quinta-feira, 1 de abril de 2010

ARTIGO INTERESSANTE

A ambiguidade das palavras
Jogar com a imprecisão vocabular pode virar estratégia para controlar a interpretação de um raciocínio

José Luiz Fiorin

A ambiguidade e a vagueza são inerentes à linguagem natural. De um lado, os termos são polissêmicos, ou seja, têm mais de um significado; de outro, o sentido constitui-se na contradição, na polêmica com outros discursos e, por isso, as formações discursivas revelam interpretações e apreciações conflitantes.

A maior parte dos termos da língua não é unívoca. Ao contrário, as palavras possuem vários significados. É essa propriedade da linguagem que permite os jogos de palavras. Conta-se que Emílio de Menezes, quando soube que uma mulher muito gorda se sentara no banco de um ônibus e este quebrara, fez o seguinte trocadilho: 
"É a primeira vez que vejo um banco quebrar por excesso de fundos."

"Banco" é usado em dois sentidos: "móvel comprido para sentar-se" e "casa bancária". Também tem dois sentidos o termo "fundos": "nádegas" e "capital, dinheiro".
Por outro lado, não temos acesso direto à realidade, ele sempre vem mediado pela linguagem, que não é neutra. As relações interdiscursivas, que são contraditórias, determinam um ponto de vista na interpretação dos fatos e acontecimentos. Estamos em lugares discursivos diferentes se, ao discutir a os acontecimentos bélicos na faixa de Gaza, dissermos que um soldado israelense foi apanhado, sequestrado ou capturado pelos militantes do Hamas; que os que pertencem a este movimento são terroristas, militantes ou soldados; que a entrada do exército de Israel em Gaza é uma invasão ou uma resposta a um ataque. A mesma coisa acontece, se, ao discutir o problema da moradia, dissermos que os sem-teto invadiram ou ocuparam um prédio vazio.

Um artigo de Ethan Broner mostra claramente como cada espaço discursivo evidencia certos sentidos para os mesmos termos e apaga outros ou denomina diferentemente os "mesmos acontecimentos":
"Faisal Husseini, líder palestino que morreu em 2001, costumava contar uma história sobre sua primeira visita a Israel. A guerra de 1967 tinha terminado havia pouco tempo, as fronteiras foram subitamente abertas e ele decidiu dirigir-se até Tel-Aviv, sendo em algum momento detido por um policial israelense. Seguiram-se perguntas e respostas. Em determinado momento, o policial disse: "Devo informá-lo, como sionista orgulhoso, de que..." Nesse ponto, Husseini caiu na gargalhada. "O que há de tão engraçado?", perguntou o policial. "Nunca ouvi alguém referir-se ao sionismo sem demonstrar desprezo. Não fazia ideia de que poderia haver algo como um sionista orgulhoso", respondeu Husseini. (...)
Entre os israelenses, "sionismo" está envolto numa espécie de brilho celestial, sugerindo sacrifício e nobreza. Mas no restante do Oriente Médio, "sionismo" representa roubo, opressão, racismo. O muro que cruza a Cisjordânia é uma "muralha" para os palestinos e uma "cerca" para Israel. O conflito de 1948, que criou Israel, é a "Guerra da Independência" para uns, a "Catástrofe" para outros. (...)
Além disso, (...) duas narrativas de guerra fazem parte de uma história mais ampla. Um lado diz que, após milhares de anos de opressão, a nação judaica retornou a seu território de direito. Ela veio em paz e ofereceu aos vizinhos um aperto de mão, tendo como resposta a espada. (...)
Sem neutralidade
O outro lado conta uma história diferente: não existe nação judaica, apenas um conjunto de seguidores de uma religião. Um grupo de colonialistas europeus chegou aqui, roubou e pilhou, expulsando centenas de milhares de suas casas e destruindo suas vilas e lares" (O Estado de S. Paulo, 11/1/2009, A12).

A interdiscursividade, o dialogismo funda o que Maingueneau vai chamar uma interincompreensão generalizada, dado que cada discurso considera o sistema semântico do Outro em termos de categorias negativas do seu próprio discurso. Ler as categorias do Outro como categorias negativas do Um não pode ser atribuído à má-fé, mas ao modo de constituição das formações discursivas (1984, p. 109-133). O modo conflitual de constituição do discurso implica a tradução do outro como negatividade, silenciando, assim, sua positividade. Há um texto de Castelo Branco em que esse desentendimento recíproco fica evidenciado.
"Nessa estranha linguagem, aqueles que desejam o desenvolvimento econômico, na moldura de uma sociedade democrática, pregando a cooperação entre as classes e não a luta de classes, e aberto à cooperação internacional para evitar a repressão do consumidor, são chamados "reacionários" e "entreguistas"; os que almejam implantar o totalitarismo de esquerda, muito menos benéfico à grande massa trabalhadora do que à oligarquia burocrática do partido, se intitulam "forças populares de vanguarda", quando não pretendem, com trágica ironia, ser paladinos da "democracia popular". Alguns empresários que exploram o nacionalismo para proteger a sua ineficiência e preservar posições de monopólio, não hesitando para isso em apoiar e financiar a esquerda subversiva, passam a ser membros da "burguesia nacional progressista"; enquanto que outros, preocupados em absorver recursos e tecnologia externa, para reforçar nossa poupança e acelerar o desenvolvimento econômico, são acusados de "alienados" e "antinacionais". A agressão e a infiltração para acorrentar os indivíduos e nações ao serviço da causa comunista passam a ser descritas como "guerras de libertação nacional"; enquanto os países que preferem resistir a essa subjugação, para decidirem o seu próprio destino, estão arrolados como "vassalos do imperialismo ocidental". E que dizer da suprema deturpação semântica, segundo a qual os que desejam subordinar o nosso sistema de vida e escravizar nossas instituições a ideologias estranhas, passam a ser proprietários e árbitros do "nacionalismo"? (...)
Pois, meus caros amigos, não basta combater a subversão institucional e a corrupção moral: é necessário, também, combater a corrupção semântica, que distorce a realidade dos fatos e procura nos impedir a visão objetiva e racional de nossos deveres e de nossa responsabilidade" (Castelo Branco, s.d., p. 110-111).
José Luiz Fiorin é professor de Linguística da USP e autor do livro Em Busca do Sentido: Estudos Discursivos (Contexto)

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