quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A Moça Tecelã


A Moça Tecelã
                     
Marina Colasanti

         Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear. Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.
Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.
Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos  do algodão  mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.
Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.
Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.
Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranqüila.
Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou em como seria bom ter um marido ao lado.
Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponto dos sapatos, quando bateram à porta.
Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando em sua vida.
Aquela noite, deitada no ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.
E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque tinha descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.
— Uma casa melhor é necessária — disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.
Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente.
— Para que ter casa, se podemos ter palácio? — perguntou. Sem querer resposta imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata.
Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.
Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.
— É para que ninguém saiba do tapete — ele disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu: — Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!
Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.
E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha de novo.
Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.
Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins.  Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.
A noite acabava quando o marido estranhando a cama dura, acordou, e, espantado, olhou em volta.  Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.
Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.
COM BASE NO TEXTO, RESPONDA:

1)      Nos primeiros parágrafos, a autora constrói uma relação curiosa entre as cores que a tecelã usa e aspectos do dia e do clima. Cite no mínimo três e explique o por quê destas relações:

2)      De que forma a moça tecelã passava seus dias?

3)      O texto emprega uma linguagem conotativa, ou seja, os termos são empregados de forma figurada, não no seu sentido real. Para  compreender a mensagem que o texto pretende passar é preciso lê-lo com muita atenção. Explique, com suas palavras o que você entende a partir do trecho “ Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.”

4)      Por que a mulher “desteceu” o marido e a vida que criara com ele? O que, na sua opinião, a fez tomar esta decisão? O que lhe faltava?

5)      O que se pode compreender com a frase “e novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela”?

6)      Se você pudesse “tecer” sua vida, como ela seria?

ATIVIDADES GRAMATICAIS
 1)    RETIRE DO TEXTO:
a)     Dois trechos de discurso direto:

b)     4 trechos de discurso indireto:

                          
 2)    RESPONDA:
a)     Que tipo de narrador o texto apresenta?  Por quê?
b)     O que predomina no texto: a narração em 1ª pessoa ou a narração em 3ª pessoa?

3) MARQUE V OU F:
(   ) O texto é narrado no presente.
(   ) A narradora do texto é Marina Colassanti.
(   ) A moça tecelã é a autora do texto.
(   ) As falas do marido, no texto, são exemplos de discurso direto.
(   ) O texto é narrado por um narrador-observador, ou narrador-onisciente.

4)    PASSE O TRECHO A SEGUIR PARA O DISCURSO DIRETO:
a) O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando em sua vida.
________________________________________________________________________________

5)    INDIQUE OS DÍGRAFOS EXISTENTES NAS SEGUINTES PALAVRAS:
a) ambos: ______________       b) aquático: _____________
c) arremessar: ___________     d) desçamos: ____________
e) descida: ______________     f) discente: ______________
g) descoberto: ___________     h) escravo: ______________
i) guerrilha: _____________      j) prosseguir: ____________

6)    INDIQUE O NÚMERO DE LETRAS E FONEMAS DAS SEGUINTES PALAVRAS?
a) aguado: _________          
b) floresçam: ________________________
c) assessorasse: _________________         
d) homicida: _________________________
e) casca: _______________________          
f)  oblíquo: ___________________________
g) descoberto: ___________________        
h) também: __________________________        
i) escrivães: ____________________          
j) aquele: ____________________________
k) excluir: ______________________          
l) bochecha: ________________________

Um comentário:

loren.amaro disse...

ooi,estive vendo a atividade e tentei resolver mas algumas questoes tive duvidas,teria como postar as respostas?!