quarta-feira, 15 de julho de 2015

ENTRE A ESPADA E A ROSA - Marina Colasanti - Atividades para o 7º ano

ENTRE A ESPADA E A ROSA
Marina Colasanti


Qual é a hora de casar, senão aquela em que o coração diz "quero"? A hora que o pai escolhe. Isso descobriu a Princesa na tarde em que o Rei mandou chamá-la e, sem rodeios, lhe disse que, tendo decidido fazer aliança com o povo das fronteiras do Norte, prometera dá-la em casamento ao seu chefe. Se era velho e feio, que importância tinha frente aos soldados que traria para o reino, às ovelhas que poria nos pastos e às moedas que despejaria nos cofres? Estivesse pronta, pois breve o noivo viria buscá-la.

De volta ao quarto, a Princesa chorou mais lágrimas do que acreditava ter para chorar. Embotada na cama, aos soluços, implorou ao seu corpo, a sua mente, que lhe fizesse achar uma solução para escapar da decisão do pai. Afinal, esgotada, adormeceu.

E na noite sua mente ordenou, e no escuro seu corpo ficou. E ao acordar de manhã, os olhos ainda ardendo de tanto chorar, a Princesa percebeu que algo estranho se passava. Com quanto medo correu ao espelho! Com quanto espanto viu cachos ruivos rodeando-lhe o queixo! Não podia acreditar, mas era verdade. Em seu rosto, uma barba havia crescido.

Passou os dedos lentamente entre os fios sedosos. E já estendia a mão procurando a tesoura, quando afinal compreendeu. Aquela era a sua resposta. Podia vir o noivo buscá-la. Podia vir com seus soldados, suas ovelhas e suas moedas. Mas, quando a visse, não mais a quereria. Nem ele nem qualquer outro escolhido pelo Rei.

Salva a filha, perdia-se porém a aliança do pai. Que tomado de horror e fúria diante da jovem barbada, e alegando a vergonha que cairia sobre seu reino diante de tal estranheza, ordenou-lhe abandonar o palácio imediatamente.

A Princesa fez uma trouxa pequena com suas jóias, escolheu um vestido de veludo cor de sangue. E, sem despedidas, atravessou a ponte levadiça, passando para o outro lado do fosso. Atrás ficava tudo o que havia sido seu, adiante estava aquilo que não conhecia.

Na primeira aldeia aonde chegou, depois de muito caminhar, ofereceu-se de casa em casa para fazer serviços de mulher. Porém ninguém quis aceitá-la porque, com aquela barba, parecia-lhes evidente que fosse homem.

Na segunda aldeia, esperando ter mais sorte, ofereceu-se para fazer serviços de homem. E novamente ninguém quis aceitá-la porque, com aquele corpo, tinham certeza de que era mulher.

Cansada mas ainda esperançosa, ao ver de longe as casas da terceira aldeia, a Princesa pediu uma faca emprestada a um pastor, e raspou a barba. Porém, antes mesmo de chegar, a barba havia crescido outra vez, mais cacheada, brilhante e rubra do que antes.

Então, sem mais nada pedir, a Princesa vendeu suas jóias para um armeiro, em troca de uma couraça, uma espada e um elmo. E, tirando do dedo o anel que havia sido de sua mãe, vendeu-o para um mercador, em troca de um cavalo.

Agora, debaixo da couraça, ninguém veria seu corpo, debaixo do elmo, ninguém veria sua barba. Montada a cavalo, espada em punho, não seria mais homem, nem mulher. Seria guerreiro.

E guerreiro valente tornou-se, à medida que servia aos Senhores dos castelos e aprendia a manejar as armas. Em breve, não havia quem a superasse nos torneios, nem a vencesse nas batalhas. A fama da sua coragem espalhava-se por toda parte e a precedia. Já ninguém recusava seus serviços. A couraça falava mais que o nome.

Pouco se demorava em cada lugar. Lutava cumprindo seu trato e seu dever, batia-se com lealdade pelo Senhor. Porém suas vitórias atraíam os olhares da corte, e cedo os murmúrios começavam a percorrer os corredores. Quem era aquele cavaleiro, ousado e gentil, que nunca tirava os trajes de batalha? Por que não participava das festas, nem cantava para as damas? Quando as perguntas se faziam em voz alta, ela sabia que era chegada a hora de partir. E ao amanhecer montava seu cavalo, deixava o castelo, sem romper o mistério com que havia chegado.

Somente sozinha, cavalgando no campo, ousava levantar a viseira para que o vento lhe refrescasse o rosto acariciando os cachos rubros. Mas tornava a baixá-la, tão logo via tremular na distância as bandeiras de algum torreão.

Assim, de castelo em castelo, havia chegado àquele governado por um jovem Rei. E fazia algum tempo que ali estava.

Desde o dia em que a vira, parada diante do grande portão, cabeça erguida, oferecendo sua espada, ele havia demonstrado preferi-la aos outros guerreiros. Era a seu lado que a queria nas batalhas, era ela que chamava para os exercícios na sala de armas, era ela sua companhia preferida, seu melhor conselheiro. Com o tempo, mais de uma vez, um havia salvo a vida do outro. E parecia natural, como o fluir dos dias, que suas vidas transcorressem juntas.

Companheiro nas lutas e nas caçadas, inquietava-se porém o Rei vendo que seu amigo mais fiel jamais tirava o elmo. E mais ainda inquietava-se, ao sentir crescer dentro de si um sentimento novo, diferente de todos, devoção mais funda por aquele amigo do que um homem sente por um homem. Pois não podia saber que à noite, trancado o quarto, a princesa encostava seu escudo na parede, vestia o vestido de veludo vermelho, soltava os cabelos, e diante do seu reflexo no metal polido, suspirava longamente pensando nele.

Muitos dias se passaram em que, tentando fugir do que sentia, o Rei evitava vê-la. E outros tantos em que, percebendo que isso não a afastava da sua lembrança, mandava chamá-la, para arrepender-se em seguida e pedia-lhe que se fosse.

Por fim, como nada disso acalmasse seu tormento, ordenou que viesse ter com ele. E, em voz áspera, lhe disse que há muito tempo tolerava ter a seu lado um cavaleiro de rosto sempre encoberto. Mas que não podia mais confiar em alguém que se escondia atrás do ferro. Tirasse o elmo, mostrasse o rosto. Ou teria cinco dias para deixar o castelo.

Sem resposta, ou gesto, a Princesa deixou o salão, refugiando-se no seu quarto. Nunca o Rei poderia amá-la, com sua barba ruiva. Nem mais a quereria como guerreiro, com seu corpo de mulher. Chorou todas as lágrimas que ainda tinha para chorar. Dobrada sobre si mesma, aos soluços, implorou ao seu corpo que lhe desse uma solução. Afinal, esgotada, adormeceu.

E na noite seu mente ordenou, e no escuro seu corpo brotou. E ao acordar de manhã, com os olhos inchados de tanto chorar, a Princesa percebeu que algo estranho se passava. Não ousou levar as mãos ao rosto. Com medo, quanto medo! Aproximou-se do escudo polido, procurou seu reflexo. E com espanto, quanto espanto! Viu que, sim, a barba havia desaparecido. Mas em seu lugar, rubras como os cachos, rosas lhe rodeavam o queixo.

Naquele dia não ousou sair do quarto, para não ser denunciada pelo perfume, tão intenso, que ela própria sentia-se embriagar de primavera. E perguntava-se de que adiantava ter trocado a barba por flores, quando, olhando no escudo com atenção, pareceu-lhe que algumas rosas perdiam o viço vermelho, fazendo-se mais escuras que o vinho. De fato, ao amanhecer, havia pétalas no seu travesseiro.

Uma após a outra, as rosas murcharam, despetalando-se lentamente. Sem que nenhum botão viesse substituir as flores que se iam. Aos poucos, a rósea pele aparecia. Até que não houve mais flor alguma. Só um delicado rosto de mulher.

Era chegado o quinto dia. A Princesa soltou os cabelos, trajou seu vestido cor de sangue. E, arrastando a cauda de veludo, desceu as escadarias que a levariam até o Rei, enquanto um perfume de rosas se espalhava no castelo.

1) Qual é a hora de casar, segundo o texto?

2) Em troca de que o Rei daria a princesa em casamento?

3) Observe a frase: “E na noite sua mente ordenou, e no escuro seu corpo ficou.” (3º parágrafo). O que a mente da princesa ordenou? Qual foi a consequência disso?

4) Qual foi a reação do rei? Por que ele agiu dessa forma?

5) O que a princesa levou consigo, ao deixar o castelo?

6) Quais foram os serviços que a Princesa procurou e por que ela foi rejeitada?

7) Por que ela vendeu suas jóias? De que forma ela passou a viver depois disso?

8) Quanto tempo a princesa ficava em cada reino? E quando ela sabia que era a hora de partir? Por quê?

9) Certo dia a princesa chegou ao reino de um jovem Rei. Como ele a tratava?

10) Observe a frase: “Muitos dias se passaram em que, tentando fugir do que sentia, o Rei evitava vê-la.”(18º parágrafo). Do que o rei fugia? E por quê?

11) Depois disso, o que o jovem Rei ordenou?

12) Observe: “E na noite sua mente ordenou, e no escuro seu corpo brotou”(20º parágrafo). O que a mente da princesa ordenou dessa vez? A solução foi a mesma da primeira vez? Justifique:

13) Releia a frase: “Salva a filha, perdia-se porém a aliança do pai.”(5º parágrafo). Pesquise o significado da palavra destacada e responda com qual sentido ela foi empregada no texto.

14) Observe a frase: “Por fim, como nada disso acalmasse seu tormento, ordenou que viesse ter com ele.” (19º parágrafo). 
a) Ao que se refere, no texto, o pronome “(d)isso” destacado?
b) Pesquise o significado da palavra “tormento” e responda: o que nada conseguia acalmar?
c) Explique a expressão: “viesse ter com ele”.

15) Há, no texto, diversas passagens que se referem a cor vermelha. A cor vermelha está presente em que? Por que você acha que foi escolhida essa cor?

16) De que forma o narrador refere-se ao “espelho”?

17) Há, no texto, uma palavra sinônima de “cochichos”. Que palavra é essa?

18) Quais os adjetivos que caracterizam o substantivo “cavaleiro”, no 13º parágrafo?




terça-feira, 14 de julho de 2015

ADMIRÁVEL MUNDO LOUCO - Ruth Rocha - Atividades para o 6º ano

ADMIRÁVEL MUNDO LOUCO
Ruth Rocha

Este manuscrito foi encontrado entre os pertences do professor Sintomático de Aquino, que como se sabe, era ufólogo convicto e militante, tendo deixado, por ocasião de sua morte, mais de trezentos documentos, nos quais procurava provar a existência de vida inteligente fora do planeta Terra.
(A existência de vida inteligente no planeta Terra é um outro problema, de que se ocupam outros ilustres especialistas).

Não sabemos se este manuscrito é autêntico.
Parece que foi encontrado não se sabe onde, traduzido não se sabe por quem, e será lido ou não, por não se sabe o tipo de pessoa.
Em todo caso o que sabemos é que procuramos tornar o texto legível, já que achamos que conviria muito bem para completar um livro que vínhamos compondo há tempos e para o qual já não tínhamos mais assunto.

O autor deste manuscrito refere-se ás vezes aos habitantes do nosso planeta com alguma ironia.
Mas vocês vão notar que o relatório em questão não obedece a um rigor científico na sua exposição, de maneira que não devemos nos impressionar muito com ele.
Algumas palavras, como o leitor inteligente não poderá deixar de notar, não pertencem á nossa língua. Foram conservadas na forma original.
Mas não oferece nenhuma dificuldade á compreensão do texto.

Não sabemos por que mãos terá andado este manuscrito, nem que distorções terá ele sofrido.
É desta forma que o apresentamos ao distinto público...

Sou estudante de fláritis, na Universidade de Flutergues.
Por acaso, passeando no disco voador Firula 3 fui parar no conjunto estelar Fléquites.
Como estivesse sem combustível, tentei descer em algum planeta a fim de poder me reabastecer.
O 3° planeta deste sistema me pareceu jeitoso, pois nele há grandes massas de água.
Como todos sabemos, este planeta é habitado por seres estranhíssimos, uns diferentes dos outros.

Parece que uma das espécies domina as outras como acontecia no finado planeta Flórides. (Por quê?)
Vamos chamar estes espécimes de freguetes, que são a coisa mais parecida com os terráqueos de que eu me lembro.
Como é que eles são?
Vou tentar descrevê-los.
Em cima eles têm uma esfera, só que não é bem redonda.
De um lado da esfera tem uns fios muito finos, que são de muitas cores.
Do outro lado tem o que eu acho que é a cara deles.
Na cara, bem em cima, eles têm umas bolas que eles chamam de olhos. É por aí que sai, ás vezes uma agüinha. Mas só as vezes.
Um pouco mais em baixo tem uma coisa que salta pra fora, com dois buraquinhos bem em baixo.
Isso eles chamam de nariz.
Mais abaixo ainda tem uma buraco grande, cheio de grãos brancos e tem uma coisa vermelha que mexe muito.
Os freguetes estão sempre botando dentro deste buraco uma coisa que eles chamam de comida.
Essa tal de comida é que dá a eles energia, como a nossa fagula.
Tem uns que botam bastante comida dentro. Tem outros que só botam de vez em quando.
Esses buracos servem pra outras coisas, também.
É por aí que saem uns sons horrorosos que é a voz lá deles.
Embaixo da bola tem um tubo que une a bola ao corpo.
Do corpo saem quatro tubos: dois pra baixo e dois pros lados.
Os tubos de baixo, que se chamam pernas, chegam até o chão e servem para empurrar os freguetes de um lado pro outro.
A coisa funciona mais ou menos assim: um tubo fica ficando no chão, enquanto o outro se projeta para a frente e se finca no chão, por sua vez.
Quando o segundo tubo está ficando o primeiro se projeta para frente e assim por diante.
Eles chamam isso - andar.
Bem embaixo dos tubos, onde eles se fincam no chão, geralmente eles enfiam umas cápsulas duras, acho que pra proteger as pontas dos tubos.
Os tubos que saem pros lados se chamam braços; têm cinco tubinhos em cada ponta. E com essas pontas eles pegam nas coisas.
Vou tentar fazer uns esquemas de como eles são, para que todos entendam melhor.
Por mais absurdos que estes esquemas pareçam é assim mesmo que eles são. É inútil chamarem minha atenção para o fato de que eles não parecem obedecer a um padrão lógico de desenvolvimento.
Eu também acho que não.
Eles moram, quase todos, amontoados nuns lugares muito feios, que eles chamam de cidades.


Esses lugares cheiram muito mal por causa de uma s porcarias que eles fabricam e de umas nuvens escuras que saem de uns tubos muito grande que por sua vez saem de dentro de umas caixas que eles chamam de fabricas.
Parece que eles vivem dentro de outras caixas.
Algumas destas caixas são grandes, outras são pequenas. 
Nem sempre moram mais freguetes nas caixas maiores.
Ás vezes acontece o contrário: nas caixas grandes moram pouquinhos freguetes e nas caixas pequenininhas mora um monte deles. (Por quê?)
Nas cidades existem muitas caixas amontoadas umas nas outras.
Parece que dentro destes amontoados há um tubo, por onde corre um carrinho na direção vertical, chamado elevador, porque eleva as pessoas pra o alto dos amontoados.
Não ouvi dizer que eles tenham descedores, o que me leva a acreditar que eles pulem lá de cima até embaixo, de alguma maneira que eu não sei explicar.
Quando fica claro, eles saem das caixas deles e todos começam a ir pra outro lugar de onde vieram.
Não sei como é que eles encontram, o lugar de onde eles saíram, mas encontram; e entram outra vez nas caixas.
Assim que eu cheguei era um pouco difícil compreender o que eles diziam. Mas logo, logo, graças a meus estudos de flóbitos, consegui aprender uma porção das línguas que eles falam.
Ah, porque eles falam uma porção de línguas diferentes.
E como é que eles se entendem?
E quem foi que disse que eles se entendem?
Quer dizer, tem uns que entendem os outros, mas não é todo mundo, não.
Eles vivem brigando muito, os grandes brigam com os pequenos o tempo todo e então os bem pequenos começam a gritar e a gritar e é aí que sai água das bolas que eles têm na cara.
Algumas pessoas de um lugar brigam com as pessoas de outro lugar e eles chamam isso de guerra e então eles jogam uns nos outros umas coisas que destroem tudo que eles passam um tempão fazendo. E até destroem eles mesmos.
É muito difícil explicar esta tal de guerra porque eu também não entendi. Não sei direito pra que é que serve esta tal de guerra. Acho que é pra gastar as tais coisas que eles jogam uns nos outros e que eles fabricam em grandes quantidades e que fazem as cidades ficarem cada vez mais fedorentas.
Eles gostam muito de jogar coisas uns nos outros.
Tem até uma festa que eles chamam Carnaval e eles jogam pedacinhos de umas coisas coloridas uns nos outros, enquanto ficam gritando muito. 
Essas coisas coloridas sujam muito e então vem uns freguetes que recolhem toda aquela sujeira e jogam num lugar onde eles guardam uma porção de porcarias que ninguém quer.
E embora ninguém queira eles ficam o tempo todo fabricando essas porcarias.
Eu poderia ainda contar muitas coisas sobre este planeta. Mas como eu não entendi quase nada, acho que não adianta muito.
Recomendo, por isso uma nova visita ao planeta, ,mas com muito cuidado, por um grupo especializado em planetas de alto risco. (Por quê?)
Pois este planeta, que é chamado por seus freguetes de Terra ´-e incrivelmente semelhante ao planeta Flórides do sistema Flíbito, que se desintegrou, na era Flatônica, não se sabe por que, mas, que nessa ocasião desprendeu grandes nuvens de fumaça em forma de cogumelos...

1) Prólogo é um texto introdutório e explicativo de uma obra literária. No texto lido, o prólogo está destacado em itálico. Releia-o e assinale quais das opções abaixo são informadas por ele.
(   ) A existência de vida inteligente na Terra.
(   ) A autenticidade do manuscrito.
(   ) O manuscrito pertencia ao professor Sintomático de Aquino, um ufólogo convicto e militante.
(   ) O ufólogo traduziu o manuscrito.
(   ) O manuscrito era parte de um livro.
(   ) O manuscrito referia-se ao planeta Terra.
(   ) O manuscrito prova a existência de vida inteligente fora do Planeta Terra.

2) No prólogo, somos informados sobre a profissão do professor Sintomático de Aquino. O que ele fazia? Quais são as atribuições desse tipo de profissional?

3) Qual era o objetivo do professor?

4) É possível determinar, no texto, de que planeta estava  falando o estudante universitário de Fláritis? Transcreva do texto um trecho que comprove isso?

5) Na frase: Parece que uma das espécies domina as outras” (3º parágrafo). Reflita: qual é a espécie que domina e qual é a espécie dominada na Terra? Por que isso acontece?

6) De que forma o “extraterrestre” chama os humanos?

7) Como ele se refere:
a) À cabeça:
b) Aos olhos:
c) Ao nariz:
d) Às lágrimas:
e) À boca:
f) Aos dentes:
g) À língua:
8) Desenhe como seria o ser humano, a partir da descrição feita pelo “extraterrestre”, no texto.

9) Como é explicada a função de caminhar?

10) Como o extraterrestre denominou o sapato?

11) Onde moram os Freguetes? Como nós chamamos esses lugares?

12) Como o extraterrestre acredita que as pessoas descem dos “amontoados”? Por que ele concluiu isso?

13) No final do texto, o narrador afirma que a Terra é perigosa e semelhante ao planeta Flórides que se desintegrou. Como isso aconteceu e por que ele acredita que isso poderia acontecer na terra?

14) Que tipo de narrador tem o texto?

segunda-feira, 13 de julho de 2015

"Negrinha" (Monteiro Lobato) / "Nós não somos todos Maju" (FilipeRangel) / "Eu não sou Maju" (Mônica Raouf El Bayeh - 1º ano


Elemento motivador
Iniciar a aula com a música “Imagine” (Paulo Ricardo) – versão de “Imagine” (John Lennon)
http://www.youtube.com/watch?v=yqKtB5788tM

Após a música, sondar os alunos a respeito do que eles imaginam que será o tema abordado na aula.
Em seguida, mostrar o vídeo “Experimento revela que o Racismo é mais forte...”
http://www.youtube.com/watch?v=Sq4z2Vq2K1w

Após o vídeo, debater um pouco sobre as impressões dos alunos acerca do mesmo.

I - Leitura e descoberta - Conto

Entrega do conto “Negrinha” (Monteiro Lobato), com suas respectivas questões interpretativas e gramaticais e algumas informações sobre o autor do conto.

Monteiro Lobato
Monteiro Lobato, natural de Taubaté (SP), nasceu em 18/04/1882. É uma das figuras excepcionais das letras brasileiras. Jornalista, contista, criador de deliciosas histórias para crianças, suscitador de problemas, ensaísta e homem de ação, encheu com seu nome um largo período da vida nacional. Com a publicação do livro de contos "Urupês", em julho de 1918, quando já contava com 36 anos de idade, chama para o seu talento de escritor a atenção de todo o país. Cita-o Ruy Barbosa, em discurso, encontrando no seu Jeca Tatu um símbolo da realidade rural brasileira. Lança-se à indústria editorial, publica livros e mais livros — "Onda Verde", "Idéias de Jeca Tatu", "Cidades Mortas", "Negrinha", "Fábulas", "O Choque", etc. Fracassa como editor, ao lançar a firma Monteiro Lobato & Cia., mas volta com a Companhia Editora Nacional, ao lado de Octales Marcondes, e triunfa. Tenta a exploração de petróleo, e acaba na cadeia, perseguido pela ditadura de Getúlio Vargas. Não só escreve, como traduz sem pausa, dezenas e dezenas de livros, especialmente de Kipling. Uma vida cheia. E uma grande obra, que lhe preservará o nome glorioso. Foi um grande homem, um grande brasileiro e um dos maiores escritores — em todo o mundo — de histórias para crianças. Basta dizer que, no período de 1925 a 1950 foram vendidos aproximadamente um milhão e quinhentos mil exemplares de seus livros.

Era, de fato, um ser plural: escritor precursor do realismo fantástico, escritor de cartas, escritor de obras infantis, ensaísta, crítico de arte e literatura, pintor, jornalista, empresário, fazendeiro, advogado, sociólogo, tradutor, diplomata, etc. Faleceu na cidade de São Paulo (SP), no dia 04 de julho de 1948.


NEGRINHA (Monteiro Lobato) 



Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados.
 
Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças.
 
Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu. Entaladas as banhas no trono (uma cadeira de balanço na sala de jantar), ali bordava, recebia as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora em suma - "dona de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral", dizia o reverendo.
 
Ótima, a dona Inácia. 
Mas não admitia choro de criança. Ai! Punha-lhe os nervos em carne viva. Viúva sem filhos, não a calejara o choro da carne de sua carne, e por isso não suportava o choro da carne alheia. Assim, mal vagia, longe, na cozinha, a triste criança, gritava logo nervosa:
 
- Quem é a peste que está chorando aí?
 
Quem havia de ser? A pia de lavar pratos? O pilão? O forno? A mãe da criminosa abafava a boquinha da filha e afastava-se com ela para os fundos do quintal, torcendo-lhe em caminho beliscões de desespero.
 
- Cale a boca, diabo!
 
No entanto, aquele choro nunca vinha sem razão. Fome quase sempre, ou frio, desses que entanguem pés e mãos e fazem-nos doer...
 
Assim cresceu Negrinha - magra, atrofiada, com os olhos eternamente assustados. órfã aos quatro anos, por ali ficou feito gato sem dono, levada a pontapés, Não compreendia a idéia dos grandes. Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão. A mesma coisa, o mesmo ato, a mesma palavra provocava ora risadas, ora: castigos. Aprendeu a andar, mas quase não andava. Com pretextos de que às soltas reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora punha-a na sala, ao pé de si, num desvão da porta.
 
- Sentadinha aí, e bico, hein?
 
Negrinha imobilizava-se no canto, horas e horas.
 
- Braços cruzados, já, diabo!
 
Cruzava os bracinhos a tremer, sempre com o susto nos olhos. E o tempo corria. E o relógio batia uma, duas, três, quatro, cinco horas - um cuco tão engraçadinho! Era seu divertimento vê-lo abrir a janela e cantar as horas com a bocarra vermelha, arrufando as asas. Sorria-se então por dentro, feliz um instante.
 
Puseram-na depois a fazer croché, e as horas se lhe iam a espichar trancinhas sem fim.
 
Que idéia faria de, si essa criança que nunca ouvira uma palavra de carinho? Pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata-choca, pinto gorado, mosca-morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa-ruim, lixo não tinha conta o número de apelidos com que a mimoseavam. Tempo houve em que foi a bubônica. A epidemia andava na berra, como a grande novidade, e Negrinha viu-se logo apelidada assim - por sinal que achou linda a palavra. Perceberam-no e suprimiram-na da lista. Estava escrito que não teria um gostinho só na vida - nem esse de personalizar a peste...
 
O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele os da casa todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo. Sua pobre carne exercia para os cascudos, cocres e beliscões a mesma atração que o ímã exerce para o aço. Mãos em cujos nós de dedos comichasse um cocre, era mão que se descarregaria dos fluidos em sua cabeça. De passagem. Coisa de rir e ver a careta...
 
A excelente dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos e daquelas ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e estalar o bacalhau. Nunca se afizera ao regime novo essa indecência de negro igual a branco e qualquer coisinha: a policia! "Qualquer coisinha": uma mucama assada ao forno porque se engraçou dela o senhor; uma novena de relho porque disse: “Como é ruim, a sinhá!” ...
 
O 13 de Maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou da alma a gana. Conservava Negrinha em casa como remédio para os frenesis. Inocente derivativo:
 
- Ai! Como alivia a gente uma boa roda de cocres bem fincados!...
 
Tinha de contentar-se com isso, judiaria miúda, os níqueis da crueldade. Cocres: mão fechada com raiva e nós de dedos que cantam no coco do paciente. Puxões de orelha: o torcido, de despegar a concha (bom! bom! bom! gostoso de dar) e o a duas mãos, o sacudido. A gama inteira dos beliscões: do miudinho, com a ponta da unha, à torcida do umbigo, equivalente ao puxão de orelha. A esfregadela: roda de tapas, cascudos, pontapés e safanões a uma - divertidíssimo! A vara de marmelo, flexível, cortante: para "doer fino" nada melhor!
 
Era pouco, mas antes isso do que nada. Lá de quando em quando vinha um castigo maior para desobstruir o fígado e matar as saudades do bom tempo. Foi assim com aquela história do ovo quente.
 
Não sabem! Ora! Uma criada nova furtara do prato de Negrinha coisa de rir - um pedacinho de carne que ela vinha guardando para o fim. A criança não sofreou a revolta - atirou-lhe um dos nomes com que a mimoseavam todos os dias.
 
- "Peste?" Espere aí! Você vai ver quem é peste - e foi contar o caso à patroa.
 
Dona Inácia estava azeda, necessitadíssima de derivativos. Sua cara iluminou-se.
 
- Eu curo ela!. - disse, e desentalando do trono as banhas foi para a cozinha, qual perua choca, a rufar as saias.
 
- Traga um ovo.
 
Veio o ovo. Dona Inácia mesmo pô-lo na água a ferver; e de mãos à cinta, gozando-se na prelibação da tortura, ficou de pé uns minutos, à espera. Seus olhos contentes envolviam a mísera criança que, encolhidinha a um canto aguardava trêmula alguma coisa de nunca visto. Quando o ovo chegou a ponto, a boa senhora chamou:
 
- Venha cá!
 
Negrinha aproximou-se.
 
- Abra a boca!
 
Negrinha abriu a boca, como o cuco, e fechou os olhos. A patroa, então, com uma colher, tirou da água "pulando" o ovo e zás! na boca da pequena. E antes que o urro de dor saísse, suas mãos amordaçaram-na até que o ovo arrefecesse. Negrinha urrou surdamente, pelo nariz. Esperneou. Mas só. Nem os vizinhos chegaram a perceber aquilo. Depois:
 
- Diga nomes feios aos mais velhos outra vez, ouviu, peste?
 
E a virtuosa dama voltou contente da vida para o trono, a fim de receber o vigário que chegava.
 
- Ah, monsenhor! Não se pode ser boa nesta vida... Estou criando aquela pobre órfã, filha da Cesária - mas que trabalheira me dá!
 
- A caridade é a mais bela das virtudes cristãs, minha senhora murmurou o padre.
 
- Sim, mas cansa...
 
- Quem dá aos pobres empresta a Deus.
 
A boa senhora suspirou resignadamente.
 
- Inda é o que vale...
 
Certo dezembro vieram passar as férias com Santa Inácia duas sobrinhas suas, pequenotas, lindas meninas louras, ricas, nascidas e criadas em ninho de plumas.
 
Do seu canto na sala do trono, Negrinha viu-as irromperem pela casa como dois anjos do céu - alegres, pulando e rindo com a vivacidade de cachorrinhos novos. Negrinha olhou imediatamente para a senhora, certa de vê-la armada para desferir contra os anjos invasores o raio dum castigo tremendo.
 
Mas abriu a boca: a sinhá ría-se também... Quê? Pois não era crime brincar? Estaria tudo mudado - e findo o seu inferno - e aberto o céu? No enlevo da doce ilusão, Negrinha levantou-se e veio para a festa infantil, fascinada pela alegria dos anjos.
 
Mas a dura lição da desigualdade humana lhe chicoteou a alma. Beliscão no umbigo, e nos ouvidos, o som cruel de todos os dias: "já para o seu lugar, pestinha! Não se enxerga?"
 
Com lágrimas dolorosas, menos de dor física que de angústia moral sofrimento novo que se vinha acrescer aos já conhecidos - a triste criança encorujou-se no cantinho de sempre.
 
- Quem é, titia? - perguntou uma das meninas, curiosa.
 
- Quem há de ser? - disse a tia, num suspiro de vítima. - Uma caridade minha. Não me corrijo, vivo criando essas pobres de Deus... Uma órfa. Mas brinquem, filhinhas, a casa é grande, brinquem por aí afora.
 
- Brinquem! Brincar! Como seria bom brincar! - refletiu com suas lágrimas, no canto, a dolorosa martirzinha, que até ali só brincara em imaginação com o cuco.
 
Chegaram as malas e logo:
 
- Meus brinquedos! - reclamam as duas meninas.
 
Uma criada abriu-as e tirou os brinquedos.
 
Que maravilha! Um cavalo de pau!... Negrinha arregalava os olhos. Nunca imaginara coisa assim tão galante. Um cavalinho! E mais... Que é aquilo? Uma criancinha de cabelos amarelos... que falava "mamã"... que dormia...
 
Era de êxtase o olhar de Negrinha. Nunca vira uma boneca e nem sequer sabia o nome desse brinquedo. Mas compreendeu que era uma criança artificial.
 
- É feita?... - perguntou, extasiada.
 
E dominada pelo enlevo, num momento em que a senhora saiu da sala a providenciar sobre a arrumação das meninas, Negrinha esqueceu o beliscão, o ovo quente, tudo, e aproximou-se da criatura de louça. Olhou-a com assombrado encanto, sem jeito, sem ânimo de pegá-la.
 
As meninas admiraram-se daquilo.
 
- Nunca viu boneca?
 
- Boneca? - repetiu Negrinha. - Chama-se Boneca?
 
Riram-se as fidalgas de tanta ingenuidade.
 
- Como é boba - disseram. - E você como se chama?
 
- Negrinha.
 
As meninas novamente torceram-se de riso; mas vendo que o êxtase da bobinha perdurava, disseram, apresentando-lhe a boneca:
 
- Pegue!
 
Negrinha olhou para os lados, ressabiada, com o coração aos pinotes. Que ventura, santo Deus! Seria possível? Depois pegou a boneca. E muito sem jeito, como quem pega o Senhor menino, sorria para ela e para as meninas, com assustados relanços de olhos para a porta. Fora de si, literalmente... era como se penetrara no céu e os anjos a rodeassem, e um filhinho de anjo lhe tivesse vindo adormecer ao colo. Tamanho foi o seu enlevo que não viu chegar a patroa, já de volta. Dona Inácia entreparou, feroz, e esteve uns instantes assim, apreciando a cena.
 
Mas era tal a alegria das hóspedes ante a surpresa extática de Negrinha, e tão grande a força irradiante da felicidade desta, que o seu duro coração afinal bambeou. E pela primeira vez na vida foi mulher. Apiedou-se.
 
Ao percebê-la na sala Negrinha havia tremido, passando-lhe num relance pela cabeça a imagem do ovo quente e hipóteses de castigos ainda piores. E incoercíveis lágrimas de pavor assomaram-lhe aos olhos.
 
Falhou tudo isso, porém. O que sobreveio foi a coisa mais inesperada do mundo - estas palavras, as primeiras que ela ouviu, doces, na vida:
 
- Vão todas brincar no jardim, e vá você também, mas veja lá, hein?
 
Negrinha ergueu os olhos para a patroa, olhos ainda de susto e terror. Mas não viu mais a fera antiga. Compreendeu vagamente e sorriu.
 
Se alguma vez a gratidão sorriu na vida, foi naquela surrada carinha...
 
Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a mesma - na princesinha e na mendiga. 
E para ambos é a boneca o supremo enlevo. Dá a natureza dois momentos divinos à vida da mulher: o momento da boneca - preparatório -, e o momento dos filhos - definitivo. Depois disso, está extinta a mulher.
 
Negrinha, coisa humana, percebeu nesse dia da boneca que tinha uma alma. Divina eclosão! Surpresa maravilhosa do mundo que trazia em si e que desabrochava, afinal, como fulgurante flor de luz. Sentiu-se elevada à altura de ente humano. Cessara de ser coisa - e doravante ser-lhe-ia impossível viver a vida de coisa. Se não era coisa! Se sentia! Se vibrava!
 
Assim foi - e essa consciência a matou.
 
Terminadas as férias, partiram as meninas levando consigo a boneca, e a casa voltou ao ramerrão habitual. Só não voltou a si Negrinha. Sentia-se outra, inteiramente transformada.
 
Dona Inácia, pensativa, já a não atazanava tanto, e na cozinha uma criada nova, boa de coração, amenizava-lhe a vida.
 
Negrinha, não obstante, caíra numa tristeza infinita. Mal comia e perdera a expressão de susto que tinha nos olhos. Trazia-os agora nostálgicos, cismarentos.
 
Aquele dezembro de férias, luminosa rajada de céu trevas adentro do seu doloroso inferno, enverienara-a.
 
Brincara ao sol, no jardim. Brincara!... Acalentara, dias seguidos, a linda boneca loura, tão boa, tão quieta, a dizer mamã, a cerrar os olhos para dormir. Vivera realizando sonhos da imaginação. Desabrochara-se de alma.
 
Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza. O delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos... E bonecas e, anjos remoinhavam-lhe em torno, numa farândola do céu. Sentia-se agarrada por aquelas mãozinhas de louça - abraçada, rodopiada.
 
Veio a tontura; uma névoa envolveu tudo. E tudo regirou em seguida, confusamente, num disco. Ressoaram vozes apagadas, longe, e pela última vez o cuco lhe apareceu de boca aberta.
 
Mas, imóvel, sem rufar as asas.
 
Foi-se apagando. O vermelho da goela desmaiou...
 
E tudo se esvaiu em trevas.
 
Depois, vala comum. A terra papou com indiferença aquela carnezinha de terceira - uma miséria, trinta quilos mal pesados ...
 
E de Negrinha ficaram no mundo apenas duas impressões. Uma cômica, na memória das meninas ricas.
 
- "Lembras-te daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca?"
 
Outra de saudade, no nó dos dedos de dona Inácia.
 
- "Como era boa para um cocre!...”

Atividades sobre o texto
 
1) Todos nós sabemos que o nosso nome é o que nos identifica. A partir dele somos gente, somos conhecidos, enfim, temos uma identidade. Por que você acha que a menina não tem nome na história? E por que o apelido está no diminutivo?
 
2) Existem palavras desconhecidas no texto e, para entendê-lo, precisamos compreendê-las! Pesquise o significado das palavras abaixo e complete o quadro:


3) Aponte algumas características que o narrador atribui à personagem principal – Negrinha – e à patroa – Inácia.
 
4) Explique o que o narrador quis dizer na seguinte passagem do texto: “Viúva sem filhos, não a calejara o choro da carne de sua carne, e por isso não suportava o choro da carne alheia.” (5º parágrafo).
 
5) Observe o seguinte trecho: “A mãe da criminosa abafava a boquinha da filha e afastava-se com ela para os fundos do quintal [...]” (7º parágrafo). Quem era a criminosa e qual era o crime que estava sendo cometido?
 
6) Em diversas passagens no texto, o narrador a ironia para falar de Dona Inácia. Destaque, no mínimo, dois trechos onde isso fica evidente, explicando a crítica implícita.
 
7) Qual foi, na sua opinião, o pior castigo sofrido por Negrinha? Justifique:
 
8) Qual foi o fato que mudou a vida de Negrinha?
 
9) A que são comparadas as sobrinhas de Dona Inácia no textos? Por que você acha que é feita essa comparação?
 
10) O que Negrinha achava que fosse crime e qual foi o fato que mudou essa percepção?
 
11) Explique, com as suas palavras, a frase: “Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a mesma [...]” (71º parágrafo).
 
12) O que matou Negrinha? Por que, na sua opinião, isso a matou?


Produção textual
Imagine um outro final para o conto. Pense em como poderia ter sido a vida de Negrinha se aquela felicidade que ela sentiu durante aquelas férias, continuasse. Use a imaginação e mãos à obra!


Terminadas as férias, partiram as meninas ...
 II – Leitura e descoberta – Artigo de opinião / Charge / Notícia

Texto 1*
Nós não somos todos Maju

Filipe Rangel


Cada vez mais os últimos meses têm nos mostrado como as redes sociais são capazes de viralizar ideias com uma velocidade estonteante, sejam elas verdade ou mentira, positiva ou negativa, contra ou a favor de alguma causa.
 
A coisa está tão disparada que cada semana é um assunto novo. O da vez é o caso da jornalista Maria Júlia Coutinho, que apresenta a previsão do tempo no Jornal Nacional e foi alvo de comentários racistas na fan page do jornal no Facebook. Algumas atrocidades como ‘não tomo nem café para não ter intimidade com preto’ e ‘preta imunda e macaca, só está na TV por cotas’ foram direcionadas a ‘Maju’. As ofensas geraram revolta e uma campanha em apoio e resposta: ‘somos todos Maju’. O caso da jornalista vale a reflexão: será que somos todos Maju? 
É interessante fazer esse recorte: alguns dos comentários que defendiam a jornalista traziam argumentos como: ‘por que fazer isso com ela? ela é linda’, ou ‘uma mulher estudada, com ensino superior’. Pouco interessa se ela é bonita ou feia, gorda ou magra, analfabeta ou tem doutorado em clima tropical em Harvard; ela é uma pessoa e qualquer pessoa tem sua dignidade atacada quando exposta a esse tipo de preconceito. Ou seja, só somos Maju quando ela é bonitinha, letrada, importante, prestigiada.
 
Outro ponto: muita gente que de uma hora para outra virou Maju, fora do furor das redes sociais, defende que no Brasil não existe racismo, e o que existe é uma vontade de dividir o país entre brancos e pretos, ricos e pobres, héteros e gays, etc. Essa gente tem que se decidir: existe ou não racismo no Brasil?
 
A pergunta é retórica. Claro que existe – e muito. E, por isso, a Maju merece toda a solidariedade do mundo. Mas um negro não deveria ser bonito, bem-sucedido e global para receber empatia quando é vítima de ataques covardes e nojentos. Todos os negros deveriam receber o mesmo tratamento. E todos nós sabemos que isso está longe, muito longe de acontecer.
 
E não vai acontecer enquanto as pessoas atravessarem a rua, à noite, toda vez que avistarem um negro com aparência de pobre. Ou enquanto continuarem a chamar os outros de macacos, mesmo que por brincadeira. Racismo não é brincadeira sob hipótese nenhuma.
 
O racismo vai continuar enquanto as expressões ‘coisa de preto’ [...] forem encaradas como coisas saudáveis e cotidianas. E enquanto a piada que chama o amiguinho negro da escola de ‘escravo’ prevalecer.
 
O racismo vai reinar soberano enquanto cota racial for considerada ‘privilégio’, e toda vez que a frase ‘ela é uma negra bonita’, que equivale a algo como ‘ela é bonita, apesar de negra’ for dita.
 
Todos os prejuízos do racismo vão continuar a martelar a sociedade enquanto ele for negado. Enquanto as pessoas afirmarem que não deve haver, por exemplo, o Dia da Consciência Negra, e sim o Dia da Consciência Humana – como se essa andasse bem das pernas.
 
Ser Maju deveria ser empático com todos os negros que são discriminados nos mais diversos níveis – desde a falta de acesso a direitos básicos até o encarceramento, que pelo visto vai ser mais cedo agora. E aí, havemos de concordar, nós não somos todos Maju.


1) O artigo de opinião é um gênero textual no qual o autor expõe sua opinião diante de algum acontecimento ou fato. É correto afirmar que o texto acima é um artigo de opinião? Comprove com um trecho do texto.
 
2) Qual é a opinião defendida pelo autor do texto?
 
3) De que forma a charge dialoga com o texto? Qual é a crítica que está implícita?
 
4) Há comentários contra o racismo que acabam demonstrando, indiretamente, um certo preconceito velado, que é uma certa contradição. Transcreva, do texto, o trecho que exemplifica isso, posicionando-se acerca destas constatações.
 
5) Responda a pergunta feita pelo autor, no 4º parágrafo do texto, justificando.
 
6) O autor dá a sua opinião no que diz respeito à “consciência humana”. Transcreva essa passagem, concordando ou não com ela.
 
7) Você acredita que o Dia da Consciência Negra, de certa forma, ameniza o preconceito? E as cotas? Reforçam ou amenizam esse problema? Comente:
 
8) O link ‘somos todos Maju’ direciona o leitor para um outro gênero textual acerca do mesmo tema. Que gênero é esse? Quais as semelhanças e diferenças entre esse gênero e o texto lido, exemplo de artigo de opinião?
 
Texto 2*
Eu não sou Maju
Mônica Raorifn El Bayeh


Eu não sou Maju. É isso mesmo que você está lendo. Gosto muito da apresentadora do tempo do Jornal Nacional, na rede Globo. Maju é charmosa, carismática, desenvolveu um estilo próprio. E, ao contrário de alguns apresentadores que, vira e mexe, aparecem com umas roupas esquisitas, Maju é linda, inteligente e impecável sempre.
 
Maju é caprichada. Deu um toque de diferença. Conquistou seu lugar. Incomodou? Incomodou como todos os que têm brilho próprio. Como só os que sabem abrir seus caminhos podem fazer.
 
O que incomodou não foi Maju ser negra. Foi ser boa, brilhante no que faz. Maju poderia ser branca, amarela, verde. Incomodaria de qualquer forma. Porque ela é ótima. Pessoas foscas são velas sem pavio. Na falta de chama própria, sopram para apagar a dos outros. O brilho de quem faz sucesso queima os fracassados como cruz para vampiros.
 
Maju merece o carinho e as defesas que recebeu. É fácil dizer que é Maju e defender a apresentadora. Difícil é defender os negros pobres. Os que, sem casa, vivem pelas ruas. 
Os que, sem estudo, perambulam a esmo. Os que, sem saúde, morrem anônimos nas macas públicas.
 
Não sou Maju. Não enquanto bandido branco riquinho for tratado de “jovem” e “criança” e criança negra pobre for chamada de bandido e marginal.
 
Não sou Maju. Porque negamos aos nossos pobres meninos o direito à saúde, moradia e educação de qualidade. Negamos vez, negamos voz. Depois gritamos pela diminuição da maioridade penal deles. Importante deixar claro: só a deles.
 
Ninguém grita a favor da maioridade penal pensando em filhos mimados de classe alta que queimam índios na rua. Queremos que prendam os pobres, para que a gente possa usar o cordão de ouro em paz. Andar sem medo a qualquer hora por aí.
 
Pedimos a diminuição da maioridade penal como quem coloca grades na casa. Só mais uma proteção. Não vemos que nossos meninos são o retrato cru e nu da injusta realidade social que beneficia quem tudo tem e abandona os desvalidos.
 
Eles são o sintoma da sociedade cruel onde vivemos. Vivemos, votamos e nos vendamos. Somos surdos e cegos para as misérias dos que não são atendidos.
Estamos num país onde nossos impostos vão para bolsos ricos. E os pobres são abandonados à própria sorte. Pagamos e caro. Somos extorquidos em nossos salários. Já sabendo da falta de retorno, ainda pagamos escolas e planos de saúde. E quem não pode? 
E quem não tem de onde tirar?
 
Não sou Maju enquanto os professores fizerem greve, e apanharem nas ruas , sem que ninguém se levante em seu apoio. Os professores do município do Rio estão sendo descontados até hoje, um ano depois, pela greve que fizeram. Quem é #eusouprofessordescontado? Oi? Alguém?
 
Não sou Maju enquanto nossos filhos nascerem lindos, fortes, saudáveis e aos pobres, sem as mesmas condições, forem negados remédios básicos, exames e um olhar de dignidade.
Maju merece respeito, claro. O preconceito contra Maju é nojento. Precisa ser investigado e punido. Nem tenho dúvida de que serão. Se perderam na pequenez de alma que emburrece as mentes. Mergulhados no azedume que limita horizontes. Só aguardar. Não demora, já vamos saber quem foi.
 
Mas não podemos perder de vista que o que aconteceu com Maju é só a ponta de um iceberg podre que fecha os olhos para o que não se quer ver. Mesmo iceberg que maltrata, discrimina e escolhe como réu as mesmas e pobres vítimas que faz.
 
Dou aula para crianças pobres. Enxergo nelas muitas Majus em potencial: lindas, criativas, inteligentes, falantes. Quantas sobreviverão à falta de saúde? Às balas perdidas? À violência de todo lado? Quantas terão a chance de um futuro minimamente digno com nossa educação cada vez mais sucateada?
 
É fácil dizer que somos uma Maju que é linda, bem sucedida. E cheirosa! Sim Maju tem jeito de quem é cheirosa.
 
Difícil é ser pobre, feio, mal vestido, fedorento, cheio de remela, sem remédio, sem aula, sem merenda, sem casa, sem família. E ameaçado de ser punido aos dezesseis pelo que não recebeu a vida inteira.
 
Em linguagem meteorológica, eu diria que a previsão para o amanhã desses meninos é de tempo fechado. Com direito a Raios e tempestades de raivas e ressentimentos para todo lado. Não há porque se espantar. Quem planta ventos, colhe mesmo tempestades.
 
Vocês todos que são Maju, sejam também Maria, Ana, Jessica, Wesley, Samantha, Jenifer, Jefferson, Kettlen, Uoston. Sejam todos os meninos sem rosto e sem nome que a gente finge não ver.
 
Quem sabe dessa forma, o tempo ameniza para o lado deles. As nuvens se dissipem. E eles também consigam, um dia, chegar a ser Maju. Essa é uma cena que eu aplaudiria de pé.


9) O que a frase “É isso mesmo que você está lendo” transmite? Qual o provável objetivo da autora ao usá-la?
 
10) Você concorda com a autora de que o fato de Maju ser negra não foi o que incomodou? Comente:
 
11) Explique a sonora passagem “Negamos vez, negamos voz”, situada no sexto parágrafo:
 
12) A autora revela, assim como o autor do texto 01, sua opinião sobre a redução da maioridade penal. Copie a passagem em que isso ocorre:
 
13) Por que a autora, no finalzinho do texto, cita uma série de nomes próprios? Qual o objetivo dela ao recorrer a essa citação?
 
14) Que mensagem o texto lhe transmitiu?
 
15) O que os dois textos têm em comum? Comente:
 
16) Ambos os textos mencionam a função ocupada pela Maju. Copie uma passagem de cada texto que comprove isso:
 
17) O que a charge que acompanha o texto 02 revela? Isso é comum de acontecer?
 
18) Você se considera uma pessoa racista? Justifique sua resposta:
 
19) O que as tirinhas a seguir denunciam? Você acha que existem muitas Susanitas espalhadas por aí? Ou a atitude dela foi caricatural, exagerada?

19) A tirinha abaixo traz implícita uma crítica a qual comportamento social, bastante em voga na atualidade?
O que ela tem em comum com o conto “Negrinha”?


20) A crítica implícita na tirinha abaixo, é a mesma das tirinhas anteriores? Você acha que isso acontece na nossa sociedades? Posicione-se a respeito.


Atividades de produção textual
Refletir sobre os texto lidos e produzir:
Um texto narrativo, inspirado no conto “Negrinha”, trazendo para a atualidade as ações vivenciadas por uma “Negrinha” ou um “negrinho”, vítima de preconceito (ou não), contando como os negros vivem e lidam com o preconceito no século XXI.
Ou
Um artigo de opinião, refletindo sobre o tema abordado em todos os textos

Atividade em grupo
Produzir:
Um painel que divulgue a importância da valorização da diversidade étnico-cultural, do respeito às diferenças.
Ou
Uma charge abordando a temática trabalhada.
Ou
Uma tirinha abordado a temática trabalhada.

*Questões de Andrea Dequinha - Arte & Manhas da Linguagem - Adaptado