quinta-feira, 20 de agosto de 2015

ADOLESCENTE SENIL - Érica Ostrowski - Atividades para o Ensino Médio

ADOLESCENTE SENIL 
Érica Ostrowski 


Tempos atrás se dizia que uma mulher casada, independente da idade, tinha que cortar os cabelos, assim como as que fizessem trinta anos, mesmo sem aliança no dedo anelar da mão esquerda, tinham que deixar as madeixas alinhadas e curtas, quase um rito de passagem. Era a hora de ter cara de senhora! As roupas, então?!! Era comum a frase: isto não é mais coisa para a minha idade. E mais limitações, e nem precisava um motivo, bastava ter alguns anos a mais. 

Minha geração, o pessoal que está nas mediações dos 50, teve que se adaptar a várias mudanças. Hoje já somos digitais, mas nascemos analógicos. 

As meninas foram criadas para ter um “bom casamento” - como se isto fosse uma vaga de emprego, cuidar da casa, dos filhos e talvez ter um trabalho para suprir as suas necessidades pessoais. E de repente foram arremessadas ao mercado de trabalho por vários motivos, entre eles a busca pessoal. 

E os homens, coitadinhos, além de não poderem chorar, tinham que sustentar suas famílias, praticamente sozinhos, se aposentavam com 50, 60 anos e ficavam de pijama em casa, um símbolo do total desuso profissional e atrofia de tudo mais, com certeza. Não havia autoestima que suportasse. 

Qualidade de vida, na época, era guardar dinheiro para talvez um dia viajar, isto se sobrasse do investimento nos filhos. Outra obrigação bizarra da época, não desfrutar, mas deixar herança. Acho até que nem se falava em qualidade de nada. Alguns tinham e outros não, eram adultos de vida morna, linear aos costumes pré-estabelecidos. Um padrão engessado de comportamento. 

Passado pouco tempo de lá para cá, muita coisa mudou, mas muita mesmo!!! Fala-se em qualidade de vida, beleza, prazer, liberdade, produtividade e saúde. Somos a primeira geração ciente de nossa longevidade. Nós, mulheres, deixamos o cabelo crescer depois dos 50 , 60 anos, ou deixamos de pintar, ou pintamos na cor que bem entendermos. Os homens estão livres para a vaidade e cuidados pessoais. Sem julgamentos. 

Filhos crescidos, carreira definida de uma forma ou outra, aceitamos melhor quem somos. E queremos mais, com a sabedoria de que a vida é preciosa e finita, mas que tem coisas que precisam maturar. Tudo ao seu tempo, porém sem tempo a perder. Somos jovens vividos, experientes experimentando, estamos cheios de projetos e aceitando novos desafios, vestindo a roupa dos filhos, ou criando nosso próprio estilo. 

Viajantes, enólogos, enófilos, cervejeiros, gourmets, naturistas, atletas, curtidores das coisas boas da vida. Sabendo que a felicidade é feita em blocos, como “lego”, e que podemos montar e desmontar a qualquer nova ideia. 

Ouvi que os 50 de hoje são os antigos 30 anos, então lhes digo que aos meus “32” atualizados, a vida está muito boa, e eu tenho pressa e muita coisa me interessa! Adolescente, senil?! Tomara que este seja meu futuro. Adolescer na maturidade. 

1) Em relação ao texto, é correto afirmar que: 
I – Segundo a autora, há alguns anos, o rito de passagem, relativo às mulheres maduras, era cortar os cabelos, independente de serem ou não casadas. 
II – As mulheres, hoje com 50 anos, eram criadas para ter um bom casamento e um bom emprego. 
III – A passagem dos anos impunha, às mulheres, certas limitações. 

a) Todas estão corretas. 
b) Apenas I e II estão corretas. 
c) Apenas a II está correta. 
d) Apenas I e III estão corretas. 
e) Nenhuma está correta. 

2) Ao que a autora compara o casamento, no 3º parágrafo?

3) Explique o que a autora quis dizer com a frase: “Hoje já somos digitais, mas nascemos analógicos.” (2º parágrafo).

4) Observe a frase: “Um padrão engessado de comportamento”? (5º parágrafo). Ao que ela se refere?

5) O que, segundo a autora, mudou nos últimos anos, em relação a sua geração?

6) O que a autora cita como sendo uma “obrigação bizarra”?

7) A partir da leitura do texto, podemos concluir a idade da autora? Transcreva uma frase do texto que comprove isso?

8) Como a autora define as pessoas de sua geração, no 7º parágrafo?

9) Explique o que a autora quis dizer com a frase: “Sabendo que a felicidade é feita em blocos, como “lego”, e que podemos montar e desmontar a qualquer nova ideia.” (9º parágrafo).

10) Encontre, no texto, sinônimos para as palavras abaixo:
a) Amadurecer:
b) Declínio, decadência:
c) Estranha: 

11) Qual a palavra usada pela autora, para referir-se à duração da vida?

12) Leia o poema de Cecília Meireles e responda às questões:
Retrato
Eu não tinha este rosto de hoje, 
assim calmo, assim triste, assim magro, 
nem estes olhos tão vazios, 
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força, 
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança, 
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

a) Qual o tema comum entre o texto de Érica Ostrowski e o poema de Cecília Meireles?
b) Os dois textos tratam desse tema da mesma forma? Contextualize sua resposta.
c) Na última estrofe do poema "Retrato", o eu lírico afirma "eu não dei por esta mudança tão simples, tão certa, tão fácil". Ao que eu eu lírico se refere?
13) Reescreva as frases abaixo, substituindo as expressões destacadas nas frases abaixo, pelo pronome adequado:
a) “[...] tinha que cortar os cabelos, [...]” (1º parágrafo)
b) “[...], tinham que deixar as madeixas alinhadas e curtas, [...]” (1º parágrafo)
c) “[...] e talvez ter um trabalho para suprir as suas necessidades pessoais.” (3º parágrafo)

14) Quais os pronomes que foram omitidos na frase: “Hoje já somos digitais, mas nascemos analógicos.” (2º parágrafo), e como ele se classificam?

15) Observe a frase: “As meninas foram criadas para ter um “bom casamento” - como se isto fosse uma vaga de emprego, [...]” (3º parágrafo). Ao que se refere o pronome demonstrativo destacado?

16) Na frase: “E de repente foram arremessadas ao mercado de trabalho por vários motivos, entre eles a busca pessoal.” (3º parágrafo), o pronome “eles” foi usado no lugar de qual substantivo empregado anteriormente?

17) No seguinte trecho do texto: “E os homens, coitadinhos, além de não poderem chorar, tinham que sustentar suas famílias, [...] (4º parágrafo), o pronome possessivo destacado estabelece uma relação de posse entre _____________________e _____________________.

18) No 2º parágrafo do texto, há um aposto. Transcreva-o e indique qual é a sua função neste contexto.

19) Assinale a alternativa onde o termo destacado foi classificado erroneamente.
a) “E mais limitações, e nem precisava um motivo, bastava ter alguns anos a mais.” 
                                                                                                                 OD
b) “[...] teve que se adaptar a várias mudanças [...]”
                                                             OI
c) “Fala-se em qualidade de vida, beleza, prazer, liberdade, produtividade e saúde.”
                                             OI



domingo, 16 de agosto de 2015

TODO MUNDO MENTE - Aline Mazzocchi - Atividades para o Ensino Médio

TODO MUNDO MENTE 
Aline Mazzocchi 

Já percebeu como a tecnologia evoluiu com algumas features direcionadas única e exclusivamente para conferência de informações? Senhas, perguntas secretas, identificação/bloqueador de chamada, localizador de telefone, risquinhos azuis. É como se não conseguíssemos de maneira nenhuma confiar nas pessoas, e tentássemos – frustradamente – usar fios óticos e satélites para rastrear a verdade. Vivemos na era da mentira patrocinada. Hora pelas nossas crenças, hora pelas oportunidades, em outros momentos justificados pela nossa cultura, e em outros por nossas boas intenções. Claro, quem nunca foi pego numa mentira e justificou com benfeitorias como “eu não queria te machucar” ou “menti pro teu próprio bem”? Todo mundo mente. 

Nós apresentamos carteirinha da faculdade que já não frequentamos na academia para pagar valor de estudante, nós dizemos ao guarda de trânsito que não vimos a sinaleira amarela, nós sorrimos para chefes que odiamos, não retornamos ligações “porque já era tarde”, nós fingimos orgasmos. É assim desde o tempo de Adão, Eva, a maçã e a cobra mentirosa. Vai ver a cobra disse a Eva que a maçã faria dela magra para sempre, indiferente dos sorvetes que ela tomasse na vida. A maçã, antes de ser um pecado, foi uma mentira. As desculpas são diversas, queremos pagar meia ou não pagar multa, agradar o chefe, não retornar ligações ou estávamos muito cansados para gozar ou discutir a relação. Tudo muito justificável. Outra grande mentira. O que a gente não quer é se a ver com as consequências das nossas escolhas. É difícil olhar nos olhos da verdade, eu sei. 

Por conta disso, passamos a nos acostumar com a mentira de tal forma, que escolhemos a categoria de mentirosos que queremos por perto. Políticos que mentem por causa do partido. Safados crônicos que mentem porque nunca foram amados. Dependentes químicos por conta de suas ânsias. Cleptomaníacos por causa da doença. Nós institucionalizamos a mentira como forma de conseguir continuar vivendo em sociedade. Tempo atrás acordos eram firmados com palmas cuspidas e um aperto de mãos no chamado “acordo de cavalheiros” ou ainda “no fio do bigode”. Hoje precisamos de contratos, adendos contratuais, acordos pré-nupciais, advogados, advogados dos advogados, licenças, patentes, testemunhas e atestados de veracidade. Não existe mais a boa fé. Nem boa, nem fé. 

Eu sei, um lado nosso não quer ouvir a verdade. Quando pergunto para o gato se eu engordei, sabendo que sim, quero ouvir dele a “versão açucarada” (ambiguidade aqui) da verdade. E ele mente para me agradar e para se proteger. Ele sabe o preço da verdade, pois já dormiu no sofá por conta dela. Quando meu irmão não me retorna uma ligação depois de três dias, prefiro ouvi-lo dizer que estava em cirurgia (como doutorando de medicina, não como paciente). Acho melhor imaginar que ele ficou 72 horas consecutivas heroicamente fazendo uma massagem cardíaca em alguém prestes a morrer, a dar um soco no meu coração dizendo que se esqueceu de falar comigo. É natural. Às vezes a gente não quer a verdade. Ela é dura e machuca. 

“Mas eu ‘apenas omito’, ‘distorço’, ‘aumento’, ‘adoço’ a verdade”. Todas as variações de uma mentira que não assumimos contar. Todas inocentes, justificáveis ou bem intencionadas até o limiar de se tornarem parte de nós mesmos. A questão não é que ela tem perna-curta, mas o que ela faz com a gente. Carlos Drummond de Andrade uma vez falou que “acreditar em nossa própria mentira é o primeiro passo para o estabelecimento de uma nova verdade”, e essa frase me arrepia os cabelos da nuca. Já pensou se todas as distorções que fazemos da vida real, forem contabilizadas como distorções do nosso caráter? Ainda assim a gente segue fingindo, uns que estão sendo sinceros, e outros que acreditam, já que a verdade dá trabalho. 

