quinta-feira, 21 de maio de 2015

CARTA ABERTA AO MEDO DE AMAR (Everton Behenck) e MONTE CASTELO (RenatoRusso) - INTERTEXTUALIDADE

Texto 1
CARTA ABERTA AO MEDO DE AMAR
Everton Behenck


Sempre há a chance de que tudo seja um erro. Mas o erro faz parte da matéria de que é feita a vida, e é neles que mais aprendemos. Tudo pode ser uma loucura mesmo. O coração tem olhos frágeis. E inventa o horizonte para onde os aponta. Às vezes se engana. É cego e analfabeto. E as vezes nem era o coração que estava soprando coisas no ouvido. Nos sentidos.

Acontece eu sei. Já vi.

Do amor, seus filhos e parentes eu sei tudo o que é possível. E isso é entender que pouco sabemos. O amor é um mistério tão grande quanto o universo. Mas o amor é meu ofício desde que me entendo homem. O amor é meu lugar no mundo. Já fui amado mais do que qualquer um nessa terra. Com devoção honesta. Com dor e sacrifício. Com loucura e vício. Com prazer de perder o céu e o chão. De encontrar deus. Marquei a ferro muitas vidas. E fui marcado na mesma medida. Com dor e trauma e destruição. Com felicidade de despertar a inveja do paraíso.

O amor é tudo isso. E multiplica seu sentido assim que o descobrimos. Já amei mais do que poderia supor qualquer possibilidade, sanidade ou autopreservação.

Eu não me preservo. Eu já morri de amor. Eu sou louco e queimo até que não sobre nada além das cinzas. E dessas cinzas eu tiro força e energia o bastante para sair do que sobrou da fogueira com um diamante no peito. Eu não tenho medo. E teria todos os motivos para tê-lo. Ainda caminho sobre a terra arrasada. Mas tenho certeza que serei sempre mais forte quando deixá-la. Eu já perdi tudo. Fiquei sem nada no mundo. Sem nenhum pertence.

Por amor.

Se alguém tem motivos para correr na direção contrária, sou eu. Mas eu não corro. Por amor eu faço tudo. Poderia ser o primeiro a ficar torcendo por uma chance de voltar atrás. De correr para um lugar seguro. De voltar para a zona de conforto.

Mas onde é a zona de conforto quando se está amando?

O amor só é conforto depois que ele próprio olha para você e percebe o quanto está entregue e vulnerável. O quanto é incapaz de se defender. O quanto não quer se proteger enquanto atravessa as dúvidas e a angústia. Para descobrir o que há do outro lado. O amor é sempre um lugar onde a gente nunca esteve. O amor inventa dentes assustadores e sorri com eles. Só para ver se temos coragem de entrar em sua boca. E só então beber seu beijo.

O amor não é para os fracos. O amor não é  para quem morre de medo.  Para quem precisa estar no comando. O amor é a própria ordem. Por isso até os planos são supérfluos nesse momento. O amor muda o sentido da bússola. O amor se apossa da casa. Troca a fechadura.

Eu entendo quem foge. Eu entendo que o amor fique mais raro e assustador na medida em que avançamos nesse século de apaixonados pelo espelho. Entendo que menos pessoas o reconheçam. Ou que simplesmente não se importem. E que não achem valer a pena assumir os riscos. Pagar o preço. Provavelmente não vale. Eu entendo quem se preserva. Quem se protege. Quem escolhe o lugar seguro.

Eu entendo. E quem sou eu para dizer que estão errados? Não sou exemplo se não de que amor não mata. Na maior parte das vezes. Só tenho a meu favor o que dizem meus olhos.

Mas quem se arriscaria para vê-los de perto?

Eu entendo quem vira as costas. Quem dá de ombros.

O amor é o quarto e é a rua. Ao mesmo tempo. E é claro que tudo fica mais fácil sem o amor. O amor é um saco e só atrapalha o que estava certo e calmo. O amor é um cão dos diabos, já dizia o velho poeta bêbado com um pássaro azul no peito. O amor pode não dar certo. Mas só ele pode nos dar tudo.

