domingo, 31 de outubro de 2010

SOZINHOS - Luís Fernando Veríssimo


Sozinhos
Luís Fernando Veríssimo
Esta idéia para um conto de terror é tão terrível que, logo depois de tê-la, me arrependi. Mas já estava tida, não adiantava mais. Você, leitor, no entanto, tem uma escolha. Pode parar aqui, e se poupar, ou ler até o fim e provavelmente nunca mais dormir. Vejo que decidiu continuar. Muito bem, vamos em frente. Talvez, posta no papel, a idéia perca um pouco do seu poder de susto. Mas não posso garantir nada. É assim:
Um casal de velhos mora sozinho numa casa. Já criaram os filhos, os netos já estão grandes, só lhes resta implicar um com o outro. Retomam com novo fervor uma discussão antiga. Ela diz que ele ronca quando dorme, ele diz que é mentira.
- Ronca.
- Não ronco.
- Ele diz que não ronca - comenta ela, impaciente, como se falasse com uma terceira pessoa.
Mas não existe outra pessoa na casa. Os filhos raramente visitam. Os netos, nunca. A empregada vem de manhã, faz o almoço, deixa o jantar e sai cedo.
Ficam os dois sozinhos.
- Eu devia gravar os seus roncos, pra você se convencer - diz ela. E em seguida tem a idéia infeliz. - É o que eu vou fazer! Esta noite, quando você dormir, vou ligar o gravador e gravar os seus roncos.
- Humrfm - diz o velho.
Você, leitor, já deve estar sentindo o que vai acontecer. Pare de ler, leitor. Eu não posso parar de escrever. Às idéias não podem ser desperdiçadas, mesmo que nos custem amigos, a vida ou o sono. Imagine se Shakespeare tivesse se horrorizado com suas próprias idéias e deixado de escrevê-las, por puro comedimento. Não que eu queira me comparar a Shakespeare. Shakespeare era bem mais magro. Tenho que exercer este ofício, esta danação. Você, no entanto, não é obrigado a me acompanhar, leitor. Vá passear, vá tomar um sol. Uma das maneiras de controlar a demência solta no mundo e deixar os escritores falando sozinhos, exercendo sozinhos a sua profissão malsã, o seu vício solitário. Você ainda está lendo. Você é pior do que eu, leitor. Você tinha escolha.
Sozinhos. Os velhos sozinhos na casa. Os dois vão para a cama. Quando o velho dorme, a velha liga o gravador. Mas em poucos minutos a velha também dorme. O gravador fica ligado, gravando. Pouco depois a fita acaba.
Na manhã seguinte, certa do seu triunfo, a velha roda a fita. Ouvem-se alguns minutos de silêncio. Depois, alguém roncando.
- Rarrá! - diz a velha, feliz.
Pouco depois ouve-se o ronco de outra pessoa, a velha também ronca!
- Rarrá! - diz o velho, vingativo.
E em seguida, por cima do contraponto de roncos, ouve-se um sussurro. Uma voz sussurrando, leitor. Uma voz indefinida. Pode ser de homem, de mulher ou de criança. A princípio - por causa dos roncos - não se distingue o que ela diz. Mas aos poucos as palavras vão ficando claras. São duas vozes.
É um diálogo sussurrado.
"Estão prontos?"
"Não, acho que ainda não..."
"Então vamos voltar amanhã..."



VOCABULÁRIO
1) ENCONTRE, NO TEXTO, PALAVRAS QUE SIGNIFIQUEM:
a) diferencia: ________________  f) moderação: _______________
b) loucura: __________________ g) confusão: ________________
c) firmar:________________          h) briga:__________________
d) agitado:________________      i) ardor: _________________
e) esbanjadas: _____________      j) sucesso: __________________
INTERPRETAÇÃO TEXTUAL
1) Segundo o narrador, uma das maneiras de controlar a demência solta no mundo é
a) deixar os escritores falando sozinhos.        d) não ler o que os escritores escrevem.
b) escrever histórias de terror.                          e) Ler o que os escritores escrevem.
c) escolher o que ler.          
2) De acordo com o texto “exercer este ofício, esta danação” refere-se:
a) se comparar a Shakespeare.          d) ligar o gravador.             
b) assustar os outros.        e) gravar o casal dormindo.
c) escrever histórias.
3) No final do texto o narrador destaca um diálogo que apareceu na gravação. Quem, supostamente estava conversando?

4) Qual era o motivo da discussão do casal de velhos?

ATIVIDADES GRAMATICAIS
1) No 1º parágrafo, existem duas orações subordinadas substantivas. Encontre-as e classifique-as:

2) Transforme os períodos simples abaixo em orações subordinadas substantivas e classifique-as:
a) “Estava certa do seu triunfo.”
b) “É um diálogo sussurado.”
c) “Você não tinha escolha.”

3) Encontre, no texto, duas orações subordinadas substantivas objetivas diretas.

4) Classifique a oração subordinada substantiva abaixo:
“É necessário que gravemos os roncos."

5) Em relação à classificação do sujeito, assinale a alternativa incorreta.
a)      “Um casal de velhos mora sozinho numa casa.” – Sujeito simples: um casal de velhos.
b)      “Ficam os dois sozinhos.” – Sujeito simples: os dois.
c)       “Não ronco.” – Sujeito indeterminado: Eu
d)      “Estão prontos?” – Sujeito indeterminado: Eles
e)      “Os filhos raramente visitam.” – Sujeito simples: Os filhos.

6) Retire do texto duas frases nominais.

7)  Classifique os verbos e seus complementos.
a)      “Vou ligar o gravador.”
b)      “Mas não existe outra pessoa na casa.”
c)       Você convenceu-se de que ronca.
d)      Me surpreendi com a ideia que tive.
e)      “Como se falasse com uma terceira pessoa.

8) Quantas orações tem o 2º parágrafo do texto?

9)      O último parágrafo do texto é um período simples ou composto? Justifique:

10) Qual o pronome que o narrador utiliza, no primeiro parágrafo, para referir-se ao leitor do texto?

11) Qual termo é substituído pelo pronome destacado na frase “Esta ideia para um conto de terror é tão terrível que, logo depois de tê-la, me arrependi.” (1º parágrafo).

12) A quem se refere o pronome “lhes”, presente no 2º parágrafo do texto?

13) Observe a frase:
“- Eu devia gravar os seus roncos, pra você se convencer – [...]” (8º parágrafo)
Se substituíssemos a expressão destacada por um pronome, a frase ficaria:
(     ) “- Eu deveria gravar-lhe, pra você se convencer – [...]”
(     ) “- Eu deveria gravar-los, pra você se convencer – [...]”
(     ) “- Eu deveria gravá-los, pra você se convencer – [...]”

14) O pronome possessivo estabelece uma relação na qual algo pertence a alguém. Complete adequadamente o quadro abaixo, observando os pronomes possessivos destacados em cada parágrafo indicado entre parênteses.
ENTE POSSUIDOR (QUEM POSSUI)
PRONOME
COISA POSSUÍDA

Seus (8º parágrafo)


Suas (10º parágrafo)


Sua (10º parágrafo)


Seu (10º parágrafo)


Seu (12º parágrafo)


15) Observe a frase: “Os dois vão para a cama.” (11º parágrafo). O pronome que substitui adequadamente a expressão destacada é:
(       ) Nós              (      ) Elas         (       ) Eles

16) Ao reescrever a frase: “Uma das maneiras de controlar a demência solta no mundo é deixar os escritores falando sozinhos,[...]” (10º parágrafo), substituindo as expressões destacadas por pronomes, teríamos:
(      ) Uma das maneiras de controlá-la  é deixar-lhes falando sozinhos,[...]
(      ) Uma das maneiras de controlar-lhe é deixá-los falando sozinhos,[...]

(      ) Uma das maneiras de controlá-la é deixá-los falando sozinhos,[...]

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