Não sou hipócrita ou idealista para imaginar um mundo sem mentiras. Todo mundo mente e eu entendo. A pergunta de fato não é quem mente, uma vez constado que é natural do ser humano a inversão ou inventabilidade da verdade. A pergunta é quem de nós já mentiu o suficiente pra esquecer-se das próprias verdades? Você acredita na pessoa que é, ou na que diz ser? Quando deixamos de ser meninos, para virarmos apenas insensíveis caras de pau? Pinóquio teve que provar coragem, bravura e lealdade para tornar-se um menino de verdade. Ora, pois não são estas, justamente, as qualidades que nos faltam para olhar a verdade? 

São sim, “simplesMENTE”. 

1) Sobre o texto, é correto afirmar: 
I – Não queremos ouvir as verdades, por isso aceitamos algumas mentiras. 
II – Nós queremos a verdade porque ela é dura e machuca. 
III – Mentir é intrínseco ao ser humano. 

a) Todas estão corretas. 
b) Nenhuma está correta. 
c) I e II estão corretas. 
d) I e III estão incorretas. 
e) II está incorreta. 

2) Que mentiras estamos acostumados a contar, segundo ela?

3) Por que a autora afirma que vivemos na “era da mentira patrocinada”?

4) Que versões de mentiras existem segundo a autora?

5) Que tipo de mentiras ela classifica como “benfeitorias” e por que elas as classifica dessa forma?

6) Até onde as mentiras são inocentes, justificáveis ou bem intencionadas?

7) Qual seria a consequência de acreditarmos nas nossas mentiras, segundo o texto?

8) O que é necessário para vermos a verdade?

9) Por que, segundo a autora, institucionalizamos a mentira?

10) Em relação à linguagem do texto, analise as afirmações e assinale a alternativa correta.
I – “Safados crônicos que mentem porque nunca foram amados.” (3º parágrafo) – O termo destacado refere-se ao que é habitual, permanente.
II – “Dependentes químicos por conta de suas ânsias.” (3º parágrafo) – Podemos substituir o termo destacado por “vontades”, sem alterar o sentido da frase. 
III – “Cleptomaníacos por causa da doença.” (3º parágrafo) – O termo destacado refere-se às pessoas que tem mania de roubar, sem necessidade.

a) Todas estão corretas.
b) Apenas a I está correta.
c) Apenas a II está correta.
d) Apenas a III está correta.
e) Nenhuma está correta.

11) Assinale a frase onde o termo “conferência” foi empregado com o mesmo sentido com que foi usado na frase: “Já percebeu como a tecnologia evoluiu com algumas features direcionadas única e exclusivamente para conferência de informações?”(1º parágrafo).
a) A conferência do material foi feita logo após o recebimento.
b) A conferência sobre a criminalidade ocorreu na manhã desta segunda-feira.
c) O responsável pela conferência sobre o meio-ambiente falou aos estudantes da universidade.

12) Classifique os termos destacados em: OD, OI, CN ou AA.
a) “É como se não conseguíssemos de maneira nenhuma confiar nas pessoas [...]” (1º parágrafo).

b) “Claro, quem nunca foi pego numa mentira e justificou com benfeitorias [...]” (1º parágrafo).

c) “[...] nós dizemos ao guarda de trânsito que não vimos a sinaleira amarela,[...]” (2º parágrafo).

d) “[...] passamos a nos acostumar com a mentira [...]” (3º parágrafo).

e) “[...] e um aperto de mãos no chamado “acordo de cavalheiros” ou ainda “no fio do bigode”.” (3º parágrafo).

13) Assinale a alternativa que indica, respectivamente, as circunstâncias expressas pelos adjuntos adverbiais (ou locuções adverbiais) destacados nas frases abaixo:
I - “É como se não conseguíssemos de maneira nenhuma confiar nas pessoas, e tentássemos – frustradamente – usar fios óticos e satélites para rastrear a verdade. Vivemos na era da mentira patrocinada.” (1º parágrafo)

a) Negação – negação – tempo – finalidade – tempo
b) Negação – negação – modo – finalidade – tempo
c) Negação – negação – modo – modo – tempo 
d) Negação – negação – tempo – finalidade – modo
e) Negação – afirmação – modo – finalidade – tempo

14) Observe a frase: “É como se não conseguíssemos de maneira nenhuma confiar nas pessoas, e tentássemos – frustradamente – usar fios óticos e satélites para rastrear a verdade.” (1º parágrafo). Se substituíssemos os termos destacados por pronomes, teríamos a seguinte opção de reescrita:
a) “É como se não conseguíssemos de maneira nenhuma confiar-lhes, e tentássemos – frustradamente – usá-los para rastreá-la.”

b) “É como se não conseguíssemos de maneira nenhuma confiar nelas, e tentássemos – frustradamente – usar-los para rastrear-la.”

c) “É como se não conseguíssemos de maneira nenhuma confiar nelas, e tentássemos – frustradamente – usá-los para rastreá-la.”

15) Reescreva as frases abaixo, substituindo os pronomes destacados, pelo número e pessoa solicitados entre parênteses. Faça as alterações necessárias.
a) “Nós apresentamos carteirinha da faculdade que já não frequentamos na academia para pagar valor de estudante [...]”(2º parágrafo) - (3º pessoa do singular)

b) “Mas eu ‘apenas omito’, ‘distorço’, ‘aumento’, ‘adoço’ a verdade”. (5º parágrafo) – (1ª pessoa do plural)

c) “E ele mente para me agradar e para se proteger.” (4º parágrafo) – (1ª pessoa do singular)

16) Indique a qual termo o pronome relativo destacado nas frases abaixo se refere:
a) “[...] nós sorrimos para chefes que odiamos,[...]” (2º parágrafo)

b) “Todas as variações de uma mentira que não assumimos contar.” (5º parágrafo)

c) “. Já pensou se todas as distorções que fazemos da vida real, forem contabilizadas como distorções do nosso caráter?(5º parágrafo) 




quarta-feira, 12 de agosto de 2015

NA TRASEIRA DO CAMINHÃO - Drauzio Varella - 6º ano

NA TRASEIRA DO CAMINHÃO 

Drauzio Varella 

Quando eu tinha sete, oito anos, virou moda na minha rua chocar caminhão: pendurar-se na traseira do veículo e saltar na virada da esquina. Uma vez, choquei o caminhão de lixo e quando pulei na frente de casa, meu pai, que chegava do trabalho, estava parado no portão com cara de quem não gostou da gracinha. Recebi o mais detestável dos castigos: domingo inteiro de pijama na cama. 

Cabeça-dura, repeti a façanha outras vezes, até que decidi chocar a caminhonete do seu Germano, o alemão da fábrica em frente, só para me exibir para os meninos, que morriam de medo dele. Sentei na calçada ao lado da caminhonete. Dois operários puseram umas caixas na carroceria. Seu Germano, saindo para o almoço, deu a partida. Eu pendurado atrás. Infelizmente, na esquina, em vez de diminuir a velocidade ele acelerou, e me faltou coragem para pular. 

Fomos na direção do largo Santo Antônio, cada vez mais depressa, eu com os ossos batendo na lataria, morto de medo de cair. Ao chegar no largo, duas senhoras me viram naquela velocidade e gritaram para parar. Seu Germano nem ouviu. Com os braços cansados, fiz um esforço para saltar para dentro da carroceria, mas a caminhonete pulava feito cavalo bravo nos paralelepípedos da rua e eu não consegui. Tentei de novo e não deu. Mais uma vez, pior ainda. Então, fiquei apavorado. Achei que ia morrer e que meu pai ia ficar muito triste, porque ele sempre dizia: “Deus me livre, perder um de vocês”. 

Talvez o medo da morte tenha me dado força na quarta tentativa: esfolei a canela inteira, mas consegui passar a perna e impulsionar o corpo para dentro. Caí no meio das caixas, com o coração disparado, e chorei. Quando a caminhonete parou na porta do seu Germano, achei melhor ficar quietinho entre as caixas, até ele voltar para a fábrica depois do almoço. Também não deu certo: ele resolveu descarregar a caminhonete e me encontrou escondido. Tomou um susto tão grande que até pulou para trás: 

— Menino dos infernos! Como veio parar aqui? 

Expliquei que só queria chocar até a esquina, mas a velocidade tinha sido tanta… Ele ficou enfezado e disse que ia contar para o meu pai. Pedi para não fazer isso porque eu ia apanhar, mas ele não se importou, falou que era merecido até. Mostrei as pernas esfoladas, ele não se comoveu. Por fim, contei dos domingos de castigo na cama. Nesse momento, brilhou um instante de compaixão no olhar dele: 

— Seu pai deixa você de pijama, deitado o domingo inteiro? 

— Só quando eu desobedeço muito. 

— Está louco! Teu pai é severo como o meu, na Alemanha. Entre na caminhonete que eu te levo de volta. 

No caminho, ele me deu conselhos e me contou do pai. Achei que os castigos do pai dele eram muito piores. O meu nunca tinha me trancado no guarda-roupa a noite inteira. Seu Germano concordou em manter segredo, desde que eu prometesse nunca mais chocar veículo nenhum. Desde então, apesar do jeito bravo, ele ficou meu amigo. Quando me encontrava, às vezes dizia: 

— Não vá esquecer: menino que cumpre a palavra merece respeito. 

Leia o texto com atenção e responda às questões: 

1) De acordo com o texto, o que é “chocar caminhão”? 

2) Qual era o mais detestável dos castigos, na opinião do narrador? 

3) Por que o narrador ficou apavorado, no 3º parágrafo do texto? 

4) Há, no texto, um personagem com outra nacionalidade que não a brasileira. Quem é esse personagem e qual é a sua nacionalidade? 

5) Que castigo o narrador achou pior do que ter que ficar de pijamas na cama, o domingo inteiro? 

6) O que, segundo o narrador, fez com que ele conseguisse entrar no carro, depois de 3 tentativas? 

7) Qual foi a reação de Germano quando descobriu o menino em sua caminhonete? 

8) Que conselho Germano deu ao narrador? 

9) Qual foi a condição imposta por Germano para não contar nada ao pai do narrador? 

10) Com o que o narrador compara a caminhonete no 3º parágrafo do texto? 

11) Observe o seguinte trecho: “Cabeça-dura, repeti a façanha outras vezes [...]” (2º parágrafo). Reescreva a frase, substituindo os termos destacados por sinônimos. Faça as alterações necessárias. 

12) Releia a frase: “Seu Germano, saindo para o almoço, deu a partida.” (2º parágrafo). A expressão destacada significa que Seu Germano ____________________________________________________ 

13) Observe a frase: “Ele ficou enfezado e disse que ia contar para o meu pai.” (6º parágrafo). Procure o significado da palavra destacada e assinale a alternativa correta. 
( ) furioso ( ) curioso ( ) temeroso 

14) Releia a seguinte frase do texto: “Mostrei as pernas esfoladas, ele não se comoveu. (6º parágrafo). 
a) “Esfoladas” foi o termo usado pelo narrador para dizer que suas pernas estavam ____________________________________________________________. 

b) Reescreva a frase, substituindo os termos destacados por sinônimos, fazendo as alterações necessárias. 

15) Na frase: “Teu pai é severo como o meu, na Alemanha” (9º parágrafo), ficamos sabendo que o pai do narrador e o pai de Germano são: 
( ) compreensíveis 
( ) responsáveis 
( ) rigorosos 

16) Em relação ao texto, preencha o quadro abaixo com os elementos da narrativa solicitados.



quarta-feira, 15 de julho de 2015

ENTRE A ESPADA E A ROSA - Marina Colasanti - Atividades para o 7º ano

ENTRE A ESPADA E A ROSA
Marina Colasanti



Qual é a hora de casar, senão aquela em que o coração diz "quero"? A hora que o pai escolhe. Isso descobriu a Princesa na tarde em que o Rei mandou chamá-la e, sem rodeios, lhe disse que, tendo decidido fazer aliança com o povo das fronteiras do Norte, prometera dá-la em casamento ao seu chefe. Se era velho e feio, que importância tinha frente aos soldados que traria para o reino, às ovelhas que poria nos pastos e às moedas que despejaria nos cofres? Estivesse pronta, pois breve o noivo viria buscá-la.

De volta ao quarto, a Princesa chorou mais lágrimas do que acreditava ter para chorar. Embotada na cama, aos soluços, implorou ao seu corpo, a sua mente, que lhe fizesse achar uma solução para escapar da decisão do pai. Afinal, esgotada, adormeceu.

E na noite sua mente ordenou, e no escuro seu corpo ficou. E ao acordar de manhã, os olhos ainda ardendo de tanto chorar, a Princesa percebeu que algo estranho se passava. Com quanto medo correu ao espelho! Com quanto espanto viu cachos ruivos rodeando-lhe o queixo! Não podia acreditar, mas era verdade. Em seu rosto, uma barba havia crescido.

Passou os dedos lentamente entre os fios sedosos. E já estendia a mão procurando a tesoura, quando afinal compreendeu. Aquela era a sua resposta. Podia vir o noivo buscá-la. Podia vir com seus soldados, suas ovelhas e suas moedas. Mas, quando a visse, não mais a quereria. Nem ele nem qualquer outro escolhido pelo Rei.

Salva a filha, perdia-se porém a aliança do pai. Que tomado de horror e fúria diante da jovem barbada, e alegando a vergonha que cairia sobre seu reino diante de tal estranheza, ordenou-lhe abandonar o palácio imediatamente.

A Princesa fez uma trouxa pequena com suas jóias, escolheu um vestido de veludo cor de sangue. E, sem despedidas, atravessou a ponte levadiça, passando para o outro lado do fosso. Atrás ficava tudo o que havia sido seu, adiante estava aquilo que não conhecia.

Na primeira aldeia aonde chegou, depois de muito caminhar, ofereceu-se de casa em casa para fazer serviços de mulher. Porém ninguém quis aceitá-la porque, com aquela barba, parecia-lhes evidente que fosse homem.

Na segunda aldeia, esperando ter mais sorte, ofereceu-se para fazer serviços de homem. E novamente ninguém quis aceitá-la porque, com aquele corpo, tinham certeza de que era mulher.

Cansada mas ainda esperançosa, ao ver de longe as casas da terceira aldeia, a Princesa pediu uma faca emprestada a um pastor, e raspou a barba. Porém, antes mesmo de chegar, a barba havia crescido outra vez, mais cacheada, brilhante e rubra do que antes.

Então, sem mais nada pedir, a Princesa vendeu suas jóias para um armeiro, em troca de uma couraça, uma espada e um elmo. E, tirando do dedo o anel que havia sido de sua mãe, vendeu-o para um mercador, em troca de um cavalo.

Agora, debaixo da couraça, ninguém veria seu corpo, debaixo do elmo, ninguém veria sua barba. Montada a cavalo, espada em punho, não seria mais homem, nem mulher. Seria guerreiro.

E guerreiro valente tornou-se, à medida que servia aos Senhores dos castelos e aprendia a manejar as armas. Em breve, não havia quem a superasse nos torneios, nem a vencesse nas batalhas. A fama da sua coragem espalhava-se por toda parte e a precedia. Já ninguém recusava seus serviços. A couraça falava mais que o nome.

Pouco se demorava em cada lugar. Lutava cumprindo seu trato e seu dever, batia-se com lealdade pelo Senhor. Porém suas vitórias atraíam os olhares da corte, e cedo os murmúrios começavam a percorrer os corredores. Quem era aquele cavaleiro, ousado e gentil, que nunca tirava os trajes de batalha? Por que não participava das festas, nem cantava para as damas? Quando as perguntas se faziam em voz alta, ela sabia que era chegada a hora de partir. E ao amanhecer montava seu cavalo, deixava o castelo, sem romper o mistério com que havia chegado.

Somente sozinha, cavalgando no campo, ousava levantar a viseira para que o vento lhe refrescasse o rosto acariciando os cachos rubros. Mas tornava a baixá-la, tão logo via tremular na distância as bandeiras de algum torreão.

Assim, de castelo em castelo, havia chegado àquele governado por um jovem Rei. E fazia algum tempo que ali estava.

Desde o dia em que a vira, parada diante do grande portão, cabeça erguida, oferecendo sua espada, ele havia demonstrado preferi-la aos outros guerreiros. Era a seu lado que a queria nas batalhas, era ela que chamava para os exercícios na sala de armas, era ela sua companhia preferida, seu melhor conselheiro. Com o tempo, mais de uma vez, um havia salvo a vida do outro. E parecia natural, como o fluir dos dias, que suas vidas transcorressem juntas.

Companheiro nas lutas e nas caçadas, inquietava-se porém o Rei vendo que seu amigo mais fiel jamais tirava o elmo. E mais ainda inquietava-se, ao sentir crescer dentro de si um sentimento novo, diferente de todos, devoção mais funda por aquele amigo do que um homem sente por um homem. Pois não podia saber que à noite, trancado o quarto, a princesa encostava seu escudo na parede, vestia o vestido de veludo vermelho, soltava os cabelos, e diante do seu reflexo no metal polido, suspirava longamente pensando nele.

Muitos dias se passaram em que, tentando fugir do que sentia, o Rei evitava vê-la. E outros tantos em que, percebendo que isso não a afastava da sua lembrança, mandava chamá-la, para arrepender-se em seguida e pedia-lhe que se fosse.

Por fim, como nada disso acalmasse seu tormento, ordenou que viesse ter com ele. E, em voz áspera, lhe disse que há muito tempo tolerava ter a seu lado um cavaleiro de rosto sempre encoberto. Mas que não podia mais confiar em alguém que se escondia atrás do ferro. Tirasse o elmo, mostrasse o rosto. Ou teria cinco dias para deixar o castelo.

Sem resposta, ou gesto, a Princesa deixou o salão, refugiando-se no seu quarto. Nunca o Rei poderia amá-la, com sua barba ruiva. Nem mais a quereria como guerreiro, com seu corpo de mulher. Chorou todas as lágrimas que ainda tinha para chorar. Dobrada sobre si mesma, aos soluços, implorou ao seu corpo que lhe desse uma solução. Afinal, esgotada, adormeceu.

E na noite seu mente ordenou, e no escuro seu corpo brotou. E ao acordar de manhã, com os olhos inchados de tanto chorar, a Princesa percebeu que algo estranho se passava. Não ousou levar as mãos ao rosto. Com medo, quanto medo! Aproximou-se do escudo polido, procurou seu reflexo. E com espanto, quanto espanto! Viu que, sim, a barba havia desaparecido. Mas em seu lugar, rubras como os cachos, rosas lhe rodeavam o queixo.

Naquele dia não ousou sair do quarto, para não ser denunciada pelo perfume, tão intenso, que ela própria sentia-se embriagar de primavera. E perguntava-se de que adiantava ter trocado a barba por flores, quando, olhando no escudo com atenção, pareceu-lhe que algumas rosas perdiam o viço vermelho, fazendo-se mais escuras que o vinho. De fato, ao amanhecer, havia pétalas no seu travesseiro.

Uma após a outra, as rosas murcharam, despetalando-se lentamente. Sem que nenhum botão viesse substituir as flores que se iam. Aos poucos, a rósea pele aparecia. Até que não houve mais flor alguma. Só um delicado rosto de mulher.

Era chegado o quinto dia. A Princesa soltou os cabelos, trajou seu vestido cor de sangue. E, arrastando a cauda de veludo, desceu as escadarias que a levariam até o Rei, enquanto um perfume de rosas se espalhava no castelo.

1) Qual é a hora de casar, segundo o texto?

2) Em troca de que o Rei daria a princesa em casamento?

3) Observe a frase: “E na noite sua mente ordenou, e no escuro seu corpo ficou.” (3º parágrafo). O que a mente da princesa ordenou? Qual foi a consequência disso?

4) Qual foi a reação do rei? Por que ele agiu dessa forma?

5) O que a princesa levou consigo, ao deixar o castelo?

6) Quais foram os serviços que a Princesa procurou e por que ela foi rejeitada?

7) Por que ela vendeu suas jóias? De que forma ela passou a viver depois disso?

8) Quanto tempo a princesa ficava em cada reino? E quando ela sabia que era a hora de partir? Por quê?

9) Certo dia a princesa chegou ao reino de um jovem Rei. Como ele a tratava?

10) Observe a frase: “Muitos dias se passaram em que, tentando fugir do que sentia, o Rei evitava vê-la.”(18º parágrafo). Do que o rei fugia? E por quê?

11) Depois disso, o que o jovem Rei ordenou?

12) Observe: “E na noite sua mente ordenou, e no escuro seu corpo brotou”(20º parágrafo). O que a mente da princesa ordenou dessa vez? A solução foi a mesma da primeira vez? Justifique:

13) Releia a frase: “Salva a filha, perdia-se porém a aliança do pai.”(5º parágrafo). Pesquise o significado da palavra destacada e responda com qual sentido ela foi empregada no texto.

14) Observe a frase: “Por fim, como nada disso acalmasse seu tormento, ordenou que viesse ter com ele.” (19º parágrafo). 
a) Ao que se refere, no texto, o pronome “(d)isso” destacado?
b) Pesquise o significado da palavra “tormento” e responda: o que nada conseguia acalmar?
c) Explique a expressão: “viesse ter com ele”.

15) Há, no texto, diversas passagens que se referem a cor vermelha. A cor vermelha está presente em que? Por que você acha que foi escolhida essa cor?

16) De que forma o narrador refere-se ao “espelho”?

17) Há, no texto, uma palavra sinônima de “cochichos”. Que palavra é essa?

18) Quais os adjetivos que caracterizam o substantivo “cavaleiro”, no 13º parágrafo?

19) Que palavra foi usada para introduzir a pergunta, no primeiro parágrafo do texto?

20) O pronome demonstrativo "aquela" refere-se a que termo empregado anteriormente, na frase?

21) O pronome demonstrativo "isso", no primeiro parágrafo do texto, faz referência a quê?

22) Releia a frase: "Isso descobriu a Princesa na tarde em que o Rei mandou chamá-la e, sem rodeios, lhe disse que, tendo decidido fazer aliança com o povo das fronteiras do Norte, prometera dá-la em casamento ao seu chefe." (1º parágrafo).
a) O pronome pessoal obliíuo "la" foi usado para referir-se a quem?
b) Que outro pronome foi usado para referir-se à princesa, neste trecho?
c) O pronome possessivo "seu" estabelece uma relação de posse entre quais substantivos  deste contexto?

23) Há, no segundo parágrafo do texto, dois pronomes possessivos, ou seja, pronomes que indicam que algo pertence a alguém. Destaque-os e indique a relação de posse estabelecida.

24) Observe o seguinte trecho: "Podia vir o noivo buscá-la. Podia vir com seus soldados, suas ovelhas, suas moedas. (4º parágrafo). 
a) Os pronomes possessivos destacados indicam que os soldados, as ovelhas e as moedas pertencem a quem?
b) O pronome pessoal oblíquo "la" refere-se a quem?

25) Observe: "E tirando do dedo o anel que havia sido de sua mãe, vendeu-o para um mercador em troca de um cavalo." (10º parágrafo).
a) Destaque o pronome possessivo.
b) O pronome pessoal oblíquo destacado "o" foi usado para evitar a repetição de que outro termo já usado anteriormente.

26) Na frase: "A fama de sua coragem espalhava-se por toda a parte e a precedia." *
(12º parágrafo).
a) Localize o pronome possessivo presente na frase e indique o que pertence a quem.
b) O pronome pessoal oblíquo "a" refere-se a quem?

27) Na frase: "Mas tornava a baixá-la." (14º parágrafo). O pronome destacado refere-se:
(   ) à viseira.
(   ) às bandeiras.
(   ) à princesa.

28) Assinale a alternativa que substitui, corretamente, as expressões destacadas nas frases abaixo:
a) "Soltava os cabelos." (17º parágrafo)
(    ) Soltava-os.
(    ) Soltava-o.
(    ) Soltava-lhes.

b) "Ou teria cinco dias para deixar o castelo." (18º parágrafo).
(    ) Ou teria cinco dias para deixar-o.
(    ) Ou teria cinco dias para deixá-lo.
(    ) Ou teria cinco dias para deixar-lhe.

c) "Sem que nenhum botão viesse substituir as flores [...]." (23º parágrafo).
(   ) Sem que nenhum botão viesse substituí-lhe."
(   ) Sem que nenhum botão viesse substituir-lhe."
(   ) Sem que nenhum botão viesse substituí-las"

29)  Releia o trecho abaixo e responda as questões:
"E outros tantos em que percebendo que isso não a afastava da sua lembrança, mandava chamá-la para arrepender-se em seguida e pedia-lhe que se fosse." (18º parágrafo).
a) Qual (is) dos pronomes destacados refere-se à princesa?
b) Qual (is) se referem ao Rei?









terça-feira, 14 de julho de 2015

ADMIRÁVEL MUNDO LOUCO - Ruth Rocha - Atividades para o 6º ano

ADMIRÁVEL MUNDO LOUCO
Ruth Rocha

Este manuscrito foi encontrado entre os pertences do professor Sintomático de Aquino, que como se sabe, era ufólogo convicto e militante, tendo deixado, por ocasião de sua morte, mais de trezentos documentos, nos quais procurava provar a existência de vida inteligente fora do planeta Terra.
 (A existência de vida inteligente no planeta Terra é um ioutro problema, de que se ocupam outros ilustres especialistas).

Não sabemos se este manuscrito é autêntico.
 Parece que foi encontrado não se sabe onde, traduzido não se sabe por quem, e será lido ou não, por não se sabe o tipo de pessoa.
Em todo caso o que sabemos é que procuramos tornar o texto legível, já que achamos que conviria muito bem para completar um livro que vínhamos compondo há tempos e para o qual já não tínhamos mais assunto.

O autor deste manuscrito refere-se às vezes aos habitantes do nosso planeta com alguma ironia.
Mas vocês vão notar que o relatório em questão não obedece a um rigor científico na sua exposição, de maneira que não devemos nos impressionar muito com ele.
 Algumas palavras, como o leitor inteligente não poderá deixar de notar, não pertencem a nossa língua. Foram conservadas na forma original.
 Mas não oferece nenhuma dificuldade à compreensão do texto.

Não sabemos por que mãos terá andado este manuscrito, nem que distorções terá ele sofrido. 
É desta forma que o apresentamos ao distinto público...

Sou estudante de Fláritis, na Universidade de Flutergues.
 Por acaso, passeando no disco voador Firula 3 fui parar no conjunto estelar Fléquites.
 Como estivesse sem combustível, tentei descer em algum planeta a fim de poder me reabastecer.
O 3° planeta deste sistema me pareceu jeitoso, pois nele há grandes massas de água.
 Como todos sabemos, este planeta é habitado por seres estranhíssimos, uns diferentes dos outros.

Parece que uma das espécies domina as outras como acontecia no finado planeta Flórides. (Por quê?)
Vamos chamar estes espécimes de freguetes, que são a coisa mais parecida com os terráqueos de que eu me lembro.
 Como é que eles são?
 Vou tentar descrevê-los.
Em cima eles têm uma esfera, só que não é bem redonda.
 De um lado da esfera tem uns fios muito finos, que são de muitas cores.
 Do outro lado tem o que eu acho que é a cara deles.
 Na cara, bem em cima, eles têm umas bolas que eles chamam de olhos. É por aí que sai, ás vezes uma agüinha. Mas só as vezes.
 Um pouco mais em baixo tem uma coisa que salta pra fora, com dois buraquinhos bem embaixo.
 Isso eles chamam de nariz.
 Mais abaixo ainda tem uma buraco grande, cheio de grãos brancos e tem uma coisa vermelha que mexe muito.
Os freguetes estão sempre botando dentro deste buraco uma coisa que eles chamam de comida.
Essa tal de comida é que dá a eles energia, como a nossa fagula.
 Tem uns que botam bastante comida dentro. Tem outros que só botam de vez em quando.
 Esses buracos servem pra outras coisas, também.
 É por aí que saem uns sons horrorosos que é a voz lá deles.
 Embaixo da bola tem um tubo que une a bola ao corpo.
 Do corpo saem quatro tubos: dois pra baixo e dois pros lados.
 Os tubos de baixo, que se chamam pernas, chegam até o chão e servem para empurrar os freguetes de um lado pro outro.
A coisa funciona mais ou menos assim: um tubo fica fincado no chão, enquanto o outro se projeta para a frente e se finca no chão, por sua vez.
 Quando o segundo tubo está fincado, o primeiro se projeta para frente e assim por diante.
 Eles chamam isso - andar.
 Bem embaixo dos tubos, onde eles se fincam no chão, geralmente eles enfiam umas cápsulas duras, acho que pra proteger as pontas dos tubos.
 Os tubos que saem pros lados se chamam braços; têm cinco tubinhos em cada ponta. E com essas pontas eles pegam nas coisas.
 Vou tentar fazer uns esquemas de como eles são, para que todos entendam melhor.
 Por mais absurdos que estes esquemas pareçam é assim mesmo que eles são. É inútil chamarem minha atenção para o fato de que eles não parecem obedecer a um padrão lógico de desenvolvimento.
 Eu também acho que não.
Eles moram, quase todos, amontoados nuns lugares muito feios, que eles chamam de cidades.


Esses lugares cheiram muito mal por causa de umas porcarias que eles fabricam e de umas nuvens escuras que saem de uns tubos muito grandes que por sua vez saem de dentro de umas caixas que eles chamam de fábricas.
 Parece que eles vivem dentro de outras caixas.
 Algumas destas caixas são grandes, outras são pequenas. 
Nem sempre moram mais freguetes nas caixas maiores.
 Às vezes acontece o contrário: nas caixas grandes moram pouquinhos freguetes e nas caixas pequenininhas mora um monte deles. (Por quê?)
 Nas cidades existem muitas caixas amontoadas umas nas outras.
 Parece que dentro destes amontoados há um tubo, por onde corre um carrinho na direção vertical, chamado elevador, porque eleva as pessoas pra o alto dos amontoados.
 Não ouvi dizer que eles tenham descedores, o que me leva a acreditar que eles pulem lá de cima até embaixo, de alguma maneira que eu não sei explicar.
Quando fica claro, eles saem das caixas deles e todos começam a ir pra outro lugar de onde vieram.
 Não sei como é que eles encontram, o lugar de onde eles saíram, mas encontram; e entram outra vez nas caixas.
 Assim que eu cheguei era um pouco difícil compreender o que eles diziam. Mas logo, logo, graças a meus estudos de flóbitos, consegui aprender uma porção das línguas que eles falam.
 Ah, porque eles falam uma porção de línguas diferentes.
E como é que eles se entendem?
 E quem foi que disse que eles se entendem?
 Quer dizer, tem uns que entendem os outros, mas não é todo mundo, não.
 Eles vivem brigando muito, os grandes brigam com os pequenos o tempo todo e então os bem pequenos começam a gritar e a gritar e é aí que sai água das bolas que eles têm na cara.
 Algumas pessoas de um lugar brigam com as pessoas de outro lugar e eles chamam isso de guerra e então eles jogam uns nos outros umas coisas que destroem tudo que eles passam um tempão fazendo. E até destroem eles mesmos.
É muito difícil explicar esta tal de guerra porque eu também não entendi. Não sei direito pra que é que serve esta tal de guerra. Acho que é pra gastar as tais coisas que eles jogam uns nos outros e que eles fabricam em grandes quantidades e que fazem as cidades ficarem cada vez mais fedorentas. 
Eles gostam muito de jogar coisas uns nos outros.
 Tem até uma festa que eles chamam Carnaval e eles jogam pedacinhos de umas coisas coloridas uns nos outros, enquanto ficam gritando muito. 
Essas coisas coloridas sujam muito e então vem uns freguetes que recolhem toda aquela sujeira e jogam num lugar onde eles guardam uma porção de porcarias que ninguém quer.
E embora ninguém queira eles ficam o tempo todo fabricando essas porcarias.
Eu poderia ainda contar muitas coisas sobre este planeta. Mas como eu não entendi quase nada, acho que não adianta muito.
 Recomendo, por isso uma nova visita ao planeta, ,mas com muito cuidado, por um grupo especializado em planetas de alto risco. (Por quê?)
 Pois este planeta, que é chamado por seus freguetes de Terra - e incrivelmente semelhante ao planeta Flórides do sistema Flíbito, que se desintegrou, na era Flatônica, não se sabe por que, mas, que nessa ocasião desprendeu grandes nuvens de fumaça em forma de cogumelos...

1) Prólogo é um texto introdutório e explicativo de uma obra literária. No texto lido, o prólogo está destacado em itálico. Releia-o e assinale quais das opções abaixo são informadas por ele.
(   ) A existência de vida inteligente na Terra.
(   ) A autenticidade do manuscrito.
(   ) O manuscrito pertencia ao professor Sintomático de Aquino, um ufólogo convicto e militante.
(   ) O ufólogo traduziu o manuscrito.
(   ) O manuscrito era parte de um livro.
(   ) O manuscrito referia-se ao planeta Terra.
(   ) O manuscrito prova a existência de vida inteligente fora do Planeta Terra.

2) No prólogo, somos informados sobre a profissão do professor Sintomático de Aquino. O que ele fazia? Quais são as atribuições desse tipo de profissional?

3) Qual era o objetivo do professor?

4) É possível determinar, no texto, de que planeta estava  falando o estudante universitário de Fláritis? Transcreva do texto um trecho que comprove isso?

5) Na frase: "Parece que uma das espécies domina as outras” (3º parágrafo). Reflita: qual é a espécie que domina e qual é a espécie dominada na Terra? Por que isso acontece?

6) De que forma o “extraterrestre” chama os humanos?

7) Como ele se refere:
a) À cabeça:
b) Aos olhos:
c) Ao nariz:
d) Às lágrimas:
e) À boca:
f) Aos dentes:
g) À língua:
8) Desenhe como seria o ser humano, a partir da descrição feita pelo “extraterrestre”, no texto.

9) Como é explicada a função de caminhar?

10) Como o extraterrestre denominou o sapato?

11) Onde moram os Freguetes? Como nós chamamos esses lugares?

12) Como o extraterrestre acredita que as pessoas descem dos “amontoados”? Por que ele concluiu isso?

13) No final do texto, o narrador afirma que a Terra é perigosa e semelhante ao planeta Flórides que se desintegrou. Como isso aconteceu e por que ele acredita que isso poderia acontecer na terra?

14) Que tipo de narrador tem o texto?