1) Dentre as idéias abaixo, assinale a que não é defendida pelo autor do texto.
a) De acordo com o autor, por mais que saibamos tudo sobre o amor, esse tudo é pouco, diante da imensidão desse sentimento.
b) O amor é capaz de causar , tanto dor e sofrimento extremos quanto a extrema felicidade.
c) É natural temer o amor, pois por causa dele, podemos perder tudo.
d) Segundo o autor, estamos vivenciado um tempo onde a  individualidade e o amor próprio perderam espaço para o amor pelo outro.
e) Só o amor pode nos dar tudo.

2) Observe a frase: “Sempre há a chance de que tudo seja um erro.” (1º parágrafo). Ao que o autor se refere?

3) Explique a frase: “O coração tem olhos frágeis. E inventa o horizonte para onde os aponta.” (1º parágrafo).

4) Com o que o autor compara o amor, no 3º parágrafo do texto? E no último?

5) Na frase: “ Do amor, seus filhos e parentes, eu sei tudo o que é possível.”(3º parágrafo). A que sentimentos você acredita que o autor está se referindo?

6) “O amor é tudo isso.”(4º parágrafo). Isso o quê?

7) Releia a frase: “Marquei a ferro muitas vidas. E fui marcado na mesma medida.” Esta expressão é conotativa ou denotativa? Qual o sentido que ela adquire no texto?

8) Quando o amor é conforto, segundo o texto?

9) “E é claro que tudo fica mais fácil sem o amor.” (15º parágrafo). Você concorda com essa afirmação? Justifique:

10) Que termo o autor utiliza para dizer que os planos, quando amamos, são desnecessários, inúteis?

11) A personificação ou prosopopeia  é uma figura de estilo que consiste em atribuir a objetos inanimados ou seres irracionais sentimentos ou ações próprias dos seres humanos. O que, no texto, é personificado? Comprove com um trecho do texto.

Texto 2

Monte Castelo
Legião Urbana

Ainda que eu falasse

A língua dos homens

E falasse a língua dos anjos,

Sem amor eu nada seria.
É só o amor! 
É só o amor

Que conhece o que é verdade.

O amor é bom, não quer o mal,

Não sente inveja ou se envaidece.
O amor é o fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer.
Ainda que eu falasse

A língua dos homens

E falasse a língua dos anjos

Sem amor eu nada seria.
É um não querer mais que bem querer;

É solitário andar por entre a gente;

É um não contentar-se de contente;

É cuidar que se ganha em se perder.
É um estar-se preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;

É um ter com quem nos mata a lealdade.
Tão contrário a si é o mesmo amor.
Estou acordado e todos dormem.

Todos dormem. Todos dormem.

Agora vejo em parte,

Mas então veremos face a face.
É só o amor! É só o amor

Que conhece o que é verdade.
Ainda que eu falasse

A língua dos homens
E
 falasse a língua dos anjos,

Sem amor eu nada seria.

Composição: Renato Russo (recortes do Apóstolo Paulo e de Camões).
  
1) Leia o conceito a seguir sobre intertextualidade e responda às questões: 
A Linguística Textual, disciplina que aborda os estudos sobre o texto, tem se dedicado bastante à análise de um de seus grandes temas: a intertextualidade. A intertextualidade ocorre quando um texto está inserido em outro texto, podendo acontecer de maneira implícita (sem citação expressa da fonte) ou explícita (quando há citação da fonte do intertexto). Muitos compositores e escritores brasileiros utilizaram-se desse recurso, elaborando um texto novo a partir de um texto já existente, os chamados textos fontes, considerados fundamentais em uma determinada cultura por fazerem parte da memória coletiva de uma sociedade.
Renato Russo incorporou a essa música versos de Camões* (cujo poema fala do amor entre amantes), modificando o sentido de amor (na música, seria entre os seres humanos em geral), e trechos da Bíblia (1ª Epístola de São Paulo aos Coríntios*), só que no caso desta última, trocou a palavra “caridade” da Bíblia por “amor”.Ele se refere à falta de amor entre os homens, numa espécie de crítica às guerras, à falta de amor entre a humanidade em si, como ocorreu no caso da Batalha de Monte Castelo, na Itália, a qual os soldados brasileiros invadiram e tomaram no final da 2ª Guerra Mundial.

Fonte: 
http://www.portugues.com.br/redacao/intertextualidade/
https://literaturanomeiodomundo.wordpress.com/2011/10/03/luis-vaz-de-camoes/

a) A intertextualidade também está  presente entre a letra da música de Renato Russo “Monte Castelo”  e o texto de Everton Behenck “CARTA ABERTA AO MEDO DE AMAR”. Faça a relação entre os versos da música, e as frases do texto, explicando de que forma eles se relacionam.
(1) “Sem amor eu anda seria.”
(2) “O amor é fogo que arde sem se ver”
(3) “É ferida que dói e não se sente”
(4) “É servir a quem vence, o vencedor”
(5) “É um estar-se pro por vontade”
(6) “É solitário andar por entre a gente”
(7) “É um ter com quem nos mata a lealdade”

(    ) “Se alguém tem motivos para correr na direção contraia, sou eu. Mas eu não corro.”
(    ) “Mas o amor é meu ofício desde que me entendo por homem.”
(    ) “Eu entendo que o amor fique mais raro e assustador na medida em que avançamos nesse século de apaixonados pelo espelho.”
(    ) “Só tenho a meu favor o que dizem meus olhos. A s quem s arriscaria para vê-los de perto?”
(    ) “Marquei a ferro muitas vidas. E fui marcado  na mesma medida.
(    ) “Mas tenho certeza que seria  sempre mais forte quando deixá-la.”
(    ) “Eu não sou louco e queimo até que não sobre nada além das cinzas.”


* Para ler
Amor é fogo que arde sem se ver 
Luis Vaz de Camões 

Amor é fogo que arde sem se ver. 
É ferida que dói e não se sente. 
É um contentamento descontente. 
É dor que desatina sem doer. 

É um não querer mais que bem querer. 
É solitário andar por entre a gente. 
É nunca contentar-se de contente. 
É cuidar que se ganha em se perder. 

É querer estar preso por vontade. 
É servir a quem vence, o vencedor. 
É ter com quem nos mata lealdade.   

Mas como causar pode seu favor 
Nos corações humanos amizade, 
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?          
Disponível em: 
http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/v301.txt   
  
I carta de São Paulo aos Coríntios  
“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse Amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse Amor, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse Amor, nada disso me aproveitaria. O Amor é paciente, é benigno; o Amor não é invejoso, não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal, não folga com a injustiça, mas folga com a verdade. Tudo tolera, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O Amor nunca falha. Havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos; mas quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o Amor.” 
Disponível em: 
http://pt.wikipedia.org/wiki/Primeira_Ep%C3%ADstola_aos_Cor%C3%ADntios  

quinta-feira, 7 de maio de 2015

TENTAÇÃO - Clarice Lispector


Tentação
Clarice Lispector

 

Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.

Na rua vazia as pedras vibravam de calor – a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.

Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.

Lá vinha ele trotando, à frente da sua dona, arrastando o seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.

A menina abriu os olhos pasmados. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.

Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo. Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos.

Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se, com urgência, com encabulamento, surpreendidos.

No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos – lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes do Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.

Mas ambos eram comprometidos.

Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.

A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina.

Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás.
 

1) Em que momento do dia é narrada a história? Comprove com um trecho do texto.  
2) Releia a frase: “Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária.” (2º parágrafo). Por que você acha que a menina se sentia assim? 3) Releia a frase: “Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher?” (2º parágrafo). A que marca a menina se referia?

4) Na frase: “Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento.”(2º parágrafo).

a) É correto afirmar que:
( ) O cão e a menina se olharam.
( ) A pessoa que esperava o bonde e a menina se olharam.
( ) A dona do cão e a menina se olharam.

b) Desalento quer dizer que estavam:
( ) Desanimadas.           ( ) Desatentas.           ( ) Contentes.
 

5) Como é descrita, fisicamente, a menina?


6) Por que a menina de identificou com o cão?
 
7) Na frase: “Suavemente avisado, o cão estacou diante dela.”(5º parágrafo).
a) É correto afirmar que o cão:
( ) parou em frente à menina. ( ) parou em frente a sua dona. ( ) parou atrás da menina.

 

8) Na frase: “Ele fremia suavemente, sem latir.”(6º parágrafo). O que o cão fazia?

9) Na frase: “Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo.” (6º parágrafo). O que a menina continuou a fazer?

 

10) Releia a frase: “Mas ambos eram comprometidos.” (9º parágrafo). Quem era comprometido com quem?
 
11) Transcreva, do texto, os adjetivos referentes aos substantivos abaixo:
a) Rua (2º parágrafo):_________________________
b) Olhar (2º parágrafo):________________________
c) Degrau (2º parágrafo): ______________________
d) Amor (2º parágrafo):_______________________
e) Basset (3º parágrafo):_______________________
f) Cachorro (4º parágrafo):_____________________
g) Soluço (6º parágrafo):________________________
h) Pêlos (6º parágrafo):________________________
i) Infância (10º parágrafo):_____________________
j) Olhos (10º parágrafo):_______________________


12) Relembrando: Frase nominal é aquela que não tem verbo; Frase verbal é a que tem. Transcreva, do 2º parágrafo, uma frase nominal.

 

13) Sublinhe os verbos presentes nas frases abaixo e indique a que conjugação pertencem:
a) “Ela estava com soluço.” (1º parágrafo).
b) “Ela nem sequer tremeu.” (6º parágrafo). c) “Pediam-se com urgência, com encabulamento, surpreendidos..” (7º parágrafo).
 

14) Que verbos podemos derivar de:
a) Soluço:
b) Amor:
c) Olhos:
d) Solução:

 
15) Os verbos que você derivou, na questão anterior, pertencem a que conjugação?
 

16) Sabendo que o narrador-observador apenas conta a história, e o narrador-personagem conta e participa dela, que tipo de narrador tem o texto “Tentação”?
 

17) Reescreva a frase abaixo, colocando o verbo no Futuro do Presente.
a) “Ambos se olhavam.”(5º parágrafo).

 
18) Reescreva a frase abaixo, colocando o verbo no Presente do Indicativo.
a) “A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão.” (3º parágrafo).

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Não seja professor - Vladimir Safatle


Não seja professor
Vladimir Safatle

Quem escreve este artigo é alguém que é professor universitário há quase 20 anos e que gostaria de estar neste momento escrevendo o contrário do que se vê obrigado agora a dizer. Pois, diante das circunstâncias, gostaria de aproveitar o espaço para escrever diretamente a meus alunos e pedir a eles que não sejam professores, não cometam esse equívoco. Esta “pátria educadora” não merece ter professores.

Um professor, principalmente aquele que se dedicou ao ensino fundamental e médio, será cotidianamente desprezado. Seu salário será, em média, 51% do salário médio daqueles que terão a mesma formação. Em um estudo publicado há meses pela OCDE, o salário do professor brasileiro aparece em penúltimo lugar em uma lista de 35 países, atrás da Turquia, do Chile e do México, entre tantos outros.

Mesmo assim, você ouvirá que ser professor é uma vocação, que seu salário não é assim tão ruim e outras amenidades do gênero. Suas salas de aula terão, em média, 32 alunos, enquanto no Chile são 27 e Portugal, 8. Sua escola provavelmente não terá biblioteca, como é o caso de 72% das escolas públicas brasileiras.

Se você tiver a péssima ideia de se manifestar contra o descalabro e a precarização, caso você more no Paraná, o governo o tratará à base de bomba de gás lacrimogêneo, cachorro e bala de borracha. Em outros Estados, a pura e simples indiferença. Imagens correrão o mundo, a Anistia Internacional irá emitir notas condenando, mas as principais revistas semanárias do país não darão nada a respeito nem do fato nem de sua situação. Para elas e para a “opinião pública” que elas parecem representar, você não existe.

Mais importante para eles não é sua situação, base para os resultados medíocres da educação nacional, mas alguma diatribe canina contra o governo ou os emocionantes embates entre os presidentes da Câmara e do Senado a fim de saber quem espolia mais um Executivo nas cordas.

No entanto, depois de voltar para casa sangrando por ter levado uma bala de borracha da nossa simpática PM, você poderá ter o prazer de ligar a televisão e ouvir alguma celebridade deplorando o fato de o país “ter pouca educação” ou algum candidato a governador dizer que educação será sempre a prioridade das prioridades.

Diante de tamanho cinismo, você não terá nada a fazer a não ser alimentar uma incompreensão profunda por ter sido professor, em vez de ter aberto um restaurante. Por isso o melhor a fazer é recusar-se a ser professor de ensino médio e fundamental. Assim, acordaremos um dia em um país que não poderá mais mentir para si mesmo, pois as escolas estarão fechadas pela recusa de nossos jovens a serem humilhados como professores e a perpetuarem a farsa.”

1) Em relação ao texto, é correto afirmar:
I – O autor afirma que gostaria de estar escrevendo um texto incentivando os alunos a serem professores.
II – De acordo com o texto, os professores mais desprezados são os que trabalham na educação básica.
III – Por ser vocação, o autor do texto dá a entender que um professor não precisa ganhar muito mais do que ganha, atualmente.
IV – Professores que se manifestam contra a situação precária da educação, ou são agredidos ou são tratados com indiferença.
V – Segundo o autor, internacionalmente, a situação precária da educação é condenada através de notas emitidas pela Anistia Internacional. Já aqui no Brasil, o fato é basicamente ignorado pelas revistas semanais e pela opinião pública.

a) Todas as alternativas estão corretas.
b) Nenhuma alternativa está correta.
c) I e III estão incorretas.
d) I, II, IV e V estão incorretas.
e) I, II, IV e V estão corretas.

2) Para quem o autor direciona seu texto?

3) Segundo o autor, o que é mais importante para os representantes das revistas semanais e para a opinião pública?

4) Quando, segundo o autor, a situação da educação é retratada na mídia?

5) A que cinismo se refere o autor do texto?

6) Observe a frase: [...] pois as escolas estarão fechadas pela recusa de nossos jovens a serem humilhados como professores e a perpetuarem a farsa.” (7º parágrafo). Qual seria essa farsa?

7) Vladimir Safatle pede, em seu texto, que os alunos não cometam o erro de se formarem professores. Que palavra é utilizada, no contexto, para dizer isso?

8) Em relação à substituição vocabular, análise as afirmações abaixo e assinale a alternativa correta.

I – “Mais importante para eles não é sua situação, base para os resultados medíocres da educação nacional [...]” (5º parágrafo) – o termo destacado na frase significa que os resultados da educação no Brasil, não são satisfatórios.
II – “ [...] ou os emocionantes embates entre os presidentes da Câmara e do Senado a fim de saber quem espolia mais um Executivo nas cordas.” (5º parágrafo) – neste contexto, “embate” significa discordância e “espolia”, roubo.
III – “[...] você poderá ter o prazer de ligar a televisão e ouvir alguma celebridade deplorando o fato de o país “ter pouca educação”(7º parágrafo) – o termo destacado pode se substituído por “lastimando”, sem alterar o sentido da frase.

a) Todas estão corretas.
b) Nenhuma está correta.
c) Apenas a III está correta.
d) I e II estão incorretas.
e) II e III estão incorretas.

9) Observe a imagem e as tirinhas abaixo e crie um texto dissertativo-argumentativo a respeito do tema: