deixou tão pessimista.
d) O homem mentiu para a mulher. A mulher ficou em casa.
e) O homem encontrou o porteiro. O homem não gosta do porteiro.

- que, o qual, onde        
f) O homem entrou no edifício. O homem trabalhava naquele edifício.
g) O homem olhava a cidade. O homem  morava naquela cidade.

- Cujo (a) (s)
h) Esse é o homem. O desejo desse homem é muito diferente do das outras pessoas.
i) Esse é o homem. O sonho desse homem é viver em paz.
j) Essa é cidade. Os habitantes dessa cidade só falam mentiras.

7)       Observe as frases
a) “Nos acostumamos com elas [...]” (3º parágrafo).
b) “E quando se decide uma coisa, o melhor é levá-la até o fim.” (5º parágrafo).
A que palavras ou expressões se referem os pronomes destacados?

8)       Indique a que palavra ou expressão o pronome relativo se refere.
a) Bonita como a gente que andava apressada para trabalhar e construir alguma coisa.
b) Bonita na tranquilidade da vida, no sossego das casas, na calma que estampa os rostos das gentes.
c) Bonita nos carros que andavam em fila, um atrás do outro, sempre para frente, sempre para frente.
d) Bonita na fumaça negra que escapava dos veículos e subia em espirais, milhares de fumaças reunidas, formando uma bela nuvem negra, como um véu negro, que surgia sobre a terra, empanando o céu.
e) Como mentira era a vida que ele vivia.

Nenhum comentário: