quarta-feira, 2 de março de 2011

O “ESPERANÇA FUTEBOL CLUBE”

1. Leia com atenção o texto a seguir, e descubra quais são as palavras que ficaram incompletas.

O “ESPERANÇA FUTEBOL CLUBE”
Orígenes Lessa


Era o o__g__l__o de Buritisal. Resumia-lhe a vida e as aspirações. Marcava o seu lugar entre as p__v__aç__ __s e vilas da região. E na vila, desde o ___ar__ __o engatinhante aos mais velhos e respeitáveis __er__ __n__g__ __s, toda a gente sentia o peito cheio ao pensar no Esperança Futebol Clube.
Nasceu de um punhado de sonhadores, o Tartico, o Chiquinho da NhóAna, o Tuzzi, o Dantinho, numa tarde de m_ _ _. Até aquela época Buritisal era um lugar __pag__ __o, m__r__o, sem repercussão. Ninguém o conhecia. E mesmo a gente da vila mal dava conta da sua ex__st__ __c__ __, vegetando so__ __le __ __a ao sol bravo de verão e ao frio duro de junho, com os milharais em torno, os seus pés de café, o seu gado magro, e o seu s__ __ __e__o cachimbado e modorrento.
Mas o Tartico, o melhor “centrefô” de Buritisal, era um rapaz inquieto, cheio de ambições. Tinha orgulho em possuir o chute mais forte da terra e em ser o melhor distribuidor de jogo até então conhecido. Que direção! Que bicanca! E quando, todas as tardes, ia treinar na baixada com o seu __ap__t__o de biqueira temida, caminhava como um triunfador, vendo os olhares das moças que o acompanhavam com uma t__rn__r__ comprida e embasbacada.
Aos domingos havia jogo, quase sempre. Contra o Lírio F.C., também da vila, time do Negrão, ou contra os times das __az__ __ d__s vizinhas. Tartico ainda não tinha clube. Tinha apenas os j__ __a__o__es. Reuniam-se, faziam os seus d__ __af__ __s, e iam vencendo. Cada chute seu era um gol. E, depois, o Chiquinho, o Tuzzi, toda aquela “macacada” jogava, de fato.
Foi quando Tartico resolveu organizar o cl__ __ __. D__ __c__s__ __ __s, __pl__ __s__, oposição. E dois domingos depois o Esperança empacotava o Lírio por 6 a 1. Um triunfo! Seguiam-se o Santa Cruz, o Perereca, de uma fazenda, e mais três ou quatro. Verdadeiras solapas! E o Esperança começou a ganhar nome. Tartico era o __ss__mb__ __ do campo. Arrebatava os c__m__an__e__r__s. Com o seu entusiasmo inabalável e a confiança firme na vitória, fazia de cada parceiro um herói.
As cidades vizinhas foram desafiadas. C__ d __ __ __s já importantes, com juiz de Direito e campos gr__ __a__ __s, de arquibancada, eram levadas na sopa... Buritisal começava a ser discutido. Tinha já inimigos. E o Esperança tornava-se o campeão das redondezas.
Naturalmente, os ad__ __r__á__i__s queixavam-se. As vitórias eram r__ __b__ __ __ s. O Esperança fazia gols à custa do a__i__o, jogava com o juiz. Clube que ia a Buritisal acusava a po __ __ __ aç__o de atrocidades, de massacres, de perseguições. Mas, intimamente, todos se curvavam. Braço era braço...
Tartico era empreendedor. Conseguira preparar um campo decente, com ar__ __i__ __n__ __da. Alcançara um auxílio da Câmara, interessara os __a__en__e__r__s e, depois de fundado o Esperança, até surgira um jo__n__l__i__ __o, como os jornais dos grandes centros, dedicado quase exclusivamente à re__ __ __t__g__ __ futebolística, com os seus “mais uma estonteante vitória do Esperança F.C.”, “mais um glorioso marco na h__ __t__r__ __ da falange alvi-negra”...
A vila era toda do clube.
-Vamo vê domingo...
- O Amparense? Coitado... Nem dá pra saída...
- Dizem que são campeão...
- Campeão uma chimarra! Pode sê campeão lá, aqui eu quero vê! Pensa que Buriti dá c__ __f__ __n__ __?
- Ah! Lá isso é. O Tartico leva tudo no salame...
- É capaz de entrá de “bola-e-tudo”...
- Isso é canja. Se alembra do Santa Cruz? Só o Chiquinho marcô três!
- E não é só, seu compadre! O gol do Dantinho não tem esse topetudo que vare! Em seis meis só comeu três bola!
