domingo, 22 de agosto de 2010

A VONTADE DO FALECIDO

Seu Irineu Boaventura não era tão bem-aventurado assim, pois sua saúde não era lá para que se diga. Pelo contrário, seu Irineu ultimamente já tava até curvando a espinha, tendo merecido, por parte de vizinhos mais irreverentes, o significativo apelido de “Pé- na-Cova”. Se digo significativo é porque seu Irineu Boaventura realmente já dava a impressão de que, muito brevemente, iria comer capim pela raiz, isto é, iam plantar ele e botar um jardinzinho por cima.
Se havia expectativa em torno do passamento do seu Irineu? Havia sim. O velho tinha os seus guardados. Não eram bens imóveis, pois seu Irineu conhecia de sobra Altamirando, seu sobrinho, e sabia que, se comprasse terreno, o nefando parente se instalaria nele sem a menor cerimônia. De mais a mais, o velho era antigão: não comprava o que não precisava e nem dava dinheiro por papel pintado. Dessa forma, não possuía bens imóveis nem ações […]. A erva dele era viva. Tudo guardado em pacotinhos, num cofrão verde que ele tinha no escritório.
Nessa erva é que a parentada botava olho grande […] principalmente depois que o velho começou a ficar com aquela cor de uma bonita tonalidade cadavérica. O sobrinho, embora mais mau-caráter do que o resto da família, foi o que teve a atitude mais leal, porque, numa tarde em que seu Irineu tossia muito, perguntou assim de supetão:
- Titio, se o senhor puser o bloco na rua, pra quem é que fica o seu dinheiro, hein?
O velho, engasgado de ódio, chegou a perder a tonalidade cadavérica e ficar levemente ruborizado, respondendo com voz rouca:
- Na hora em que eu morrer, você vai ver, seu cretino.
Alguns dias depois, deu-se o evento. Seu Irineu pisou no prego e esvaziou. Apanhou um resfriado, do resfriado passou à pneumonia, da pneumonia passou ao estado de coma e do estado de coma não passou mais. Levou pau e foi reprovado.[…]
- Bota titio na mesa da sala de visitas – aconselhou Altamirando; e começou o velório. Tudo que era parente com razoáveis esperanças de herança foi velar o morto. Mesmo parentes desesperançados compareceram ao ato fúnebre, porque estas coisas vocês sabem bem como são: velho rico, solteirão, rende sempre um dinheirão. Horas antes do enterro, abriram o cofrão verde onde havia sessenta milhões em cruzeiros, vinte em pacotinhos de “Tiradentes” e quarenta em pacotinhos de “Santos Dumont”:
- O velho tinha menos dinheiro do que eu pensava – disse alto o sobrinho.
E logo adiante acrescentava baixinho:
- Vai ver, gastava com mulher.
Se gastava ou não, nunca se soube. Tomou-se – isto sim – conhecimento de uma carta que estava cuidadosamente colocada dentro do cofre, sobre o dinheiro. E na carta o velho dizia: “Quero ser enterrado junto com a quantia existente nesse cofre, que é tudo o que eu possuo e que foi ganho com o suor do meu rosto, sem a ajuda de parente vagabundo nenhum.” E, por baixo, a assinatura com firma reconhecida para não haver dúvida: Irineu de Carvalho Pinto Boaventura.
Pra quê! Nunca se chorou tanto num velório sem se ligar pro morto. A parentada chorava às pampas, mas não apareceu ninguém com peito para desrespeitar a vontade do falecido. Estava todo o mundo vigiando todo o mundo, e lá foram aquelas notas novinhas arrumadas ao lado do corpo, dentro do caixão.
Foi quase na hora do corpo sair. Desde o momento em que se tomou conhecimento do que a carta dizia, que Altamirando imaginava um jeito de passar o morto pra trás. Era muita sopa deixar aquele dinheiro ali pro velho gastar com minhoca. Pensou, pensou e, na hora que iam fechar o caixão, ele deu um grito de “pera aí”. Tirou os sessenta milhões de dentro do caixão, fez um cheque da mesma importância, jogou lá dentro e disse “fecha”.
- Se ele precisar, mais tarde desconta o cheque no Banco.

