quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O Homem Nu

O Homem Nu
Fernando Sabino
Ao acordar, disse para a mulher:
Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar a prestação da televisão, vem aí o sujeito com a conta, na certa.  Mas acontece que ontem eu não trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum.
Explique isso ao homem — ponderou a mulher.
Não gosto dessas coisas. Dá um ar de vigarice, gosto de cumprir rigorosamente as minhas obrigações. Escuta: quando ele vier a gente fica quieto aqui dentro, não faz barulho, para ele pensar que não tem ninguém.   Deixa ele bater até cansar — amanhã eu pago.
Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer um café. Pôs a água a ferver e abriu a porta de serviço para apanhar o pão.  Como estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro antes de arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo padeiro sobre o mármore do parapeito. Ainda era muito cedo, não poderia aparecer ninguém. Mal seus dedos, porém, tocavam o pão, a porta atrás de si fechou-se com estrondo, impulsionada pelo vento.
Aterrorizado, precipitou-se até a campainha e, depois de tocá-la, ficou à espera, olhando ansiosamente ao redor. Ouviu lá dentro o ruído da água do chuveiro interromper-se de súbito, mas ninguém veio abrir. Na certa a mulher pensava que já era o sujeito da televisão. Bateu com o nó dos dedos:
Maria! Abre aí, Maria. Sou eu — chamou, em voz baixa.
Quanto mais batia, mais silêncio fazia lá dentro.
Enquanto isso, ouvia lá embaixo a porta do elevador fechar-se, viu o ponteiro subir lentamente os andares...  Desta vez, era o homem da televisão!
Não era. Refugiado no lanço da escada entre os andares, esperou que o elevador passasse, e voltou para a porta de seu apartamento, sempre a segurar nas mãos nervosas o embrulho de pão:
Maria, por favor! Sou eu!
Desta vez não teve tempo de insistir: ouviu passos na escada, lentos, regulares, vindos lá de baixo... Tomado de pânico, olhou ao redor, fazendo uma pirueta, e assim despido, embrulho na mão, parecia executar um ballet grotesco e mal ensaiado. Os passos na escada se aproximavam, e ele sem onde se esconder. Correu para o elevador, apertou o botão. Foi o tempo de abrir a porta e entrar, e a empregada passava, vagarosa, encetando a subida de mais um lanço de escada. Ele respirou aliviado, enxugando o suor da testa com o embrulho do pão.
Mas eis que a porta interna do elevador se fecha e ele começa a descer.
Ah, isso é que não!  — fez o homem nu, sobressaltado.
E agora? Alguém lá embaixo abriria a porta do elevador e daria com ele ali, em pêlo, podia mesmo ser algum vizinho conhecido... Percebeu, desorientado, que estava sendo levado cada vez para mais longe de seu apartamento, começava a viver um verdadeiro pesadelo de Kafka, instaurava-se naquele momento o mais autêntico e desvairado Regime do Terror!
Isso é que não — repetiu, furioso.
Agarrou-se à porta do elevador e abriu-a com força entre os andares, obrigando-o a parar.  Respirou fundo, fechando os olhos, para ter a momentânea ilusão de que sonhava. Depois experimentou apertar o botão do seu andar. Lá embaixo continuavam a chamar o elevador.  Antes de mais nada: "Emergência: parar". Muito bem. E agora? Iria subir ou descer?  Com cautela desligou a parada de emergência, largou a porta, enquanto insistia em fazer o elevador subir. O elevador subiu.
Maria! Abre esta porta! — gritava, desta vez esmurrando a porta, já sem nenhuma cautela. Ouviu que outra porta se abria atrás de si.
Voltou-se, acuado, apoiando o traseiro no batente e tentando inutilmente cobrir-se com o embrulho de pão. Era a velha do apartamento vizinho:
Bom dia, minha senhora — disse ele, confuso.  — Imagine que eu...
A velha, estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um grito:
Valha-me Deus! O padeiro está nu!
E correu ao telefone para chamar a radiopatrulha:
Tem um homem pelado aqui na porta!
Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se passava:
É um tarado!
Olha, que horror!
Não olha não! Já pra dentro, minha filha!
Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para ver o que era. Ele entrou como um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois, restabelecida a calma lá fora, bateram na porta.
Deve ser a polícia — disse ele, ainda ofegante, indo abrir.
Não era: era o cobrador da televisão.

INTERPRETAÇÃO TEXTUAL
 
1) A história escrita por Fernando Sabino teve um fato que desencadeou toda a ação do conto. Que fato é esse?

2) O homem saiu do apartamento para pegar um embrulhinho. O que havia neste embrulho?

3) Por que ele saiu nu?

4) Por que o homem não conseguiu entrar em casa?

5) Enquanto esteve no corredor, o homem passou por diversos sustos. Enumere-os:

6) No final do conto, acontece outro fato importante. Qual é ele?

7) Preencha corretamente a cruzadinha abaixo, com os termos adequados às explicações a seguir. Recorra ao texto para realizar esta tarefa.
  1. ato ou caráter de vigarista; trapaça.
  2. cuidado para evitar um mal; precaução, cuidado.
  3. dar impulso; estimular.
  4. ridículo.
  5. dar início a, principiar, começar.
  6. assustada, apavorada.
  7. Arquejante, arfante, cansado, exausto.
    ATIVIDADES GRAMATICAIS

    1) Quantas orações existem no 1º e 2º parágrafos? 

    2) Classifique como nominal (N) ou verbal (V) as frases abaixo:
          a) Muito cedo. (   )                     d) Os passos na escada se aproximavam. (   )
          b) Não era. (   )                           e) Isso é que não. (   )
          c) Maria! (   )                               f) Maria, por favor! (   ) 

          3) Retire do texto
         a) 3 frases imperativas:
         b) 2 frases declarativas negativas: 
         c) 1 frase interrogativa:
         d) 4 frases exclamativas:
         e) 2 frases declarativas afirmativas:
  
         4) Identifique e classifique os sujeitos das frases abaixo:
  1. Agarrou-se a porta do elevador e abriu-a com força.
  1. A velha, estarrecida, atirou os braços para cima.
  1. Não gosto dessas coisas.
  1. Maria e o marido tentaram enganar o cobrador.
  1. Ainda era muito cedo.
  1. Marque V ou F.
(  ) Uma oração não precisa ter sentido completo.
(  ) Período e frase exigem sentido completo e a presença de no mínimo 1 oração.
(  ) Uma frase não precisa ter verbo, sendo esta classificada como nominal.
(  ) Um período é sempre uma frase.
(  ) Uma frase sempre é um período.
( ) Uma oração pode ser classificada em: verbal, não-verbal, declarativa, imperativa, interrogativa, optativa e exclamativa.

Um comentário:

Diovana Firmino Rodrigues disse...

Oi, gostaria de receber sugestões de textos: contos e crônicas narrativas.