- E assim mesmo, uma foi de “ofessaide”...
- E teve uma de penalty também.
- De uma coisa eu tô convencido: pra vencê o Esperança, só mesmo São Paulo!
Buritisal continuava a s__ __h__ __. Já não lhe bastava a glória de campeão. Convencera-se da sua invencibilidade. E quase se desinteressava quando um __ __m__ comum, sem grande passado e verdadeira fama, aparecia por lá.
- Num vale a pena trocê. Bastava o Tartico, a defesa e as duas extrema...
Tartito, realmente, era o grande homem. Era o í__ __l__ da criançada, o enlevo dos velhos, e entrara de “bola-e-tudo” em todos os c__r__ç__ __s de moça que havia em Buritisal. Muita morena, quando o via em campo, tinha a impressão de que o seu coraçãozinho era uma bola de meia que o Tartico, acostumado à bola nº5, nem queira chutar.
- Êta, Tartico!
- Aí, Tartíco!
- Entra, Tartico!
Era a grita unânime. Desnecessária, Porque o Tartico, a muque ou não, furava mesmo o gol in__m__g__ e já tinha varado, havia muito, o coração pulapulando daquela morenada bonita
Na vila só havia um grupo dissonante, o do Negrão. Era o rival de Tartico. Não lhe perdoava ter lançado no esquecimento o Lírio, o clube tr__d__c__ __ n__l. Quando o Lírio jogava, já quase ninguém aparecia. Uma ou outra cabocla. Seu Maneco, prefeito, nem ligava. E mesmo a molecada já não ia torcer.
Negrão moía a sua raiva em s__l__n__ __o. Treinava o time furiosamente. Berrava com os companheiros. Ameaçava o goal-keeper.
- Tu nunca foi golquipa, seu porco!
E mesmo de noite, no enxergão primitivo, ficava chutando o s__ __ o, que o não vencia nunca, jogando em espírito. A Bola não lhe saia da cabeça. Via-a de todos os lados. Ajeitava a coberta, fechava os olhos e, quando menos o esperava, lá recebia um passe imaginário ou via o Tartico salameando os backs e pondo o gol em perigo...
Aliás, era no silêncio da casa que o Negrão se __ing__ __a. Jogava e ganhava sempre. Bastava fechar os __ __h__s para se ver no campo enfrentando o Esperança. O juiz dava saída. Negrão pegava a bola, driblava o Tartico, extremava para a direita, corria para a frente, esperava o passe, passava de cabeça para o meia-esquerda. Novo drible, bola em gol, um a zero!
Era sopa. Às vezes o negrão precisava no fim do jogo fazer um abatimento no escore de quatro ou cinco pontos...
- Pra não dá muito na vista...
A grande volúpia de negrão, quando sonhava, era poder irritar, pisar as torcedoras de Buritisal, todas favoráveis ao Tartico. Seu ideal era vencê-lo para as deixar ódio, com r__ __v__, despeitadas.
- Essas convencidas!
Mas não adiantava sonhar. Cada jogo era um d__s__ __t__e. O Esperança nem fazia força. Brincava... E, no fim, já nem havia torcida contrária.
Um dia, Tartico anunciou que mandava desafiar um grande clube de São Paulo. A notícia eletrizou Buritisal.
- Nossa Senhora!
Houve um arrepio de medo. Mas passageiro. Em pouco, Buritisal esperava impaciente, confiante, o dia da luta. Tartico lograra convencer os seus jogadores, toda a sua gente, de que a vitória seria uma br__ __c__d__ __r__. Não havia “esse um” que pudesse vencer o Esperança. Cadê! Bastava treinar um pedaço. Até aquela ocasião ninguém conseguira nem mesmo um simples e__ __ __t__...
- Num digo que a gente dê uma lavage, - afirmava o prefeito. – mas de uns dois a um a gente dá...
- E eles que num brinque muito...
Chegou o dia. Buritisal estava em febre. Mais de mil pessoas da redondeza enchiam a vila. Parecia festa de igreja. Os botequins estavam “assim” do povo... Tabuleiros de doce e gul__s__ __m__ __ faziam fortuna. A Chica, a Tudinha, toda aquela caboclada seiúda tagarelava nervosa, o coraçãozinho agitado, os olhos muito acesos, lenço de cor, vestido de chita assanhada, perguntando a Deus e a Nossa Senhora se a gente ganhava ou não...
- Será, meu Deus?
E um ar__ __p__ __ moreno percorria a pele de todas.
Seu vigário rezara, de graça, uma missa pela vitória. O __ r__f__ __ __o prometera cerveja para quem quisesse, até cair... Uma __ro__e__s__ __ a do Grupo prepara um discurso que seria lido pela melhor aluna, depois do jogo. A Rapaziada apostava, confiante, com os forasteiros, na __i__ó__ __a do clube. E, como as moças da terra, fazia três dias que a molecada de Buritisal não pregava olho, noite adentro.
- Mundinho, ocê já dormiu?
- Inda não, Pruquê?
- À toa...ocê acha que a gente ganha de muito?
- Sei não!
- De uns cinco a zero?
- Sei lá! Paulista joga pra burro! É capaz de gente ganhá só uns treis a um...
- Quá! Mas o Tartico... se ele quisé...
E três horas antes do jogo não havia mais lugar. Alguns haviam amanhecido no campo. Falando, apostando, gritando.
Só um grupo ficava caladão, a um canto, o pessoal do Lírio. Negrão gozava. Ele conseguira não se contagiar. Conhecia o jogo do Paulista. Não tinha ilusões. Sabia que a sua vitória era certa. E, com um s__r__ __s__ incontido, viera vingar-se. Era a derrota, a queda, a desmoralização de Tartico. Sujeito convencido! Só faltava desafiar o “escreche” do mundo...
E Negrão, como as morenas e como o molecório de Buritisal, passara insone as últimas noites, antegozando a cara que a Tudinha, a Chica, todas elas, teriam quando o Paulista ensopasse de uma vez a cambada garganta de Tartico.
- Entra!
- __h__t__!
- Extrema!
Ia longe o primeiro tempo. Contra a expectativa da vila o Esperança perdia pela primeira vez. Após ano e meio de lutas o clube encontrava um adversário que, logo de entrada, lhe embrulhava a linha, dominava a defesa, a vazava, bonito, o gol do Dantinho.
A assistência gelara.
- Ah! Meu Deus!
E uma porção de __o__as bonitas mordeu os lenços de cor, numa vontade enorme de ch__r__r, enquanto os forasteiros jogavam o chapéu no ar pelo gol vingador de tantas humilhações.
Tartico não se abalou. Bola ao centro. Pá...pá....pá... E, com uma rapidez incrível, num assomo he__ó__ __o, foi buscar, do outro lado, o tento de empate.
O Negrão, porém, não conseguira comemorar como esperava. O resultado era o previsto, a solapa. Todas as morenas de Buritisal viam que o Tartico não era o incrível, o invencível herói que imaginavam. Mas desde que a vitória se declarara insofismável, quando vira o rival irremediavelmente vencido, com os olhos pisados e o coração batido de todas aquelas garotas que odiava, e para alegria dos torcedores de fora, Negrão começou a sentir-se mal.
No Half-time a coisa fora ao extremo. Enquanto os players do Esperança caíam no chão, vencidos de fadiga, os outros, lépidos, d__s__an__a__ __s, ficavam no campo batendo bola, satisfeitos, ir__n__cos, dirigindo gracejos, pondo olhares sem vergonha nas meninas da terra, como quem dizia que Buritisal era sopa...
O pessoal de um bairro vizinho, rindo com insolência, __eb__ a, por conta das apostas. Havia graçolas pesadas. E trincou os dentes de ódio quando um deles ofereceu o lenço para enxugar as l__g__ __mas da Chica e da Tudinha, as belezas de Buritisal, entre as quais ele e o Tartico, eternos r__va__s, viviam incertos, indecisos...
Ia começar o segundo tempo.
Gente de fora cantava, irritando, para exasperar Buritisal, que ouvia humilhado.
É sopa!
É sopa!
É Sopa! É sopa! É sopa!
Paulistanos!
A Vitória já estava decidida. O Esperança perdera. Qual Tartico! Qual Dantinho! Eram leões morrendo. Heróicos, doidos, indomáveis. Mas era impossível. Todo Buritisal, cabisbaixo, o reconhecia. Morrera e grita amável! Da morenas. Os Torcedores moços rasgavam o __ha__ __u, davam murros no espaço...
E em meio àquele silêncio, imprevista, só a turma do Lírio, Negrão à frente, rouca, alucinada, não desanimava, gritando numa torcida maluca:
- Aí! Dantinho!
- Extrema, Chiquinho!
- Entra, Tartico!

VOCABULÁRIO
1) De acordo com o texto, analise as afirmações a seguir.
I -"Resumia-lhe a vida e as aspirações" - O termo "aspirações" pode ser substituído por "desejos", sem alterar o sentido da frase.
II - "...e o seu sossego cachimbado e modorrento." - "Sonolento" é um sinônimo para a palavra "modorrento".
III - "Um triunfo." - O termo "triunfo" pode ser substituído pelo termo "vergonha", sem alterarl o sentido da frase.
IV - "Clube que ia a Buritisal acusava a população de atrocidades, de massacres, de perseguições".  - Pode-se substituir o termo "atrocidades" por "crueldades", sem alterar o sentido da frase.
V -"Era o ídolo da criançada, o enlevo dos velhos, e entrara de “bola-e-tudo” em todos os corações de moça que havia em Buritisal." - O termo "enlevo", no texto, é sinônimo de inimigo.
a) Todas as alternativas estão corretas.
b) Todas as alternativas estão incorretas.
c) Somente as alternativas III e V estão corretas.
d) As alternativas I, II e IV estão corretas.
e) As alternativas I, II e III estão corretas.

2. Encontre, no texto, palavras que signifiquem:
a) contagem, placar:___________________
b) sacerdote, pároco: __________________
c) conforme a opinião de todos: ______________
d) cansaço: ____________________
e) ágil, rápido: __________________
f) petulância: ____________________

3) Observe que os diálogos dos personagens, carregam marcas da oralidade e da linguagem informal. Reescreva os trechos abaixo, colocando as falas na forma padrão.
a)
-Vamo vê domingo...
- O Amparense? Coitado... Nem dá pra saída...
- Dizem que são campeão...
- Campeão uma chimarra! Pode sê campeão lá, aqui eu quero vê! Pensa que Buriti dá c__ __f__ __n__ __?
- Ah! Lá isso é. O Tartico leva tudo no salame...
- É capaz de entrá de “bola-e-tudo”...
- Isso é canja. Se alembra do Santa Cruz? Só o Chiquinho marcô três!
- E não é só, seu compadre! O gol do Dantinho não tem esse topetudo que vare! Em seis meis só comeu três bola!
- E assim mesmo, uma foi de “ofessaide”...
- E teve uma de penalty também.
- De uma coisa eu tô convencido: pra vencê o Esperança, só mesmo São Paulo!

b) 
- Mundinho, ocê já dormiu?
- Inda não, Pruquê?
- À toa...ocê acha que a gente ganha de muito?
- Sei não!
- De uns cinco a zero?
- Sei lá! Paulista joga pra burro! É capaz de gente ganhá só uns treis a um...
- Quá! Mas o Tartico... se ele quisé...

OBS: quem quiser ter acesso à atividade completa que fiz sobre este texto, ou a variação que fiz para trabalhar com turmas de 6º ano, me peça por email.


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