(Stanislaw Ponte Preta. Dois amigos e um chato. São Paulo, Moderna, 1986)

VOCABULÁRIO
1) EM RELAÇÃO ÀS AFIRMATIVAS ABAIXO, ASSINALE A ALTERNATIVA CORRETA:
I -  “...tendo merecido, por parte de vizinhos mais irreverentes, o significativo apelido de “Pé- na-Cova” –  a palavra “irreverentes” pode ser substituída por “desrespeitosos” sem alterar o sentido da frase.
II -  “...o nefando parente se instalaria nele sem a menor cerimônia” – a palavra “nefando” pode ser substituída pela palavra “inominável” sem alterar o sentido da frase.
III -  “...bonita tonalidade cadavérica...” – a expressão “tonalidade cadavérica” significa, no texto, “cor de morto”.
IV -  “... perder a tonalidade cadavérica e ficar levemente ruborizado...” – o adjetivo “ruborizado” pode ser substituído pelo adjetivo “enfurecido” sem alterar o sentido da frase.
V – “Mesmo parentes desesperançados compareceram ao ato fúnebre...” -  o adjetivo “funébre” pode ser substituído por “triste” sem alterar o sentido da frase.
a) As alternativas I, II, III e IV estão corretas           d) As alternativas II e IV estão incorretas.  
b) Todas as alternativas estão corretas.                 e) Nenhuma alternativa está correta.
c) Somente a alternativa IV é incorreta.

2. INDIQUE A EXPRESSÃO FORMAL QUE SUBSTITUI ADEQUADAMENTE A INFORMAL DESTACADA NOS SEGUINTES TRECHOS:

a) “[…] seu Irineu conhecia de sobra Altamirando[…]”
(    ) de vista          (    ) pouco            (    ) muito bem

b) “Titio, se o senhor puser o bloco na rua, pra quem é que fica o seu dinheiro, hem?”
(    ) ficar irritado    (    ) falecer           (    ) bater as botas

c) “[…] não apareceu ninguém com peito para desrespeitar a vontade do falecido.”
(    ) desonesto      (    ) com medo     (    ) com coragem

d) “A parentada chorava às pampas […]”
(    ) muito            (    ) feito louca      (    ) fingidamente

e) “[…] Altamirando imaginava um jeito de passar o morto pra trás.”
(    ) temer o morto     (    ) enganar o morto         (    ) desrespeitar o morto

INTERPRETAÇÃO TEXTUAL
1) EM RELAÇÃO ÀS AFIRMATIVAS ABAIXO, ASSINALE A ALTERNATIVA CORRETA:
I -  Seu Irineu foi apelidado de Pé-na-Cova, pois tinha problemas de saúde e provavelmente não duraria mais muito tempo.
II – Seu Irineu não deixaria bens, depois de sua morte, pois não sabia economizar.
III -  Altamirando, o sobrinho de seu Irineu, era o único que se importava com sua saúde.
IV – “...comer capim pela raiz”; “...pisou no prego e esvaziou”; “Levou pau e foi reprovado” – são expressões populares que se referem à morte.
V -  Os parentes de seu Irineu choraram muito no velório pois ficaram tristes com sua morte.
a) As alternativas I, II e IV são corretas.               d) Nenhuma alternativa é correta. 
b) Somente a alternativa V é incorreta                 e) Todas as alternativas estão corretas.
c) As alternativas I e IV são corretas.

2) Por que o texto chama-se “A vontade do falecido”?

________________________________________________________________________________

3) Afinal, Altamirando conseguiu ou não “passar o morto pra trás”? Justifique sua resposta:
__________________________________________________________________________________


ATIVIDADES GRAMATICAIS
1) Destaque o sujeito do verbo “tinha” (2º parágrafo do texto). Em seguida, classifique-o e indique o núcleo:
Sujeito: _________________ Tipo de Sujeito: ____________________ Núcleo: ______________________

2) O sujeito desta oração “Se digo significativo...” é ____________________________.

3) Assinale a alternativa incorreta.
a) “...mais tarde desconta o cheque no Banco.” – O sujeito é indeterminado “ele”
b) “Mesmo parentes desesperançados compareceram ao ato fúnebre.” – O sujeito é composto.
c) “Havia sim” – é uma oração sem sujeito
d) “Quero ser enterrado junto com a quantia existente nesse cofre...” – O sujeito é oculto “eu”
e) “A parentada chorava às pampas...” – O sujeito da oração é simples – A parentada – e o núcleo é “parentada”.

4) Retire, do texto, uma frase nominal. ____________________________________________

5) O último período do texto é simples ou composto? Por quê? _________________________________

6) Nas orações a seguir, sublinhe o sujeito e circule o predicado.

a) “...não possuía bens imóveis nem ações...”

b) “O velho tinha os seus guardados.”

c) “...havia sessenta milhões em cruzeiros...”

d) “...mas não apareceu ninguém...”

Um comentário:

José Guimarães disse...

Conto muito divertido.

Leio-o sempre e me divirto com ele.

Apesar de ser também um tanto triste, dada a situação solitária de Seu Irineu.

Recomendo!